Família síria reconstrói vida em SP após dois anos em campo de refugiados na Jordânia

Yusra e sua família fugiram da guerra na Síria. Eles viveram por dois anos em um campo da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Zaatari, na Jordânia, até conseguir viajar ao Brasil e recomeçar a vida em São Paulo.

Foi uma longa e perigosa jornada desde Idlib, próximo à fronteira com a Turquia, até o Brasil. O caminho foi marcado por perdas, violência e tristeza. Mais de 50 amigos da família morreram. Bombas estouraram perto de Yusra e de seus filhos. Com o tempo, cenas de violência e histórias de barbárie se tornaram cotidianas.

Hoje, a vida de Yusra se divide entre tarefas da casa, cuidar da família, frequentar aulas de português e estudar na mesquita do bairro onde mora, na capital paulista. O filho Mustafa trabalha e sustenta a casa, enquanto o marido Khaled busca recolocação no mercado de trabalho. Leia o relato completo.

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A história de Yusra e de sua família é uma história de sobrevivência. Depois de perder 150 familiares na guerra da Síria, a família recomeçou a vida em São Paulo, há três anos. “Aqui conquistamos nossa liberdade”, declarou.

Yusra é casada com Khaled e tem três filhos — Mustafa, de 18 anos, Hanna, de 16, e Yara, de 5, que nasceu no campo de refugiados de Zaatari. A família levava uma vida confortável em Idlib. “Tínhamos a nossa casa, nossa terra e plantávamos o que precisávamos. Era um lugar lindo”.

Foi uma longa e perigosa jornada desde Idlib, próximo à fronteira com a Turquia, até o Brasil. O caminho foi marcado por perdas, violência e tristeza. Mais de 50 amigos da família morreram. Bombas estouraram perto dela e de seus filhos. Com o tempo, cenas de violência e histórias de barbárie se tornaram cotidianas.

“Nessas horas você vê que só a vida é importante. Não tem uma escolha. A escolha é pela vida. O resto a gente deixa para trás.”

Mais de 12 milhões de sírios foram forçados a deixar suas casas e fugir por conta da guerra. Isso representa mais da metade da população de cerca de 18 milhões de pessoas.

Yusra conta que a família não queria deixar sua terra, abandonar raízes, amigos e familiares. No entanto, quando seu marido foi preso, tudo mudou. Khaled começou a ser perseguido em Idlib por levar feridos para o hospital do outro lado da fronteira. Preso por onze meses, ele ainda carrega as marcas do que descreve como o pior período de sua vida. Enquanto esteve na cadeia, Yusra viveu com seus dois filhos na casa do irmão em uma pequena cidade na Turquia, próxima à fronteira.

Quando o marido foi solto, a família fugiu para Damasco. Khaled teve que viver trancado no apartamento porque ainda estava sendo perseguido. As crianças não podiam sequer estudar, pois poderiam ser seguidas até em casa. No entanto, um dia o rastrearam, mas, por sorte, entraram na casa da vizinha, dando à família a chance de escapar.

Decidiram, então, gastas as economias para até Daraa, na fronteira com a Jordânia, atravessando 330 km. De lá, seria possível chegar até o campo de refugiados de Zaatari. Fizeram o caminho separados, um carro levou Yusra e as crianças, enquanto Khaled teve que ir a pé com um grupo de sírios. Era perigoso irem juntos.

No campo de refugiados de Zaatari, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) fornece ajuda humanitária vital para os refugiados sírios, apoiando as pessoas mais vulneráveis com dinheiro para remédios e alimentos, fogões e combustível para aquecimento, isolamento para tendas, cobertores térmicos e roupas de inverno.

“Na noite em que chegamos a Zaatari nos levaram até uma barraca. Eu estava tão exausta de todo o estresse que deitei e dormi no chão mesmo, sem nada. Foi a primeira vez que dormi bem em muito tempo.”

A família morou no campo por dois anos. No início, moraram em uma barraca, posteriormente, conseguiram ir para uma unidade habitacional inovadora que tem divisórias para cômodos, janelas e iluminação por energia solar. Ainda assim, a vulnerabilidade era grande.

“A vida no campo era difícil. Você fica muito vulnerável. Dependíamos de ajuda para comer, nos vestir e nos aquecer. Só tínhamos o que nos davam. Os banheiros eram compartilhados por muitas pessoas. Era tanta terra e poeira que quando a gente passava uma toalha ela saia marrom.”

Atualmente, cerca de 80 mil refugiados sírios vivem no campo de refugiados do ACNUR em Zaatari, sendo que 20% tem menos de 5 anos de idade. Eles precisam da ajuda dos demais para sobreviver.

A família estava sem esperança e sem escolha. Não havia mais uma casa na Síria para voltar e os países árabes não os acolheram. Foi então que Khaled descobriu que seu passaporte só tinha mais 20 dias de validade: se não saíssem agora, não conseguiriam mais. Ele tinha um irmão que já estava vivendo no Brasil, então, mesmo resistente à ideia, foi à embaixada brasileira na Jordânia.

“Me deram bom dia e me ofereceram uma limonada. Se solidarizaram com a situação da minha família, Yara era uma bebê pequena, e consegui o visto”, declarou.

Ao chegar ao Brasil, Khaled buscou apoio da IKMR, parceiro do ACNUR que o ajudou a preparar toda a documentação para a vinda da família — suas filhas não tinham nenhum registro de identificação ou documento, tudo se perdeu na guerra. Graças à ajuda que recebeu, em três meses a família estava reunida em São Paulo. Com o tempo, conseguiram trazer a mãe de Khaled, que hoje também vive com eles.

“Chegar aqui foi recuperar a liberdade. Os parceiros do ACNUR nos ajudaram muito. Tivemos apoio para solicitar refúgio, para inscrever nossos filhos na escola, acesso a aulas de português, e até hoje levam as crianças em passeios. Gosto muito deles.”

Para Hanna, a filha do meio, a adaptação não foi fácil e no início sofreu bullyng na escola: “tenho orgulho do meu véu”, conta determinada. Hanna sonha em ser jornalista para poder contar as histórias das pessoas.

Hoje a vida de Yusra se divide entre tarefas da casa, cuidar da família, frequentar aulas de português e estudar na mesquita do bairro onde mora. O filho Mustafa trabalha e sustenta a casa, enquanto Khaled se recoloca no mercado de trabalho.

Agora, tudo o que esperam é um futuro para seus filhos no Brasil. Depois de tanta dor, não há espaço para saudades. “Foram tantas perdas que o coração vira uma pedra. A gente mantém o espírito alegre pelas crianças, mas estou vazia. Meu coração é vazio. Não tenho mais lágrimas para chorar”.

O ACNUR atua na emergência da Síria desde o começo. É a principal agência da ONU em proteção, abrigo, serviços comunitários e distribuição de itens essenciais dentro da Síria. Mas não é só isso: está ao lado dos refugiados em todos os passos da sua jornada.

No Brasil, apoia por meio de parceiros locais cursos de português, revalidação de diploma, documentação, atuando para que as famílias se integrem e tenham a chance de viver em melhores condições.

Seja um doador do ACNUR e ajude refugiadas como Yusra a reconstruir suas vidas. E seus sonhos.