Fechar fronteiras internacionais é impossível e só fortalece o tráfico de pessoas, alerta relator da ONU

Mais de 200 mil migrantes e requerentes de asilo chegaram à Europa por mar em 2014, em comparação com 80 mil em 2013, de acordo com estimativas atuais.

Imigrantes chegando à Ilha de Lampedusa, na Itália, depois de atravessar o Mediterrâneo em embarcação em péssimas condições. Foto: ACNUR/F. Noy

Imigrantes chegando à Ilha de Lampedusa, na Itália, depois de atravessar o Mediterrâneo em embarcação em péssimas condições. Foto: ACNUR/F. Noy

A capacidade de migrantes de chegar ao solo europeu, apesar de um enorme investimento em segurança das fronteiras internacionais, mostra que impedi-los é impossível, e só serve para dar mais poder aos traficantes de pessoas na região do Mediterrâneo, disse o relator especial das Nações Unidas sobre os direitos humanos dos migrantes, François Crépeau, nesta terça-feira.

“A União Europeia e os seus Estados-membros devem reconhecer que a migração irregular é um resultado de políticas que proíbem a imigração”, disse Crépeau durante a apresentação do seu mais recente relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. “Essas políticas só servem para abrir um novo e lucrativo mercado para anéis de contrabando, num mercado que não poderia existir sem esta proibição”.

Crépeau acrescentou que “a UE deve desenvolver mais políticas de redução de danos, tendo como preocupação central os direitos humanos dos migrantes, e criar opções de mobilidade inovadoras regulamentadas que incentivem a maioria dos migrantes e requerentes de asilo a evitar recorrer a traficantes”. Além disso, ele disse que “em vez submeter as pessoas a mecanismos que não respondem às suas necessidades, precisamos entender a lógica de suas decisões e criar políticas que correspondam melhor às competências dos migrantes e às necessidades do mercado de trabalho”.

Mais de 200 mil migrantes e requerentes de asilo chegaram à Europa por mar em 2014, em comparação com 80 mil em 2013, de acordo com estimativas atuais. Até agora este ano, o número já passa de 100 mil, com alguns países relatando chegadas diárias.