A necessidade urgente de angariar recursos para cumprir os objetivos de financiamento do Acordo de Paris para o clima, principalmente para apoiar as ações em países em desenvolvimento, foi o tema central da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP23), que continua esta semana em Bonn, na Alemanha.

Painéis solares usados para iluminação doméstica, no Sri Lanka. Foto: Banco Mundial/Dominic Sansoni.
A necessidade urgente de angariar recursos para cumprir os objetivos de financiamento do Acordo de Paris para o clima, principalmente para apoiar as ações em países em desenvolvimento, foi o tema central da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP23), que continua esta semana em Bonn, na Alemanha.
“Precisamos que todos os atores financeiros — públicos, privados, domésticos, internacionais —, e inclusive os mercados e reguladores, trabalhem juntos para mobilizar de forma efetiva pelo menos o valor de 1,5 trilhão de dólares necessário a cada ano para o financiamento climático”, disse o chefe da Iniciativa Financeira da ONU Meio Ambiente, Eric Usher.
Como parte do “Dia das Finanças para o Clima” na COP23, representantes de alto-nível sobre o tema destacaram seus esforços para alcançar as objetivos do Acordo de Paris, que são, principalmente, manter o aumento da temperatura média global em menos de 2 graus Celsius e o mais próximo possível de 1,5 grau.
Os representantes ressaltaram que cada dólar investido em diminuir as emissões de gás de efeito estufa e em se adaptar às alterações climáticas representa um benefício em dobro, pois contribuirá diretamente para a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da comunidade internacional.
Segundo o secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas para a Mudança do Clima (UNFCC), principal órgão da ONU na área de mudanças climáticas, o financiamento climático está acontecendo a um ritmo nunca visto antes, com mercados vibrantes e crescentes na área da energia renovável, carros elétricos, construções verdes e agricultura climaticamente inteligente.
O crescimento ambicioso está sendo apoiado por avanços exponenciais em instrumentos, índices e mercados de financiamento verde cada vez mais inovadores.
Da mesma forma, o setor financeiro está reconhecendo mais onde e como as alterações climáticas apresentam riscos para os investimentos existentes, como também a necessidade de ajustar suas carteiras para longe de ativos que envolvem o uso intensivo de carbono.
Apesar disso, ainda há muito a ser feito para garantir o financiamento e o investimento na escala necessária para alcançar uma economia global totalmente livre de carbono e resistente ao clima até 2050.
“O potencial que têm os investimentos climaticamente amigáveis, em áreas como energia limpa e agricultura climaticamente inteligente, é gigantesco”, disse Laura Tuck, vice-presidente do Banco Mundial para o Desenvolvimento Sustentável.
“A chave está em obter os fundos necessários para que todos possam se beneficiar, em todo lugar, dos investimentos em baixo carbono e resistentes às alterações”, complementou Laura.
Peter Damgaard Jensen, presidente-executivo do fundo de pensão dinamarquês PKA e presidente do Grupo de Investidores Institucionais para a Mudança Climática (IIGCC, em inglês), disse numa coletiva de imprensa que é “extremamente importante que haja um aumento significativo do nível de conscientização e de ação dos investidores nos esforços de transição para uma economia de baixo carbono”.
Segundo Jensen, os sinais de investimentos fortes por parte dos formuladores de políticas públicas nas áreas de comércio de carbono, energia, transporte e infraestrutura são essenciais para liberar o capital necessário.
Membros da sociedade civil de países africanos e legisladores se pronunciaram sobre a urgência do financiamento climático, pré-requisito indispensável para as ambiciosas ações dessas nações.
“A África é o continente que polui menos, porém, é a África a que sofre com os efeitos das alterações climáticas”, disse numa coletiva de imprensa Roger Nkodo Dang, presidente do Parlamento Pan-Africano, órgão legislativo da União Africana.
Nkodo Dang acrescentou que países desenvolvidos têm a responsabilidade de fornecer ajuda adicional aos africanos para o desenvolvimento verde. “Se vocês pedirem para que nós paremos de usar madeira, nós pediremos eletricidade. Não se trata de um favor, trata-se uma compensação”, concluiu.
Conferência climática reconhece papel das mulheres
No marco da semana final de negociações da COP23, a presidência do Fiji, anfitriã do encontro, anunciou no último domingo (12) um acordo sobre um Plano de Ação sobre Gênero, que destacará o papel das mulheres nas ações de luta contra as alterações climáticas.
Numa coletiva de imprensa, o presidente da COP23 e primeiro-ministro do Fiji, Frank Banimarama, anunciou que as partes finalizaram a elaboração do plano, que ainda precisa ser adotado.
“O plano tratará da integração de uma abordagem de gênero em todo o trabalho em torno das políticas climáticas, tanto nacionais quanto internacionais”, acrescentou Nazhat Shameen Khan, chefe de negociações da presidência da COP23.
Chefes de Estado, ministros e o secretário-geral da ONU, António Guterres, estarão presentes durante a sessão de alto nível do encontro, nos dias 15 e 16 de novembro.

Mulheres e homens de uma comunidade local, no Lesoto, participam de consultas para os planos de desenvolvimento locais contra os impactos da ação climática e insegurança alimentar. Foto: FAO (arquivo).
Governos e corporações anunciam novas ações
Também no domingo (12), países e corporações anunciaram novas iniciativas para cortar as emissões e estabelecer programas de gerenciamento florestal sustentáveis.
Os esforços representam uma iniciativa global para diminuir 15 toneladas de emissões de CO2 no setor das florestas, que inclui o compromisso de empresas e corporações com atividades no mundo todo.
A varejista Walmart manifestou seu compromisso em usar commodities que não sejam produto do desmatamento, enquanto a Mars Inc. anunciou sua nova política de diminuir sua pegada de carbono em 27% até 2025 e em 67% até 2050, abordando o problema do desmatamento na cadeia de valor corporativa da empresa. O Parque Nacional do Gabão, por sua parte, se comprometeu a combater a exploração madeireira ilegal.
“As florestas tem a capacidade incrível de armazenar carbono, e nós temos subestimado isso”, disse Inger Andersen, diretor-geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), numa coletiva de imprensa.
“Proteger e recuperar nossas florestas é fundamental para cumprir com o Acordo de Paris e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, disse Andersen.
Centenas de companhias se comprometem com a ação climática
O setor industrial, também presente no encontro em Bonn, disse que cumprirá com a redução das emissões de gás de efeito estufa estabelecidas no Acordo de Paris.
No entanto, afirmou que políticas e parcerias para as estratégias de implementação, trabalhando de maneira mais próxima com os governos, tanto no plano nacional quanto no internacional, ajudará as empresas a tomar ações mais rápidas e avançadas.
“A indústria está tomando ações contra a mudança climática como nunca antes na história”, disse Peter Bakker, presidente-executivo do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, uma organização global que conta com empresários de mais de 200 empresas que trabalham para o desenvolvimento sustentável).
“A transição para a economia de baixo carbono é inevitável, e as empresas continuarão implementando as soluções necessárias para cumprir com o Acordo de Paris”, acrescentou Bakker.
Desde 2015, mais de 600 companhias com receitas que, juntas, chegam a 15 trilhões de dólares, comprometeram-se com mais de 1 mil ações climáticas por meio da “We Mean Business”, uma coalizão global sem fins lucrativos.
Muitas delas estão se aproximando de uma capacidade de 100% de renovação sustentável, além de colaborarem em outros setores para a Iniciativa de Parcerias para a Tecnologia de Baixo Carbono (LCTPi, em inglês).
Líderes locais e regionais assinam compromisso
Líderes locais e regionais do mundo inteiro assinaram o Compromisso de Bonn-Fiji no último domingo (12), garantindo ações para cumprir com o Acordo de Paris.
As cidades são responsáveis por aproximadamente 70% das emissões de gases de efeito estufa provenientes do uso de combustíveis fósseis para a energia e o transporte.
Com mais da metade da população mundial morando em centros urbanos — número que deve alcançar dois terços até 2050 —, o Compromisso Bonn-Fiji impulsionará os esforços para avançar para o desenvolvimento urbano sustentável.
O compromisso engloba 19 iniciativas, incluindo o Pacto de Prefeitos da União Europeia e o Compacto de Prefeitos, que juntos formam o Pacto Global de Prefeitos para o Clima e a energia, a maior coalizão que já existe, com mais de 7,4 mil cidades de seis continentes e 121 países, para diminuir as emissões de gás de efeito estufa e criar sociedades e economias resistentes à mudança climática.
De forma similar, a Organização Mundial da Saúde (OMS), em colaboração com o Secretariado do órgão da ONU para mudanças climáticas (UNFCC) e em parceria com a presidência do Fiji, lançaram uma iniciativa para proteger as populações de ilhas pequenas e países em desenvolvimento, dos impactos à saúde causados pelas mudanças climáticas.
A visão para 2030 é que todas as ilhas pequenas e países em desenvolvimento tenham sistemas de saúde resistentes às alterações climáticas.