Documento organizado por iniciativa do ACNUDH reúne testemunhos de indivíduos de diferentes países, como Síria, Uganda, Argentina, República Democrática do Congo e Coreia do Norte. Conheça aqui a história de um médico do Chile que sofreu tortura ao mesmo tempo em que ajudava seus companheiros do cárcere a lidar com o sofrimento.

Publicação reúne históricas de vítimas de tortura de diferentes partes do mundo, como Síria, Uganda, República Democrática do Congo, Chile e Argentina. Foto: ACNUR / V. Tan
O Fundo Voluntário das Nações Unidas para Vítimas de Tortura (UNVFVT) lançou no final de maio (31) uma publicação que reúne nove histórias de profissionais de assistência e de pessoas que enfrentaram violações de seus direitos humanos em diferentes partes do mundo – Síria, Uganda, Bósnia-Hezergóvina, Chile, Argentina, República Democrática do Congo, Coreia do Norte, entre outros países.
Entre os relatos, o testemunho do médico chileno Jorge Barudy chama atenção para a importância da reabilitação e do cuidado psicológico para as vítimas de tratamento desumano.
Detido no mesmo dia em que um golpe militar derrubou o presidente Salvador Allende – em setembro de 1973, no Chile –, Barudy foi torturado na delegacia central por suposto envolvimento com um “plano secreto” concebido para assassinar policiais e seus familiares. “Não pude lhes dizer nada a respeito, porque esse plano nunca existiu”, conta o médico.
Atualmente, aos 66 anos de idade, o doutor — que se tornou especialista no tratamento de vítimas de tortura — lembra que foi levado até Temuco, cidade transformada em acampamento para prisioneiros.
Segundo Barudy, sua resistência ao sofrimento começou já no ônibus em que a polícia o levava para a prisão.No veículo, ele e outros integrantes da equipe médica do hospital onde trabalhava trocaram números de telefone de familiares e amigos, compartilharam conselhos de sobrevivência e buscaram dar apoio uns aos outros.
“Antes mesmo de perceber, já havia começado a trabalhar como terapeuta de vítimas de torturas”, comenta o médico. A cada novo detento que chegava ao local e havia enfrentado tratamento degradante, Barudy e seus companheiros ofereciam espaços de diálogo e técnicas de relaxamento para aliviar a angústia.
De acordo com o especialista, a estratégia que desenvolveram na época é conhecida hoje como “resiliência”. Quando o retiravam de sua cela para que recebesse choques elétricos, Barudy diz que “podia sentir o apoio de seus camaradas”.
A solidariedade mútua e a capacidade de resistência e recuperação seriam, mais tarde, a base do trabalho terapêutico do médico, liberto em dezembro de 1973 e enviado para o exílio no Peru com sua esposar e dois filhos. Dois anos depois, ele e sua família foram para Bélgica, onde Barudy se tornou neuropsiquiatra.
O chileno trabalhou por 40 anos com refugiados e vítimas de torturas através dos centros EXIL na Bélgica e na Espanha, fundados por ele mesmo e financiados com o auxílio do UNVFVT. Apenas na clínica espanhola, foram atendidas 4,5 mil vítimas de tortura e outros traumas.
Ainda que tenha se tornado um especialista, Barudy confessa que ele mesmo será sempre um paciente. “Através do meu trabalho como psiquiatra e psicoterapeuta, prossigo com minha própria terapia e trabalho para superar a violência e a tortura que deixaram marcas em minha vida.”
Seu projeto recebeu apoio do Fundo da ONU — administrado pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Desde sua criação em 1981, o UNVFVT já distribuiu mais de 168 milhões de dólares para mais de 630 organizações que prestam assistência médica, psicológica, social e jurídica a vítimas de tortura.
Acesse aqui a recente publicação (em inglês apenas) com as histórias de vítimas e profissionais de assistência compiladas pela iniciativa do ACNUDH.