Enviada da ONU para a região africana dos Grandes Lagos elogiou possível retomada das negociações anunciada esta semana. Conflitos recentes forçaram deslocamento de mais de 130 mil pessoas nos últimos meses.

Civis deixam a cidade de Goma. Foto: MONUC/Marie Frechon
Uma funcionária do alto escalão da ONU elogiou nesta sexta-feira (7) a possível retomada das negociações de paz entre o governo da República Democrática do Congo (RDC) e os rebeldes do Movimento 23 de Março (M23).
Em um comunicado durante a semana divulgado pela imprensa, os rebeldes do M23 teriam anunciado a retomada do diálogo, após sua suspensão no mês passado e o aumento da tensão no leste do país.
Mary Robinson, que é enviada da organização para a região africana dos Grandes Lagos, pediu que os dois lados se comprometam com uma solução para as questões pendentes no país.
“[Robinson] pede a ambas as partes para que se envolvam com seriedade em suas discussões, a fim de resolver todas as questões pendentes nas negociações e se mover em direção à normalização da situação no leste da RDC”, disse o comunicado.
“A enviada especial destacou a importância de esforços políticos para alcançar a paz e a segurança para as pessoas no leste da República Democrática do Congo e na região”, acrescentou.
Em novembro passado o M23 – formado por ex-membros das forças armadas do governo que se amotinaram em abril de 2012 – ocuparam a cidade de Goma, no leste da RDC.
Os confrontos entre o governo e os rebeldes deslocaram mais de 130 mil pessoas dentro e no entorno da cidade, forçando a fuga de mais de 47 mil pessoas para a província vizinha de Kivu do Sul. Em meio à condenação generalizada da comunidade internacional, os combatentes se retiraram após 11 dias.
Brasileiro comandará força militar no país
Após os combates, o Conselho de Segurança da ONU autorizou em março o envio de uma brigada de intervenção integrada à missão da ONU no país para realizar operações ofensivas, “com ou sem o exército nacional congolês”, contra os grupos armados. Um contingente de soldados tanzanianos chegou a Goma no mês passado, como parte da brigada.
No último dia 17 de maio, a ONU nomeou um brasileiro – o general de divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz – como comandante da força militar da Missão das Nações Unidas de Estabilização na República Democrática do Congo (MONUSCO).
As tensões têm aumentado na região recentemente, já que os rebeldes do M23 haviam criticado a brigada de intervenção e rompido as negociações de paz com o governo da RDC.

Deslocados internos em Kabindi, no leste do país. Foto: IRIN/Siegfried Modola
Há pouco mais de duas semanas, combates ressurgiram novamente em Goma entre o exército e os rebeldes, mas as hostilidades diminuíram em meio à visita inédita do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e do presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim. Robinson também integrou a delegação.
Os três também visitaram diversos países da região, entre os quais outros dois que sofrem diretamente com os conflitos, Ruanda e Uganda.
Acordo avança em solução política
O objetivo da visita de lideranças da ONU foi reforçar o apoio ao acordo de paz estabelecido recentemente. Durante a visita, o Banco Mundial se comprometeu também a investir 1 bilhão de dólares no desenvolvimento da região.
Mediado pelas Nações Unidas, o acordo foi assinado em fevereiro por 11 líderes africanos e tem como objetivo acabar com os ciclos de conflito e violência no leste da RDC e na região.
Robinson também viajou para a região no final de abril e início de maio para impulsionar a implementação do chamado “Quadro para a Paz, a Segurança e a Cooperação” da RD Congo e região.

Enviado especial da ONU para a Região dos Grandes Lagos, Mary Robinson. Foto: MONUSCO/Sylvain Liechti
No último dia 21 de maio, a funcionária da ONU propôs um conjunto de princípios para a paz que buscam orientar os esforços imediatos para combater a crise na região, mantendo um foco em soluções de longo prazo.
A ideia é reconhecer o sofrimento de milhares de pessoas – a maioria mulheres e crianças – deslocadas pela violência, bem como pedir a aceleração do regresso voluntário dos refugiados na região.
Os princípios pedem ainda a desmobilização de todos os grupos armados ativos no leste da RDC e o respeito ao direito internacional.