Historiador revela no Rio de Janeiro bastidores da criação das Nações Unidas

Em evento na PUC-Rio, o escritor Stephen Schlesinger detalhou as negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética para construir a arquitura de uma organização internacional incluente e guardiã da paz mundial. Atividade inaugura no Brasil o calendário das comemorações dos 70 anos da fundação da ONU.

A palestra de Stephen Schlesinger, autor do livro ‘Ato de Criação: A Fundação das Nações Unidas’, marcou a inauguração do calendário de atividades de 70 anos de fundação da ONU. Foto: UNIC Rio/Jéssica Santos

O Brasil poderia ter sido o sexto membro permanente no Conselho de Segurança da ONU desde a sua fundação, se a proposta feita pelo idealizador das Nações Unidas tivesse sobrevivido às discussões, impasses e compromissos políticos que permearam os bastidores da criação da Organização, afirmou o escritor norte-americano Stephen Schlesinger, nesta terça-feira (05),  no Rio de Janeiro, quando recriou o clima vigente em 1945, ano de fundação das Nações Unidas.

O autor de “Ato de Criação: A Fundação das Nações Unidas” participou do seminário “Os 70 anos da Organização das Nações Unidas – conquistas, desafios e debates”, inaugurando o calendário brasileiro de atividades previstas para 2015 em comemoração aos 70 anos de existência das Nações Unidas.

“É um aniversário notável. São sete décadas de ação em que a Organização não mostra sinais de esvanecer e só este fato é uma conquista extraordinária. A primeira tentativa do mundo de ter um organismo de segurança global foi a Liga das Nações e durou apenas 20 anos”, ressaltou o autor.

Para ele, apesar de todos os problemas enfrentados durante essas sete décadas demonstra a resiliência da ONU para lidar e resolver várias crises globais, uma conquista que, segundo Schlesinger, rende um tributo àqueles que construíram suas bases em 1945.

“A criação das Nações Unidas foi um acordo traçado entre dois aliados, os Estados Unidos e a União Soviética. Essas duas nações ao fim da Segunda Guerra Mundial eram as mais poderosas do planeta. A existência da ONU dependia da implicação direta dessas dos dois países neste processo”, disse.

Com o título de “Como os Estados Unidos e a União Soviética fundaram as Nações Unidas”, a palestra revelou as manobras diplomáticas para desatar nós polêmicos e tecer um “organismo de segurança universal, que incluísse todos os países do mundo para promover uma paz duradoura” . Entre os pontos de discórdia, se encontravam duas medidas questionadas até os dias atuais: a incorporação do veto e o número de membros permanentes no Conselho de Segurança.

Grande mérito nos avanços para fundar as Nações Unidas deve-se à obstinação do então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, que, apesar de comandar a maior potência do mundo naquele momento, defendeu a ideologia de que apenas o diálogo multilateral poderia prevenir as agressões e a insurgência de conflitos.

“As duas grandes guerras ensinaram uma lição valiosa: Que os Estados Unidos, como qualquer outra nação, não poderiam defender-se sozinhos, precisavam de aliados amigos”, explicou Schlesinger. “E a única maneira que essas nações estariam disponíveis para ajudar os Estados Unidos, ou qualquer outro país, em futuras crises era mediante a criação de um uma assembleia internacional, onde todos os Estados-membros concordariam coletivamente em pôr fim às agressões, não importa onde elas acontecessem.”

Brasil no Conselho de Segurança

Perguntado sobre a posição do Brasil na ONU e uma possível entrada no Conselho de Segurança, Schlesinger disse que “há um longo caminho pela frente, e o país deve passar por dois grandes obstáculos.”

Primeiro, dentro da própria América Latina, já que outros países da região como Argentina, Venezuela e México também pleiteiam a vaga. O segundo, dentro do próprio Conselho de Segurança, onde qualquer dos cinco membros permanentes poderia vetá-lo, explicou o historiador.

Com relação a uma possível reforma na estrutura da Organização, Schlesinger voltou a apontar uma dualidade. Se por um lado muitos Estados-membros questionam o poder de cinco países em decidir o futuro das negociações, por outro, vários defendem o modelo que tem funcionado nos últimos 70 anos e trouxe paz em inúmeras situações. Para estes, aumentar o número de nações implicadas no Conselho, com poder de veto, só serviria para postergar ainda mais a tomada de decisão ou, até mesmo, evitar chegar a um consenso.

Atividades dos 70 anos da ONU

O diretor de Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio), Giancarlo Summa, destacou que a palestra do historiador ajuda a repensar a origem da Organização.

“Esta ocasião, dos 70 anos da Organização, é um momento de lembrar não apenas o que a ONU está fazendo. Também serve para lembrar como ela foi criada, em um momento especialmente difícil e complicado da história global, enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda estava em curso, e graças a energia, ideia e visão de um grupo de estadistas, principalmente do presidente Franklin D. Roosevelt”, explicou o diretor do UNIC Rio.

O chefe do Centro de Informação da Organização no Brasil ressaltou a importância das novas gerações entenderem o longo e difícil processo de criação da ONU e as lógicas por trás da sua arquitetura e mecanismos de atuação. “Esta ocasião é muito importante para que os estudantes conheçam mais sobre este tema e espero que assim queiram aprofundar o seu conhecimento sobre o que a ONU faz e como funciona, e que os inspirem para trabalhar nas Nações Unidas”, finalizou.

A palestra foi organizada pelo Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio) e o Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio e faz parte do seminário “Os 70 anos da Organização das Nações Unidas – conquistas, desafios e debates”, que aconteceu na PUC-Rio nos dias 4 e 5 de maio, com a participação de diversos convidados em vários painéis.

Assista à palestra na íntegra: