A nigeriana Rita empurra um idoso em uma cadeira de rodas até seu quarto. A síria Radwa coloca a mesa para o almoço. As duas refugiadas trabalham em uma casa de repouso na Hungria. A rotina tem fortalecido os vínculos entre as estrangeiras e a comunidade que as acolheu. No país europeu, o histórico no acolhimento de refugiados nem sempre foi positivo.

Radwa Al Nazer de Damasco (à esquerda) e Rita Joy Osazee da Nigéria (ao centro), com Ilona Karpati, 93 anos, na casa de idosos de Albert Schweitzer, em Budapeste. Foto: ACNUR/Bela Szandelszky
Rita empurra um idoso em uma cadeira de rodas até seu quarto. Radwa coloca a mesa para o almoço. As duas refugiadas trabalham em uma casa de repouso na Hungria. A rotina tem fortalecido os vínculos entre as estrangeiras e a comunidade que as acolheu. No país europeu, o histórico no acolhimento de refugiados nem sempre foi positivo.
“Eu gosto desse trabalho”, conta Radwa Al Nazer, de Damasco, na Síria. “Requer muita paciência e bondade, mas às vezes eu tenho vontade de chorar quando vejo que fiz um paciente feliz.”
A síria e sua colega nigeriana Rita estão em treinamento no lar para idosos Albert Schweitzer, em Budapeste. O curso é organizado pela MigHelp, uma organização não governamental que ajuda refugiados e migrantes a conseguir empregos por meio de capacitação.
A instituição foi cofundada por James Peter, um ex-refugiado da África que ficou chocado com a violência no antigo centro de recepção de Bicske. O local agora se encontra fechado.
“Muçulmanos e cristãos brigavam”, lembra James. “Eu entendi que não era realmente por causa da religião, mas por causa do tédio.”
James começou juntando equipamentos de computação antigos e organizando cursos de informática. A MigHelp agora também oferece cursos de idiomas, direção de automóveis, cuidado para idosos e crianças. O objetivo é aumentar as chances dos refugiados de arranjar um trabalho.
O curso de cuidados para idosos envolve 110 horas de palestras e prática. Radwa já completou 40 horas e conheceu pessoalmente muitos dos húngaros que vivem na casa de repouso.
“Deixe-me apresentá-la à Ilona”, diz a síria, trazendo Ilona Karpati, de 93 anos.
A moradora da casa chega impecável, com um vestido rosa. Ela fala inglês fluentemente. “Eu vivi por 46 anos no Canadá, perto das Cataratas do Niágara. Sinto falta do Canadá, mas voltei para casa porque meu coração está na Hungria.”
Ilona está feliz em ter a ajuda das refugiadas. “Eles são muito agradáveis, adoráveis e sorridentes.”
Ao cuidar dos outros, os refugiados começam a deixar para trás os traumas que os forçaram a fugir de suas casas.
Radwa e sua família deixaram a Síria por causa da guerra, mas não vieram para a Europa no grande influxo de refugiados de 2015. Eles se mudaram para a Hungria há quatro anos porque o pai de Radwa, Anas Al Nazer, havia estudado medicina no país europeu, nos tempos comunistas, e falava húngaro. Radwa, que estudou psicologia na Universidade de Damasco, deu aulas de árabe e fez algumas obras de arte. Atualmente, ela está casada e espera um bebê.
Rita, do estado nigeriano de Edo, veio para a Hungria com outros refugiados em 2015. Ela agora trabalha em um restaurante, mas espera se tornar cuidadora.
“É gratificante trabalhar com pessoas”, avalia. “Eu faço o café da manhã das pessoas idosas e dou comida. Se eles não falam inglês, usamos linguagem corporal. Quando eles aceitam a comida que você oferece, significa que eles o aceitaram.”
Outras mulheres africanas que terminaram seu treinamento na casa de cuidados estão à disposição para dar conselhos a Rita e Radwa. Vindo de culturas onde os idosos são quase sempre acolhidos e ajudados por suas famílias, ambas ficaram surpresas com o modo europeu de cuidar da população na terceira idade. “Trabalhar aqui pode ser bastante emocionante”, afirma Mercy Asizu, de Uganda. “Às vezes, os idosos choram.”
Tamas Szebenyovszky, um cuidador que trabalhou em casa de repouso por três anos, elogia a contribuição dos refugiados, mas defende que, se eles esperam fazer carreira em tempo integral na profissão, a comunicação será crucial. “O meu melhor conselho é que eles façam curso de húngaro.”
Barreiras à parte, Gezane Fekete parece satisfeita com a atenção que recebe dos refugiados. Essa bisavó viúva, de 97 anos, é quase cega e sua audição é pouca. Ela não pode mais ir à reunião da igreja, mas escuta a transmissão do culto por um pequeno rádio em seu quarto.
“Não tenho queixas sobre os refugiados”, diz. “Eles estão sempre circulando por aí, fazendo suas tarefas muito bem. Uma delas me ajudou até no banheiro. Ela fez isso rápido. Só posso dizer coisas boas sobre eles.”