Iêmen: Conselho de Segurança da ONU pede às partes em conflito ‘medidas urgentes’ por cessar-fogo

Nações Unidas incentivam retomada das negociações enquanto buscam acessar áreas sitiadas para levar apoio humanitário. Nesta semana, ACNUR conseguiu entregar cobertores, colchões e outras ajudas de emergência para mil famílias em Taizz, no sudeste do país. Mais 21 milhões de pessoas – o equivalente a 82% da população – precisam de ajuda imediata.

Em muitas áreas do Iêmen, país devastado pelo conflito, a insegurança em curso dificulta os esforços das agências da ONU de fornecer comida para as pessoas em necessidade. Foto: PMA/Ammar Bamatraf

Em muitas áreas do Iêmen, país devastado pelo conflito, a insegurança em curso dificulta os esforços das agências da ONU de fornecer comida para as pessoas em necessidade. Foto: PMA/Ammar Bamatraf

O Conselho de Segurança das Nações Unidas afirmou estar “seriamente preocupado” com o conflito em curso e os consequentes problemas humanitários no Iêmen. Em um comunicado desta quinta-feira (18), o órgão da ONU que trata da paz e da segurança internacionais pediu que todas as partes em conflito tomem “medidas urgentes” para retomar um cessar-fogo.

No comunicado à imprensa, o Conselho destacou o seu total apoio aos trabalhadores humanitários que fornecem ajuda “em condições muito difíceis em todo o Iêmen”. Os membros do Conselho expressaram preocupação com os relatos de obstrução da entrega de ajuda humanitária no país, saudando o estabelecimento do Mecanismo de Verificação e Inspeção da ONU (UNVIM), e apelou a todos os Estados a aderir às suas disposições.

A situação humanitária no Iêmen continua crítica, com uma estimativa de 21,2 milhões de pessoas – o equivalente a 82% da população – com necessidade de algum tipo de assistência humanitária, e o conflito continua a forçar as famílias a fugir de suas casas. Atualmente, o país concentra 16% de todos os deslocados internos do mundo.

Exortando todas as partes a cumprir os seus compromissos para facilitar a entrega de ajuda humanitária, incluindo medidas para assegurar o acesso humanitário rápido, seguro e sem obstáculos, o Conselho sublinhou ainda a importância da entrega de bens comerciais e de combustível para fins civis para todas as partes do Iêmen.

Na declaração, o Conselho de Segurança pediu a todas as partes para respeitar o direito humanitário internacional, incluindo tomando todas as precauções possíveis para minimizar danos civis, acabar com o recrutamento e uso de crianças em violação do direito internacional aplicável, bem como trabalhar urgentemente com a ONU e organizações humanitárias para levar assistência aos necessitados em todo o país.

Segundo o órgão da ONU, a cessação das hostilidades e a conformidade com as resoluções do Conselho sobre o tema deverão conduzir a um cessar-fogo permanente e abrangente.

Os membros do Conselho de Segurança também instaram as partes iemenitas a cumprir os compromissos assumidos durante a última rodada de negociações, em dezembro de 2015, e também pediram às partes que participem de uma nova rodada de negociações, com base no progresso que foi alcançado até agora sobre o fim do conflito.

Exortando todas as partes do Iêmen a se envolver em conversas políticas “sem condições prévias e de boa fé, inclusive para resolver suas diferenças através do diálogo e de consultas de acordo com a Iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo e seu mecanismo de implementação”, o órgão internacional sublinhou o seu forte apoio ao enviado especial da ONU para o Iêmen, Ismail Ould Cheikh Ahmed, no sentido de facilitar essas negociações.

Em um informe ao Conselho na quarta-feira (17), Ahmed disse que uma “profunda divisão” entre as partes em conflito no Iêmen, após o colapso de uma trégua, está antecipando a próxima rodada de negociações de paz. Ele pediu aos membros do Conselho que apoiem os esforços por uma cessação das hostilidades.

“As partes estão divididas sobre se uma nova rodada de negociações deve ser convocada com ou sem uma nova cessação das hostilidades”, explicou o enviado da ONU. “Eu, infelizmente, não recebi garantias suficientes de que uma nova cessação das hostilidades seria respeitada.”

ACNUR entrega ajuda vital para famílias isoladas

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) informou por meio de um comunicado esta semana que conseguiu entregar cobertores, colchões e outras ajudas de emergência para mil famílias em Taizz, no sudeste do país. A maioria dessas famílias estava isolada por meses devido aos intensos combates no centro da cidade.

A cidade de Taizz concentra alguns dos mais intensos combates no conflito que vem acontecendo no Iêmen, que já está no décimo mês. Mais de 200 mil habitantes estão sem acesso a ajuda humanitária regular.

O ACNUR não conseguia acessar a cidade há mais de cinco meses. A entrega do dia 14 de fevereiro, apoiada por outras organizações de ajuda local, demandou mais de três semanas de negociações entre o ACNUR e as partes em conflito para permitir que os caminhões de suprimentos essenciais chegassem aos distritos de Al Qahirah, Salh e Al Mudhaffar.

Ahmed Najee, 9 anos, busca itens de ajuda do ACNUR, em Taizz. Foto: ACNUR/M. Al Hasani

Ahmed Najee, 9 anos, busca itens de ajuda do ACNUR, em Taizz. Foto: ACNUR/M. Al Hasani

A assistência acontece na sequência de uma entrega de alimentos e suprimentos médicos fornecida por outras organizações de ajuda humanitária. O representante local do ACNUR, Johannes Van Der Klaauw, liderou a missão para supervisionar a distribuição e testemunhar a necessidade crítica da população com relação aos itens fornecidos pela agência.

“Ele observou que esta primeira distribuição emergencial de itens básicos e de necessidade doméstica deve ser o início para o acesso contínuo de entrega de vários outros tipos de auxílios para essa cidade e distritos vizinhos”, disse o porta-voz do ACNUR, Andreas Needham, a repórteres em uma entrevista coletiva realizada em Genebra. Ele também reiterou o apelo do ACNUR para o acesso contínuo e sem obstáculos a respostas humanitárias.

O número de deslocamentos continua a subir na província de Taizz, que agora abriga o maior número de pessoas internamente deslocadas no país. São aproximadamente 400 mil pessoas, ou 16% do total dos 2,5 milhões de deslocados internos atualmente no mundo.

Embora esta semana tenha sido a primeira em que a ajuda do ACNUR tenha conseguido chegar ao centro da cidade de Taizz, que estava bloqueada pelo conflito, a agência da ONU tem fornecido ajuda de emergência a vários distritos na região desde junho de 2015 – artigos de socorro foram entregues para quase 1,8 mil pessoas em quatro distritos: Maqbanah, Ash Shamayatayn, Dimnat Kadir e Ta’iziyah – por meio de um parceiro nacional.

Várias tentativas de chegar às regiões próximas de Taizz não tiveram êxito em setembro do ano passado. Desde dezembro de 2015, o ACNUR e seu parceiro distribuíram ajuda humanitária a cerca de 29 mil deslocados internos em cinco outros distritos: Dimnat Khadir, Al Ma’afer, Al Mawasit, At Ta’iziyah e Jabal Habashy.

Até 15 de fevereiro, o ACNUR propiciou ajuda a 346.500 deslocados e pessoas afetadas pelo conflito em 20 das 21 províncias do Iêmen com ajuda de emergência, fornecendo cobertores, colchonetes, baldes de plástico, lonas de proteção, utensílios de cozinha, tendas e kits de abrigo de emergência – compostos por postes de madeira, lonas e ferramentas como martelo, machado, cordas e pregos.

Recentemente, o ACNUR lançou uma resposta à situação de emergência aos deslocados internos no Iêmen e para aqueles que são forçados a fugir para os países vizinhos. A medida aponta para a necessidade de 172 milhões de dólares, mas, até o momento, foram arrecadados apenas 5% desse total – 8,6 milhões –, ou seja, a lacuna de financiamento é de 163,6 milhões de dólares.

A resposta à emergência no Djibuti condiz com apenas 1% do valor necessário, enquanto nenhum financiamento foi recebido para as respostas na Etiópia, na Somália e no Sudão. O plano revisado de resposta humanitária ao Iêmen será lançado pelo coordenador humanitário para o Iêmen já nos próximos dias.