O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Ismail Ould Cheikh Ahmed, declarou ao Conselho de Segurança que a escalada militar no país continuará favorecendo a propagação de grupos armados na região, e pediu a retomada das negociações de paz.

Iemenita refugiada busca abrigo em campo nos arredores de Sanaa. Até agosto de 2016, mais de 2,8 milhões de pessoas foram deslocadas internamente no país devido ao conflito. Foto: UNICEF/Moohialdin Fuad
O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Ismail Ould Cheikh Ahmed, declarou ao Conselho de Segurança na quarta-feira (31) que a escalada militar no país continuará favorecendo a propagação de grupos armados na região, e pediu a retomada das negociações de paz.
Segundo Cheikh Ahmed, os grupos terroristas Al-Qaeda e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (conhecido como ISIL ou Daesh) continuam causando graves estragos em partes significativas do Iêmen. Ele citou o atentado suicida na cidade de Áden em 29 de agosto, que deixou pelo menos 60 pessoas mortas e feriu outras dezenas.
“A ausência do Estado em muitas partes do país, além do caos criado pela guerra, continua facilitando a expansão de grupos terroristas que representam uma ameaça real à região”, disse Cheikh Ahmed ao Conselho.
O enviado especial da ONU observou ainda que o fim das negociações de paz no Kuwait no início de agosto, sem um acordo prévio, traiu as expectativas de milhões de iemenitas. “O povo acreditava que as conversas levariam ao fim do conflito e abririam o caminho para a volta do país a uma transição política pacífica”.
Segundo ele, o fim das conversações no Kuwait foi seguido por um rompimento grave da cessação das hostilidades e uma perigosa escalada das atividades militares.
“Confrontos militares extensivos, envolvendo ataques aéreos, uso de mísseis balísticos e artilharia, ocorreram nas últimas semanas nas províncias de Sanaa, Taiz, Al Jawf, Shabwa e Mareb e ao longo da fronteira com a Arábia Saudita, resultando em dezenas de mortes, destruição alarmante e novos deslocamentos”, acrescentou.
O enviado especial também observou as inúmeras violações aos direitos humanos. Segundo ele, alguns desses incidentes — como o ataque a um hospital rural em Hajjah — são fortemente condenados pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
Cheikh Ahmed destacou ainda o que chamou de “desrespeito preocupante com os direitos humanos de grupos minoritários”.
Citando a detenção sem acusação de pelo menos 60 membros da comunidade Baha’i em Sanaa, incluindo seis crianças, ele endossou o pedido de grupos de direitos humanos e pediu que todas as partes envolvidas cumpram as suas obrigações e libertem os prisioneiros.
Em relação à retomada das negociações, Cheikh Ahmed declarou que a continuação das conversas de paz só será possível “se todas as partes mantiverem o compromisso de negociar um acordo e evitar ações unilaterais”.
ONU alerta para o impacto da violência sobre os civis no Iêmen
O coordenador humanitário da ONU para o Iêmen, Jamie McGoldrick, alertou na segunda-feira (29) para o preocupante impacto da retomada dos conflitos sobre a população civil perto da fronteira com a Arábia Saudita.
Em comunicado emitido pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACNUDH), McGoldrick disse que sete pessoas morreram e uma ficou ferida durante ataque a um mercado em Baqin, no distrito de Sanaa, em 25 de agosto.
Ele citou também dados da imprensa, ressaltando que atentados vindos do território iemenita causaram um número não confirmado de vítimas na Arábia Saudita.
Outro ponto destacado por McGoldrick refere-se à infraestrutura da região, que continua sendo frequentemente atingida nos dois lados da fronteira, especialmente usinas de energia elétrica.
Segundo o coordenador humanitário, o fechamento do aeroporto de Sanaa para voos comerciais também está gerando sérias complicações para doentes que buscam tratamento médico de emergência no exterior. O sistema nacional de saúde iemenita não tem condições de tratar todos os casos, especialmente as enfermidades crônicas ou potencialmente fatais, como o câncer.
Estatísticas iniciais da companhia aérea nacional do Iêmen indicam que milhares de pessoas não podem sair do país e muitas outras ainda são retidas fora do país, enfrentando dificuldades financeiras e obstáculos administrativos devidos aos vistos expirados.
O coordenador humanitário pediu às autoridades que reabram imediatamente o aeroporto e retomem os voos comerciais para aliviar o sofrimento da população civil, e apelou a todos os lados envolvidos no conflito que protejam a população e a infraestrutura do país.
Ele afirmou que “a solução política é a única opção viável para alcançar a segurança que os iemenitas precisam”.