Suspensão das hostilidades entrará em vigor a partir da meia-noite do dia 10 de abril. Negociações de paz começam na semana seguinte. Conflito já deixou mais de 20 milhões de pessoas com necessidade de ajuda humanitária. ONU presta assistência à população iemenita, mas enfrenta problemas de financiamento e riscos de segurança.

Confrontos já duram um ano no Iêmen e deixam 80% da população do país precisando de assistência humanitária. Foto: ACNUR / A. Al-Sharif
Após extensas consultas junto a líderes do Iêmen e parceiros regionais, o enviado especial da ONU para o país, Ismail Ould Cheikh Ahmed, anunciou na terça-feira (23) que as partes do conflito concordaram em suspender as hostilidades e dar início a diálogos de paz. O cessar-fogo entrará em vigor a partir da meia-noite de 10 de abril. Negociações começarão no dia 18, no Kuwait.
Há um ano imerso em confrontos, o Iêmen enfrenta uma grave crise humanitária: mais de 20 milhões de pessoas – 80% da população total – precisam de alguma forma de assistência. Desse total, 14 milhões necessitam de alimentos. Conflitos já provocaram a morte de 6,4 mil iemenitas e deixaram mais de 30 mil feridos, além de deslocar 2,5 milhões de indivíduos.
“Eu (já) havia enfatizado previamente que apenas uma solução política e um processo de paz inclusivo iria garantir um futuro de reconciliação no país”, afirmou Ahmed.
De acordo com o enviado da ONU, as negociações de paz vão se concentrar em cinco áreas principais: a retirada dos grupos armados e milícias; a entrega de armamento pesado ao Estado; arranjos de segurança interinos; a restauração de instituições estatais e o retorno do diálogo político inclusivo; e a criação de um comitê especial para prisioneiros e detentos.
Ahmed também tem buscado acordos que visam à recuperação econômica do país e à manutenção do funcionamento de alguns organismos essenciais do Estado, como o Banco Central, do qual o povo iemenita depende.
O representante da ONU quer ainda que a cessação de hostilidades contemple e garanta o acesso irrestrito de organizações humanitárias a populações carentes de assistência.
Agências da ONU enfrentam dificuldades para levar assistência à população do país
O bombardeio a portos e aeroportos tem dificultado o trânsito da ajuda humanitária pelo país, já fragilizada pelos riscos de segurança, pelos cercos e pela falta de verba.
Profissionais de saúde estão no terreno, mas não conseguem chegar aos pacientes. Cerca de 90% dos alimentos do país são importados. A escassez de comida levou o Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) a cortar em 75% o volume de porções oferecidas para que todos pudessem se alimentar nas zonas de atuação do organismo.
A ONU emitiu um apelo por 1,8 bilhão de dólares para fornecer alimentos, água, cuidado médico e abrigo, mas conseguiu angariar apenas 12% do orçamento. Apesar dos obstáculos, agências das Nações Unidas ainda operam no terreno e levam assistência para a população.
É o caso do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), que informou que 13 caminhões conseguiram entregar cobertores, colchões e outros itens de necessidade básica a habitantes de Mashra’a Wa Hadnan, na província de Taiz, no início da semana passada. Outro comboio estava programado para levar suprimentos a moradores do distrito de Sabir Al Mawadim.
“Os dois distritos abrigam mais de 7,5 mil pessoas deslocadas. É a primeira vez que a assistência foi entregue lá usando uma rota direta desde Aden (no sul do país)”, explicou o representante do ACNUR no Iêmen, Johannes van der Klaauw, que lembrou ainda que a província de Taiz conta, atualmente, com mais de 555 mil indivíduos deslocados.
Em fevereiro, organizações humanitárias entregaram alimentos para quase 3 milhões de pessoas. Todos os meses, essas mesmas entidades conseguem fornecer combustível para o bombeamento de água, ajudando mais de 3 milhões de iemenitas.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) também atua no país, apoiando iniciativas que buscam a restauração dos serviços púbicos e a abertura de postos de trabalho emergenciais. A agência trabalha ainda em projetos para a retirada de minas.
Conflito no Iêmen não ‘permanece nas manchetes’, mas deveria receber a mesma atenção que outras crises, alerta chefe humanitário da ONU
No dia seguinte ao anúncio do cessar-fogo (24), o coordenador humanitário das Nações Unidas, Stephen O’Brien, expressou preocupação quanto aos confrontos e à situação de vulnerabilidade dos iemenitas, vítimas frequentes de bombardeios aéreos.
“No entanto, os números graves e as terríveis histórias não permanecem nas manchetes. Outras grandes crises mundiais atraem mais atenção entre doadores, governos, a mídia”, lamentou. “As pessoas do Iêmen querem paz e segurança duradouras, de modo que elas possam reconstruir suas vidas e criar suas famílias.”
O chefe de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein, também se pronunciou a respeito da crise iemenita e condenou o fracasso das forças da Coalizão – na qual a Arábia Saudita está envolvida – em prevenir ataques aéreos a estruturas civis.
Incidentes já atingiram mercados, escolas, hospitais e outros prédios e se repetem “com inaceitável regularidade”. Mais de 100 hospitais, instalações de saúde e bancos de sangue foram impactados de alguma forma pelos conflitos, tendo seu funcionamento afetado.