Mulheres indígenas que participam do Acampamento Terra Livre, em Brasília (DF), anunciaram na quarta-feira (25) a adesão à campanha “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. Lançada pelo secretário-geral das Nações Unidas em 2008, a iniciativa mobiliza instituições e coletivos em todo o mundo para sinalizar espaços e vestir a cor laranja no dia 25 de cada mês como símbolo da luta contra a violência de gênero.
A entrada das indígenas brasileiras na campanha reforça a pauta de reivindicações políticas dessa população, que apresenta dez pontos prioritários, entre os quais estão o fim da violação de seus direitos; o empoderamento político e a participação política; o direito à terra e aos processos de retomada; e os direitos econômicos. O relato é do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da ONU Mulheres.

Com o apoio das agências da ONU que integram o Grupo Temático de Gênero, Raça e Etnia, mulheres indígenas adotam o Dia Laranja no Acampamento Terra Livre. Foto: Karina Zambrana
Cerca de 500 mulheres indígenas vestiram a camiseta laranja “Voz das Mulheres Indígenas pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, expressando a adesão à campanha do secretário-geral da ONU “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres” no 15º Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília.
O ato aconteceu em 25 de abril em referência ao #DiaLaranja, organizado mensalmente pela ONU, para mobilizar ações de prevenção e eliminação da violência de gênero em todo o mundo. No ATL, o #DiaLaranja teve o apoio do Grupo Temático de Gênero, Raça e Etnia da ONU Brasil.
Valéria Paye, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e indígena do povo Kaxuyana, do Pará, fez um chamado ao Acampamento Terra Livre.
“Como uma dessas mulheres que estão aqui, eu digo que a luta pelo fim de todos os tipos de violência é de todos nós, povos indígenas. Mas como mulheres indígenas, a gente tem levado essa discussão e denunciado porque nós, nesse processo da violação dos direitos dos povos indígenas somos as primeiras a serem afetadas”, disse.
“Quando os grandes projetos chegam aos nossos territórios, quem é que recebe o primeiro impacto? Somos nós, as mulheres, e as crianças. Essa questão de debater e combater é uma responsabilidade de todos nós”, discursou.
Em referência à fala de Sônia Guajajara, ocorrida na Plenária das Mulheres Indígenas, Tsitsina Xavante, do projeto “Voz das Mulheres Indígenas”, que tem o apoio da ONU Mulheres Brasil, relembrou a violência machista histórica contra elas.
“Muita gente no Brasil, diz que teve avó ou bisavó ‘pega no laço’. Na verdade, a sua avó e a sua bisavó sofreram violência física, violência psicológica. Sua avó, sua bisavó, sua tataravó foram estupradas. Então, a geração atual do Brasil é uma geração que se desenvolveu sobre alicerces de violência às mulheres indígenas desde a colonização”, declarou.
Tsitsina reforçou a necessidade de reação de todas e todos indígenas à violência de gênero. “E nós, mulheres, homens, jovens e anciãos, devemos dizer um basta à violência contra as mulheres indígenas. Um basta ao estupro das meninas e das mulheres indígenas”.
“Violar uma mulher indígena é violar um povo, porque não somos parte de um povo. Nós somos um povo. Agredir as mulheres e meninas indígenas, é agredir um povo, uma cultura. É violar um povo. Basta à violência”, convocou.
Em seguida, Tsitsina Xavante organizou a distribuição de camisetas. “E nessa ação da cor laranja, em combate à violência contra as mulheres e aqui, às mulheres indígenas, nós trouxemos, com o apoio do GT de Gênero, Raça e Etnia da ONU Brasil, algumas camisetas para mostrar que sim, nós, mulheres e homens, estamos na luta pelo fim da violência contra as mulheres”, completou.
Agenda 2030 e fim da violência contra as mulheres
Carolina Ferracini, gerente de projetos da ONU Mulheres, comentou que a campanha UNA-SE, em seus dez anos de existência, congregou pessoas e instituições do mundo inteiro para trabalharem juntas pelo fim definitivo da violência contra as mulheres e as meninas.
Lembrou que a cor da campanha — o laranja — é uma cor otimista, vibrante e que representa a coragem para enfrentar todas as violências de gênero. Também ressaltou o compromisso da ONU Mulheres de continuar ouvindo as demandas das mulheres indígenas para oferecer respostas às violências que elas vivem.
Ismália Afonso, oficial de Programas de Gênero e Raça do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), falou sobre a relação entre a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, adotada pelos Estados-membros da ONU, com a eliminação da violência contra as mulheres e meninas, uma das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 referente à igualdade de gênero.
“A pauta das mulheres é uma pauta complexa e não pode deixar nada de fora. Ela entra no esforço da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável com o objetivo de não deixar ninguém para trás. Viver uma vida sem violência é direito de todas as mulheres”, disse.
Elisa Pankararu, da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), salientou a relevância da mobilização. “Essa ação é simbólica, mas é de muita importância e de muito valor. Precisamos debater a questão da violência contra as mulheres desde o seu início. Então, precisamos falar sobre o assunto e levar para os espaços públicos, porque a violência contra as mulheres não é apenas doméstica”, enfatizou.
Pankararu condenou a violência institucional que impede as mulheres indígenas de acessar serviços públicos e o direito de ir e vir. “A violência está em todos os espaços, nos comércios, nos hospitais, nas ruas, nas escolas. Ela é uma conduta maligna e maléfica, herança do colonizador, que vai para os espaços públicos e para as políticas públicas”.
“O racismo, o machismo quebram os nossos direitos como cidadãs e acesso às políticas públicas e temos de estar atentas a isso. Devemos dizer que somos guardiãs e detentoras dos saberes tradicionais tão quanto os nossos homens, nossos mais velhos e nossas mais velhas”, acrescentou Elisa.
Destacado como porta-voz dos homens e da juventude no ato, o indígena peruano Giuseppe Villalaz, do povo Guna de Gunayala, mencionou que a violência de gênero é uma questão vivida por mulheres indígenas em outros países.
“Em todo o mundo, as mulheres indígenas sofrem vários maus-tratos e a violação dos seus direitos. Hoje, é um dia histórico e marcante para as mulheres indígenas, mas especialmente para as mulheres indígenas do Brasil. Elas farão uma marcha pacífica, reivindicando seus direitos pelas ruas de Brasília”, declarou.
