Iraniano da equipe de atletas refugiados participa das eliminatórias do atletismo nas Paralimpíadas

Shahrad Nasajpour participou das provas da classe F37 do lançamento de disco, no Engenhão. Embora não tenha chegado à final, o atleta alcançou sua melhor marca na temporada. Comitê Paralímpico Internacional vai dar apoio ao refugiado para que ele possa treinar e participar do mundial de atletismo em 2017, em Londres.

Shahrad (ao centro, entre os atletas de pé) alcançou sua melhor marca da temporada nas classificatórias do lançamento de disco, classe F37. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Shahrad (ao centro, entre os atletas de pé) alcançou sua melhor marca da temporada nas classificatórias do lançamento de disco, classe F37. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

A inédita equipe paralímpica de atletas refugiados estreou na Rio 2016 na noite da quinta-feira (8), no Engenhão, com a participação do iraniano Shahrad Nasajpour nas provas da classe F37 do lançamento de disco. Embora não tenha conseguido se classificar para a final, realizada no mesmo dia, o esportista atingiu sua melhor marca da temporada — 39,64 metros.

O ouro ficou para Khusniddin Norbekov, do Uzbequistão, que conseguiu arremessar o disco a impressionantes 59,75m — distância que bateu o recorde mundial de 55,81m estabelecido em 2012, em Londres, pelo chinês Dong Xia.

Do total de 12 atletas paralímpicos da categoria, Shahrad ficou em 11º lugar. Após as três primeiras tentativas, não conseguiu ficar entre os oito melhores que seguiram para a final e puderam fazer mais três lançamentos para melhorar suas marcas.

O refugiado competiu ao lado do brasileiro João Victor Teixeira de Souza Silva, que superou seu recorde pessoal e alcançou os 45,1m no melhor desempenho, ocupando a 7ª posição ao término das provas.

O atleta iraniano teve paralisia cerebral e, por isso, compete nas Paralimpíadas. Depois de fugir de seu país de origem, foi para os Estados Unidos, onde teve asilo concedido pelo governo e pôde retomar os treinos.

Da arquibancada, o refugiado recebeu o apoio de alguns de seus companheiros de equipe — o nadador sírio Ibrahim Al-Hussein e o representante do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) que chefia a delegação de refugiados, Tony Sainsbury.

Nadador sírio refugiado, Ibrahim Al-Hussein prestigiou seu parceiro de equipe, o iraniano Sh---, que participou das provas do lançamento de disco. Foto: UNIC Rio / Pedro Andrade

Nadador sírio refugiado, Ibrahim Al-Hussein prestigiou seu parceiro de equipe, o iraniano Shahrad Nasajpour, que participou das provas do lançamento de disco. Foto: UNIC Rio / Pedro Andrade

“Esse não é o fim (para Shahrad)”, destacou Sainsbury, que explicou que o IPC vai ajudar o refugiado a se preparar para o campeonato mundial de atletismo, marcado para agosto de 2017 em Londres.

Segundo o chefe da delegação, o iraniano “sabe agora que ele tem uns nove meses para voltar a treinar, tornar-se mais forte, melhorar sua técnica, tornar-se mais competitivo”. “E talvez ele não consiga uma medalha da próxima vez, ou talvez ele consiga ficar em 6ª ou 7º lugar entre os finalistas, e é aí que você pode ver progressos”, disse Sainsbury.

“Seria terrível se nós simplesmente os trouxéssemos e, então, acabássemos (com a parceria)”, acrescentou sobre a equipe paralímpica de refugiados e os projetos futuros que envolvem o apoio do Comitê Internacional.

Ser deficiente ou refugiado não é ser anormal

Tendo liderado a delegação britânica de cinco Paralimpíadas e recebido a Ordem Paralímpica — condecoração mais alta dada pelo IPC a pessoas que contribuíram excepcionalmente para causa dos atletas com deficiência —, Sainsbury acredita que a participação dos refugiados nessa edição das competições vai inspirar, de diferentes formas, outras pessoas forçadas a fugir de suas nações.

“Não se trata necessariamente apenas de esportes, estamos falando também sobre considerar-se normal”, explicou.

À esquerda, chefe da delegação de refugiados, Tony Sainsbury, e à direita, Ibrahim Al-Hussein, nadador sírio. Integrantes da equipe torceram pelo iraniano no Engenhão. Foto: UNIC Rio / Pedro Andrade

À esquerda, chefe da delegação de refugiados, Tony Sainsbury, e à direita, Ibrahim Al-Hussein, nadador sírio. Integrantes da equipe torceram pelo iraniano no Engenhão. Foto: UNIC Rio / Pedro Andrade

Para o chefe da missão, Shahrad e Ibrahim vão levar outros refugiados a se perguntarem “o que é possível para os outros e é possível para mim também? Eu preciso ter ambição e me considerar uma pessoa normal”, capaz de ser mais do que apenas um deslocado forçado e ser alguém que consiga se superar através do esporte, da música, das artes, do trabalho.

“É a mesma coisa que as pessoas costumavam dizer sobre as pessoas com deficiência, não significa que elas não sejam normais, são as circunstâncias em torno delas e o ambiente que criam a normalidade, seja acessibilidade ou outras questões em termos de deficiência, seja ter um lar que você possa chamar de seu, no caso dos refugiados”, disse Sainsbury.

Da Rio 2016 à Tóquio 2020

Segundo o representante do IPC, a ideia original era levar seis ou sete refugiados para as Paralimpíadas do Rio, mas alguns dos atletas não preenchiam requisitos estabelecidos pelo organismo internacional, como estar em situação regular — já ter sido reconhecido como refugiado ou ter recebido asilo — nos países de acolhimento, ter condições legais de retornar a essas nações após os Jogos e ser um esportista de alto nível.

De óculos, mais à esquerda, Shahrad Nasajpour, atleta iraniano que competiu no primeiro dia das Paralimpíadas Rio 2016. À direita dele, respectivamente, o chefe da delegação de refugiados, Tony Sainsbury, e o nadador sírio Ibrahim Al-Hussein. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

De óculos, mais à esquerda, Shahrad Nasajpour, atleta iraniano que competiu no primeiro dia das Paralimpíadas Rio 2016. À direita dele, respectivamente, o chefe da delegação de refugiados, Tony Sainsbury, e o nadador sírio Ibrahim Al-Hussein. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

“Eles tinham que ser atletas de elite”, ressaltou Sainsbury, que descreveu Shahrad como um “competidor genuíno”.

A expectativa do IPC é ir além do acompanhamento previsto até os campeonatos mundiais de 2017 e reproduzir a experiência positiva da Rio 2016 em 2020, em Tóquio, mas ainda não há confirmação de que uma nova equipe de refugiados será de fato formada para as próximas Paralimpíadas.

“Evidentemente, precisamos ter patrocinadores e pessoas os apoiando (para-atletas refugiados”, afirmou o chefe da missão.

De acordo com Sainsbury, o número de refugiados inclui pessoas que já portavam deficiências antes dos conflitos que as forçaram a abandonar seus países ou que adquiriram alguma deficiência por causa de guerras.

“E talvez uma pequena porcentagem delas queira ser atleta paralímpico, queira se dedicar ao esporte de alta performance. Esperamos que isso (a equipe de atletas refugiados) as estimule a vir à frente e dizer ‘e para mim (tem uma vaga)?'”, afirmou.