Iraque tem mais de 650 mortes em junho; conflito em Fallujah provoca onda de refugiados

Ao menos 662 iraquianos — metade deles civis — foram mortos e outros 1.457 ficaram feridos em atos de terrorismo, violência e conflito armado no país em junho, de acordo com dados mais recentes divulgados pela missão política da ONU no Iraque.

Cidades que são palco de conflito entre o Estado Islâmico e as forças de segurança iraquianas, como Fallujah, registram alto número de deslocados, condições precárias e disseminação de doenças, de acordo com agências da ONU no país.

Funcionários do UNICEF falam com crianças iraquianas em campo de refugiados de Amiriyat Al Fallujah. Foto: UNICEF

Funcionários do UNICEF falam com crianças iraquianas em campo de refugiados de Amiriyat Al Fallujah. Foto: UNICEF

Ao menos 662 iraquianos — metade deles civis — foram mortos e outros 1.457 ficaram feridos em atos de terrorismo, violência e conflito armado no país em junho, de acordo com dados mais recentes divulgados nesta sexta-feira (1) pela missão política da ONU no Iraque.

“Esperávamos um período de calma durante o Ramadã, um mês de paz e compaixão, mas infelizmente a violência continuou a atingir civis”, disse o representante especial da ONU no Iraque, Ján Kubiš.

Ele afirmou que os terroristas não pouparam mercados, mesquitas e áreas de alta concentração de pessoas, de forma a causar o máximo de mortes entre civis, “em total desrespeito aos valores do Islã”.

O total de mortos caiu na comparação com maio, mas os números de junho ainda podem aumentar devido aos confrontos em Fallujah, de acordo com a Missão das Nações Unidas de Assistência para o Iraque (UNAMI).

Em comunicado na quinta-feira (30), Kubis, que lidera o UNAMI, condenou fortemente um ataque suicida em um popular mercado no sudoeste de Bagdá que deixou diversos civis mortos e feridos.

Crianças enfrentam riscos

Uma em cada cinco crianças iraquianas enfrenta “sério risco” de ser morta, ferida, sofrer violência sexual, sequestro e recrutamento para grupos armados, de acordo com um novo relatório das Nações Unidas divulgado na quinta-feira (30).

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 3,6 milhões de crianças estão em perigo — um aumento de 1,3 milhão em 18 meses. O relatório também mostrou que 4,7 milhões de crianças precisam de ajuda humanitária, o que corresponde a um terço das crianças iraquianas.

De acordo com o relatório, 1.496 crianças foram sequestradas no Iraque nos últimos dois anos e meio. Esse número corresponde a 50 crianças sequestradas por mês, com muitas delas sendo abusadas sexualmente ou forçadas a entrar na linha de frente do conflito.

Programa Mundial de Alimentos envia ajuda

Expressando preocupação com as condições precárias enfrentadas pelas mais de 85 mil pessoas que deixaram áreas sitiadas de Fallujah e arredores no último mês, a agência da ONU para a alimentação disse na segunda-feira (27) que estava enviando mais ajuda para o crescente número de deslocados.

“As pessoas em Fallujah estão sitiadas há muitos meses, sem acesso a comida e medicamentos. Alcançá-los agora com comida e ajuda humanitária é prioridade”, disse o diretor ajunto do Programa Mundial de Alimentos (PMA) para o Iraque, Maha Ahmed, em comunicado à imprensa.

Desde o início das operações militares com o objetivo de retomar a cidade do Estado Islâmico do Iraque e do Levante no fim de maio, muitos iraquianos fugiram de Fallujah e seus arredores. Os deslocados estão reunidos em pequenos campos enfrentando situação precária e vivendo em tendas superlotadas. Outros refugiaram-se em mesquitas e escolas.

Por meio de seus parceiros, o PMA distribuiu até agora ajuda alimentar para aproximadamente 75 mil deslocados nos campos de Habbaniya e Amariyat al-Fallujah.

Para continuar ajudando os deslocados nos próximos seis meses, o PMA pede contribuições voluntárias, já que precisa urgentemente de ao menos 34 milhões de dólares.

Deslocados de Fallujah recebem assistência de emergência em campo de Al Khalidiya. Foto: OCHA

Deslocados de Fallujah recebem assistência de emergência em campo de Al Khalidiya. Foto: OCHA

Doenças têm se espalhado por Fallujah

O baixo nível de imunidade combinado às precárias condições de higiene elevam o risco de surtos de doenças como sarampo em Fallujah.

“A situação de saúde dentro e nos arredores de Fallujah é preocupante”, disse Ala Alwan, diretor regional da Organização Mundial de Saúde (OMS) em visita a Bagdá. “Estamos preocupados com a baixa imunidade de crianças, uma vez que nenhum serviço de imunização foi feito nos últimos dois anos”, disse.

Além disso, a estimativa é de que centenas de grávidas estejam sitiadas em Falluhaj e precisem urgentemente de serviços de saúde reprodutiva.

Para detectar e responder a qualquer potencial surto de doenças, a OMS está operando com 13 centros focais na província de Al-Anbar. A agência da ONU também estabeleceu um novo centro de saúde primário em Amiriyat Al Fallujah para atender a população deslocada.

A OMS ajudou o Ministério da Saúde local a distribuir 15 toneladas de medicamentos e kits de emergência a civis que fugiam de Fallujah para campos em Ramadi, Khalidiya, e Amiriyat Al Fallujah.

Mosul também vive onda de deslocamentos

Mais de meio milhão de pessoas continuam fora de suas casas dois anos depois de fugir da violência na cidade iraquiana de Mosul, enquanto atividades militares no norte e no sudeste da cidade estão causando novos deslocamentos, disse a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no início de junho (10).

De acordo com o porta-voz do ACNUR, William Spindler, mais de 14 mil iraquianos registraram entrada em campos de refugiados no norte e sudeste de Mosul, a segunda maior cidade do país, e por toda a fronteira com a Síria, desde que forças de segurança iniciaram uma nova ofensiva militar em março.

Ele afirmou que um recente estudo mostrou que o desemprego é o principal problema enfrentado pelas famílias que deixaram suas casas e buscam abrigo no Iraque, um país onde mais de 3,3 milhões de pessoas — cerca de 10% da população — foi deslocada devido ao conflito desde o início de 2014.

O porta-voz disse ainda que 82% das famílias de Mosul disseram não ter renda suficiente para suas necessidades básicas. Tais problemas têm graves consequências, incluindo altos índices de casamento infantil, de acordo com o estudo.