Artistas como Paulinho da Viola, Gal Costa, Gonzaguinha, Chico Buarque, Raul Seixas, Milton Nascimento e muitos outros participaram da iniciativa da ONU em 1973.
Em 1973, em plena ditadura, quando os defensores dos direitos humanos eram perseguidos, torturados e mortos no País, nasceu “O Banquete dos Mendigos”, show e evento comemorativo da Declaração dos Direitos Humanos que aconteceu em 10 de dezembro de 1973, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.
Para realizar a ideia, o diretor do Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil (UNIC Rio) naquela época, o espanhol Antonio Muiño Loureda (falecido em 2011), convidou o músico e compositor Jardes Macalé, que convenceu a se juntaram à iniciativa da ONU artistas como Johnny Alf, Paulinho da Viola, Gal Costa, Gonzaguinha, Chico Buarque, Raul Seixas, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Edu Lobo, Dominguinhos e Milton Nascimento. E vários outros.
Assessor de comunicação do UNIC Rio à época e que viria anos depois a ser eleito um imortal da Academia Brasileira de Letras, Ivan Junqueira foi encarregado de ler os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A noite foi muito especial, como lembra o artista Xico Chaves, outro dos organizadores do evento:
“Pouco antes do espetáculo (…) no Museu de Arte Moderna (…) a bandeira da Organização das Nações Unidas foi suspensa no fundo do palco improvisado e a porta foi aberta para mais de quatro mil pessoas, que se aglomeravam ansiosamente sob os pilotis”.
“Depois de longa espera, o ruído daquela plateia inquieta silenciou com as primeiras luzes sobre a bandeira azul e um microfone, onde foi lida, na íntegra – e pela primeira vez na história com o carimbo “Liberado pela Censura” -, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil foi signatário em 1948”.
O show foi gravado e tornou-se um LP duplo – “O banquete dos Mendigos” – que só foi liberado pela censura para venda em 1978. Entre uma música e outra, ouve-se a voz de Junqueira ler artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que, naquele contexto histórico, eram praticamente revolucionários: “Artigo V: Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”.
“A reação da plateia foi tão emocionante que desconcertou e interrompeu por várias vezes o poeta Ivan Junqueira, encarregado da leitura”, lembra Xico Chaves.
Para a ONU, promover o “Banquete dos Mendigos” foi uma iniciativa inédita e corajosa. “Deu tudo certo, mas o Ivan, que era brasileiro, poderia ter sido preso, e eu, estrangeiro, expulso do Brasil”, lembrou Muiño anos mais tarde.
Ivan Junqueira, que faleceu em 3 de julho último, foi assessor de comunicação do UNIC Rio de Janeiro durante sete anos, entre 1970 e 1977.