Jovem de Mossul retoma estudos de fotografia na Finlândia

Ahmed Alalousi e sua família foram ameaçados pelo grupo Estado Islâmico e fugiram de Mossul em 2014. O rapaz, que era estudante de comunicação no Iraque, decidiu ir para a Europa, onde chegou à Finlândia. No país de acolhimento, já participou de três exposições e fez um vídeo com um rapper finlandês.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Quando começou a receber ameaças de morte, o iraquiano Ahmed Alalousi soube que era hora de fugir. Ele se escondeu, mas não foi suficiente para proteger a si mesmo e sua família. “Eles torturam meu irmão, mas ele não disse onde eu estava”, lembra o ex-morador de Mossul em entrevista para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Desde que radicais do grupo Estado Islâmico chegaram à cidade em junho de 2014, muitas pessoas que ele conhecia começaram a desaparecer, conta o estudante de comunicação e aspirante a fotógrafo. Colegas jornalistas, amigos e familiares foram ameaçados, torturados e assassinados.

“Uma amiga da minha classe levou um tiro enquanto voltava para casa depois de uma prova”, recorda. “Outro colega foi morto dez minutos após nos despedirmos.”

Pessoas que eu conheço são
mortas todos os dias.
Acontece tão frequentemente
que nem tenho mais lágrimas para chorar.

Hoje, aos 24 anos, Ahmed vive na Finlândia, onde conseguiu refúgio, mas continua acompanhando à distância a guerra que tomou conta de seu país de origem. “Pessoas que eu conheço são mortas todos os dias. Acontece tão frequentemente que nem tenho mais lágrimas para chorar.”

Ele e seus amigos estudavam para serem repórteres e frequentemente eram vistos conversando com empolgação sobre acontecimentos atuais e injustiças no mundo. Isso fez com que alguns membros da organização terrorista os considerassem inimigos.

Ahmed também se apresentava regularmente com sua banda e organizava eventos culturais com pessoas próximas — outras atividades malvistas pelos extremistas.

Em dezembro de 2014, o rapaz e sua família saíram do Iraque. Uma jornada de carro até Bagdá que durou dois dias, entre uma parada e outra e estradas ruins. Da capital, voaram para a Turquia, onde tiveram que contornar dificuldades financeiras. O visto de Ahmed logo expirou.

Entre seus contatos, ele ouvia dizer que, na Finlândia, pessoas eram tratadas com justiça e igualdade e que o sistema educacional era um dos melhores do mundo. Seu maior desejo era terminar os estudos. Então, ele decidiu ir para o país a fim de transformar suas ambições em realidade. Em agosto de 2015, o iraquiano se arriscou pela perigosa rota do Mediterrâneo rumo à Europa.

Em um frágil bote inflável com destino à Grécia, Ahmed percebeu que seu colete salva-vidas era falso. Conforme a embarcação se afastava da costa, ele lembra que só conseguia pensar que iria morrer. Felizmente, chegou ao fim da viagem são e salvo.

Depois de aportar em território grego, o iraquiano passou duas semanas viajando a pé, de trem e em veículos irregulares numa jornada que atravessou Macedônia, Sérbia, Hungria, Áustria, Alemanha, Dinamarca e Suécia até chegar a Finlândia.

“Eu finalmente me senti seguro”, disse. “E então eu só dormi. Eu estava andando por muito tempo. Só queria que acabasse logo.”

Reencontro com a fotografia na Finlândia

Na Finlândia, o jovem aproveitou todas as oportunidades que surgiram em seu caminho. Estudante dedicado, ele sempre sonhou em seguir os passos do ídolo Michael Shainblum, fotógrafo norte-americano.

Ahmed comprou sua primeira câmera em 2012 e resolveu participar de um concurso de fotografia na universidade.  Com a primeira foto que tirou na vida, acabou conquistando o primeiro lugar.

“Eu pensei que eles tivessem se enganado”, lembra, rindo. Depois disso, foram mais competições — e mais prêmios —, e seu trabalho foi parar em exposições na Turquia, Bagdá, Tunísia e Marrocos.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Logo que chegou à nação europeia onde atualmente reside, buscou oportunidades de aprendizado para aprimorar sua técnica, mas a espera pela concessão do refúgio atrasou seus planos. “Eu não estou acostumado a ficar sentado sem fazer nada”, diz.

“Minha câmera havia ficado para trás na Turquia e, na Finlândia, estava muito frio e escuro. Mas as pessoas eram legais e todo mundo tentava me ajudar”, explica.

Ahmed mostrou umas fotos que tirou com seu celular para as pessoas que trabalhavam no centro de recepção onde estava morando. Eles viram que o rapaz tinha talento e ligaram para Kjell Svenskberg, outro fotógrafo que também vivia na região.

Eu tenho saudades da minha
cidade, das pessoas e
das minhas referências.

“As pessoas que trabalham comigo ficaram impressionadas com as fotos de Ahmed, eles falaram que nosso trabalho era bem parecido”, recorda Svenskberg, de 41 anos. O profissional transformou o jovem iraquiano em seu pupilo.

“Eu acredito que essa é uma forma que tenho de contribuir. Sendo amigo, levando para um jogo de futebol e saindo juntos para tirar fotos. Nós dois amamos fotografia e futebol, então foi o encontro perfeito.”

Svenskberg sabia perfeitamente o que Ahmed havia passado para conseguir chegar na Finlândia. “Eu vi o que estava acontecendo pelo jornal. Me sentia impotente. Eu sentia raiva das pessoas que não queriam ajudar”, afirma o finlandês, que explica que o a trajetória do iraquiano se assemelha à história de sua própria família.

“Meu pai era apenas uma criança vivendo em Helsinque quando a cidade começou a ser bombardeada. Até mesmo mais velho, ele frequentemente sonhava com essas imagens. Ele foi enviado para a Suécia como uma criança de guerra. Poderia acontecer com qualquer um de nós, não somos diferentes”, relata.

O talento de Ahmed começou a ser reconhecido e lhe rendeu seu primeiro emprego no Museu de Fotografia Finandês. O iraquiano já exibiu seu trabalho em mais três diferentes mostras e ainda colaborou com o rapper Qruu. Juntos, fizeram um videoclipe e organizaram palestras em escolas para falar sobre a crise dos refugiados e o que significa ser um deslocado forçado.

Nove meses depois da sua chegada, Ahmed teve sua solicitação de refúgio aceita. Agora, pode se mudar de centros de recepção, ter sua própria casa e terminar seus estudos.

Ele espera um dia retornar a Mossul com sua família, que ainda está na Turquia esperando a guerra terminar. “Eu tenho saudades da minha cidade, das pessoas e das minhas referências. Eu me sinto muito distante de tudo isso”, conta.