Judocas refugiados retomam treinamento no Rio e inspiram jovens atletas

A participação dos judocas refugiados Popole Misenga e Yolande Mibika nas Olimpíadas vai além de uma vitória pessoal destes dois integrantes da Equipe Olímpica de Atletas Refugiados. O acontecimento se tornou motivo de orgulho para os alunos do Instituto Reação, centro de treinamento onde os dois atletas se prepararam para os Jogos Rio 2016.

Na volta aos treinos no Instituto Reação e com cabelos descoloridos, Yolande Mabika foi tietada por vários alunos, que agora a consideram um exemplo a ser seguido. Foto: ACNUR/B. Loyseau

Na volta aos treinos no Instituto Reação e com cabelos descoloridos, Yolande Mabika foi tietada por vários alunos, que agora a consideram um exemplo a ser seguido. Foto: ACNUR/B. Loyseau

A participação dos judocas refugiados Popole Misenga e Yolande Mibika nas Olimpíadas vai além de uma vitória pessoal destes dois integrantes da Equipe Olímpica de Atletas Refugiados. Este acontecimento se tornou motivo de orgulho para os alunos do Instituto Reação, centro de treinamento onde os dois atletas se prepararam para os Jogos Rio 2016.

Com o fim das competições de judô nas Olimpíadas, os dois atletas — que vivem no Rio de Janeiro desde 2013 — estão retomando a rotina de treinamentos e se tornaram um exemplo a ser seguido para os jovens alunos do instituto. Ainda vivendo na Vila dos Atletas, Popole e Yolande voltaram aos treinos nesta semana, na companhia do técnico Geraldo Bernardes.

Antes mesmo de colocarem o quimono, roupa oficial de treinamento e competição do judô, os atletas refugiados foram recebidos calorosamente pelos demais integrantes do instituto, em especial pelos mais jovens que vieram correndo ao encontro da dupla para saber os detalhes de cada luta disputada nas Olimpíadas. Além do interesse pela parte técnica dos golpes aplicados, conversar com os agora ídolos propicia aos mais jovens novas aspirações.

“Comecei no judô porque brigava muito na escola. Agora sou uma pessoa mais calma e com vontade de vencer. Por isso, é muito legal treinar no mesmo lugar dos atletas que competiram nas Olimpíadas. Eu tirei foto com eles, pedi autógrafo e um dia quero ser campeão como eles. Mas sei que para isso vou ter que me esforçar muito”, disse Tauã, de 11 anos, que treina desde os seis.

No outro lado do tatame, Vitória, de 12 anos, não se cansava de “tietar” as duas novas celebridades do Instituto Reação. “Quando vejo eles lutando, percebo que são muito disciplinados. Sei que dentro do tatame é preciso levar os treinamentos a sério”, afirmou.

Os dois atletas retomaram os treinamentos já visando a resultados mais promissores em competições a serem disputadas a partir de agora. No primeiro dia de treino no Instituto Reação, foram reverenciados por seus colegas de luta, em especial pelos judocas mais jovens, que formaram uma grande roda para ouvir algumas palavras de incentivo dos judocas congoleses.

“Perdi já na minha primeira luta nas Olimpíadas, mas não vou desistir. Vou seguir treinando forte para me tornar mais competitiva, para voltar a ser a Yolande que o mundo já conheceu. Porque eu sou uma atleta e vou buscar resultados em competições que vão acontecer daqui em diante”, disse Yolande, de 28 anos.

“As Olimpíadas são uma grande competição porque nela estão os melhores do mundo. Para chegar até lá, é preciso muito treino, dedicação e disciplina. É importante se esforçar e ouvir as palavras dos treinadores, pois eles sabem os caminhos para se tornar um campeão”, disse Popole aos jovens atletas.

A filosofia do judô, um esporte oriental e que tem um grande número de praticantes no Brasil, reforça o caráter disciplinador e de superação que a prática propicia a seus adeptos. As palavras de uma grande referência no assunto, o treinador Geraldo Bernardes, que já conduziu vários atletas ao pódio ao longo de quatro Olimpíadas, reafirmam o potencial transformador do esporte.

“O judô tem valores e princípios, como o respeito, a coordenação, o comprometimento e a superação. As crianças começam a fazer judô para que tenham uma direção em suas vidas, canalizando sentimentos como a raiva para a prática do esporte e moldando o caráter de seus praticantes”.

A história de Popole e Yolande sensibilizou até mesmo alguns dos pais que acompanham os filhos durante os treinos no Instituto Reação. “Eles chegaram ao Brasil e encontraram apoio e estrutura necessários para competir nas Olimpíadas. Sua determinação e coragem mostram às crianças que elas devem treinar e perseguir seus sonhos

O judoca congolês Popole Misenga (centro) compartilhou com os colegas de treino a experiência de participar dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Foto: ACNUR/B. Loyseau

O judoca congolês Popole Misenga (centro) compartilhou com os colegas de treino a experiência de participar dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Foto: ACNUR/B. Loyseau

para, no futuro, se tornar medalhistas olímpicos”, acredita Amaro Frado, pai de Tauã.

Entre tantas possibilidades de transformação pessoal para crianças, jovens e adultos, os praticantes do judô veem no esporte uma atividade que requer dedicação, respeito e perseverança.

Estas características são evidentes na trajetória dos judocas congoleses que, refugiados no Brasil, já iniciaram a preparação para as competições que ainda estão por vir, mas que novamente já entram como vencedores por sua determinação e força no enfrentamento dos problemas e das diversidades.

Sobre a equipe de refugiados

A Equipe Olímpica de Atletas Refugiados é uma iniciativa do Comitê Olímpico Internacional (COI) que contou com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). A equipe  — inédita na história das olimpíadas — foi formada por dez atletas refugiados, que disputaram os Jogos do Rio em nome do COI, defendendo a bandeira olímpica.

Eles competem nas provas de natação, judô e atletismo (corrida e maratona). Dos 10 atletas, nove já participaram das Olimpíadas, restando apenas a maratona (no próximo domingo, a partir das 9h30). A equipe é composta por dois nadadores sírios, dois judocas congoleses, um maratonista etíope e cinco corredores sul-sudaneses.

A partir de uma solicitação do COI, o ACNUR identificou refugiados em todo o mundo com experiência esportiva e encaminhou os nomes ao Comitê Olímpico Internacional. A partir daí, o Comitê atuou com as federações e os comitês nacionais em um programa de treinamento dos atletas, culminando com a seleção dos dez refugiados que se encontram no Rio de Janeiro.

O ACNUR e o COI são parceiros há mais de 20 anos. Desde 1994, as duas entidades atuam juntas no desenvolvimento de projetos que promovem o esporte como fator de desenvolvimento e bem-estar de refugiados, principalmente crianças. Os projetos incluem a construção de espaços para a prática esportiva, o fornecimento de equipamento e programas de treinamento.