Lei que impede manifestações no Egito precisa ser alterada ou revogada, avalia ONU

Sem especificar condutas, texto permite que agentes do Estado usem até mesmo munição letal para acabar com reuniões que possam constituir ameaça à segurança ou perturbar os interesses dos cidadãos.

Partidários do presidente deposto Mohamed Morsi se manifestam em praça do Cairo. Foto: IRIN/Saeed Shahat

Uma nova lei que restringe manifestações no Egito tem falhas sérias e precisa ser alterada ou revogada, alertou a chefe das Nações Unidas para direitos humanos nesta terça-feira (26). A lei, publicada no domingo, dá às autoridades locais de segurança o poder de banir reuniões que iriam, entre outras coisas, constituir uma ameaça para a “segurança” ou “perturbar os interesses dos cidadãos” sem detalhar especificamente a conduta.

“O fato de que a lei criminaliza atos de manifestantes que possam violar ‘a segurança e a ordem pública’, sem definir claramente estes termos, deixa a porta aberta para uma interpretação muito restrita e repressiva”, disse Navi Pillay. “Particularmente preocupantes são as disposições sobre o uso da força pelos agentes da lei e as sanções excessivas, incluindo multas enormes, bem como penas de prisão, que podem ser impostas àqueles que se encontrem violando esta lei”, destacou.

A nova lei prescreve uma lista de medidas crescentes que agentes do Estado podem empregar, após a emissão de avisos, para dispersar manifestantes indisciplinados. Estas incluem gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas de fumaça, tiros de advertência, balas de borracha e até munição letal, o que é proibido pelas normas internacionais exceto em casos inevitáveis para proteger vidas.

“Este é um país cujo povo proclamou em voz alta, com clareza, coragem e repetidamente seu desejo de poder se manifestar pacificamente, de acordo com seus direitos humanos internacionais”, disse Pillay. Ela acrescentou que a organizações da sociedade civil egípcia e defensores dos direitos humanos manifestaram preocupações sobre a lei que podem não ter sido levadas em conta.

“Existe um risco real de que a vida dos manifestantes pacíficos vai ser posta em risco por causa do comportamento violento de alguns ou porque a lei pode muito facilmente ser interpretada pelas autoridades locais de segurança de uma forma que lhes permita usar força excessiva em circunstâncias inadequadas” , disse a alta comissária. Entre outras preocupações, ela observou que, segundo a nova lei, os organizadores dos protestos, na maioria dos casos, são obrigados a notificar a polícia com pelo menos três dias de antecedência.

Segundo Pillay, a lei também é “muito ampla em termos de restrição de locais”. Ela tem uma proibição abrangente sobre reuniões públicas e reuniões para propósitos políticos dentro e em torno de locais de culto quando envolverem dezenas ou milhares de pessoas no Egito.

O país vem passando por uma transição democrática após a derrubada do presidente Hosni Mubarak dois anos atrás, na sequência dos protestos em massa. Em julho passado, os protestos renovados, nos quais dezenas de pessoas foram mortas e feridas, levaram os militares egípcios a depôr o presidente Mohamed Morsy. A constituição foi então suspensa e um governo interino criado.