LGBTI fogem da violência na América Central

Dennis, Karla e Rebeca têm algo em comum: nasceram no chamado Triângulo Norte da América Central, que inclui Guatemala, Honduras e El Salvador, e fazem parte da comunidade LGBTI. Vítimas de perseguição e violência, pediram refúgio em países como México e Costa Rica, onde puderam reconstruir suas vidas.

Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas

Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas

Dennis, Karla e Rebeca têm algo em comum: nasceram no chamado Triângulo Norte da América Central, que inclui Guatemala, Honduras e El Salvador, e fazem parte da comunidade LGBTI. Entretanto, essas características não lhes trouxeram muita sorte, pois os três foram vítimas de perseguição e violência apenas por existir.

Dennis, o mais novo de sete irmãos, começou a ter um papel importante como defensor dos direitos humanos e da saúde para gays e lésbicas aos 23 anos, quando começou a trabalhar para uma ONG hondurenha.

Mas o ódio e a discriminação logo apareceram e ele passou a ser perseguido por gangues que tinham como alvo pessoas LGBTI, em especial trans. Em 2008, um colega de trabalho de Dennis foi assassinado na rua. O crime não foi investigado.

Desde então, Dennis, hoje aos 26 anos, começou a receber ameaças anônimas por celular. “Mudei de número muitas vezes, mas as mensagens continuavam aparecendo”, disse. Ele e sua família se deslocaram dentro do país inúmeras vezes, até que passaram a receber ameaças diretas.

“Não queria expor meus pais e decidi fugir”, afirmou. Ele deixou Honduras sozinho, mesmo com as medidas cautelares de proteção da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Na Costa Rica, Dennis pôde ser quem é, sem medo. Em 2012, foi reconhecido como refugiado pelo governo, na primeira vez que o país dá esse status a pessoas vítimas de perseguição por sua orientação sexual.

Com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ele retomou sua vida como ativista e, em agosto de 2013, tornou-se cofundador da ONG CasAbierta, que oferece assistência à pessoas da comunidade LGBTI, incluindo solicitantes de refúgio da América Central.

A experiência da Karla não foi muito diferente. Aos 38 anos, esta mulher trans sobreviveu em El Salvador a um assassino em série, abusos sexuais, ameaças, e sequestros por parte das gangues. Ela se deslocou dentro de seu país para se salvar várias vezes — somente em 2015 mudou-se três vezes de casa. Atualmente, Karla é a voz de mulheres e pessoas trans que sofrem diariamente com a violência generalizada contra a comunidade LGBTI.

“Não há acesso à educação, moradia, Justiça, serviços bancários, oportunidades de emprego para nós. A discriminação e a violência terminam em crimes de ódio cometidos pelos familiares, pelas gangues e até pela polícia e os militares”, disse Karla.

O acesso à Justiça é mais complicado para as mulheres trans. Durante os cinco anos que duraram um julgamento por um ato de legítima defesa, quando as gangues tentaram assassiná-la, Karla foi presa e submetida a humilhações.

“Fui violentada, abusada, espancada com cassetetes todos os dias e me esfaquearam uma vez”, declarou. Após esta experiência na prisão, ela decidiu se tornar ativista em prol dos direitos das pessoas trans, especialmente mulheres privadas de liberdade. Desde 2012, Karla e a ONG COMCAVIS Trans têm registrado casos de pessoas LGBTI que fugiram da violência em El Salvador.

Contudo, escapar às vezes não é fácil. De acordo com relatório do ACNUR de 2015, muitas pessoas LGBTI foram torturadas, violentadas, vítimas de tráficos de órgãos e de pessoas, assaltadas, trapaceadas, sequestradas, e forçadas à prostituição ao longo de suas perigosas viagens.

Rebeca, outra mulher trans, frequentou a universidade em sua cidade natal em El Salvador. Após a graduação, começou a trabalhar em um partido político. Seus problemas começaram quando seu chefe passou a se incomodar com a forma com a qual ela se vestia, e ordenou que ela se vestisse como um homem.

Rebeca não acatou as ordens, pois queria preservar sua identidade de gênero. Seu chefe, cúmplice das gangues, decidiu puni-la, ordenando seu assassinato. Após ter ficado gravemente ferida, conseguiu sobreviver, mas sabia que não teria nova chance. Como muitas outras pessoas LGBTI, saiu de El Salvador rumo ao México, onde foi reconhecida como refugiada.

Em 2015, foram registrados 38 crimes de ódio contra a comunidade LGBTI em El Salvador. Deste número, 35 eram mulheres trans. Em Honduras, a comunidade LGBTI e ativistas de direitos humanos registraram em 2016 cerca de oito crimes de ódio contra pessoas LGBTI, somados aos 228 crimes dos últimos sete anos.

A discriminação e a violência contra pessoas de orientação sexual e/ou identidade de gênero diversa são muito comuns em El Salvador e Honduras. As pessoas pertencentes à comunidade LGBTI são continuamente alvos de ataques e assassinadas por gangues e outros setores da sociedade, incluindo a polícia e autoridades.

Por Francesca Fontanini, Angela Flórez e Mariana Echandi de Costa Rica, El Salvador e México