Mais de 2 mil crianças foram recrutadas para conflitos na República Centro-Africana, alerta ONU

UNICEF informou ter provas claras sobre contínuo recrutamento de crianças desde dezembro, representando grave violação do direito internacional. Chefe de agência para refugiados visita região.

Ex-crianças-soldado desenham em um centro de assistência do UNICEF na República Centro-Africana (RCA). Foto: UNICEF/Brian Sokol

Ex-crianças-soldado desenham em um centro de assistência do UNICEF na República Centro-Africana (RCA). Foto: UNICEF/Brian Sokol

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse nesta sexta-feira (12) que mais de 2 mil meninos e meninas foram recrutados pelas forças armadas na República Centro-Africana (RCA) desde que teve início a última onda de violência no país, em dezembro.

Em um comunicado à imprensa, o UNICEF informou ter provas claras sobre o contínuo recrutamento de crianças, advertindo que tais práticas representam uma grave violação do direito internacional.

“Recrutar crianças é moralmente inaceitável e proibido pelo direito internacional”, disse o representante do UNICEF no país, Souleymane Diabaté. “Temos chamado a nova liderança na RCA para garantir que todas as crianças associadas a grupos armados sejam libertadas imediatamente e protegidas de novas violações.”

Diabaté disse que as novas autoridades na capital, Bangui, têm mostrado suas intenções de identificar e libertar as crianças nas fileiras dos grupos armados, ressaltando que o UNICEF está empenhado em trabalhar com eles para assegurar que novos recrutamentos cessem imediatamente e que as crianças-soldado sejam devolvidas às suas famílias.

O UNICEF destacou que a atual tensão, insegurança e falta de acesso dos trabalhadores humanitários a muitas partes do país significa que as crianças estão em maior risco do que nunca. No entanto, ele observou que apenas 25% dos fundos necessários para responder à crise foram recebidos até agora.

Pelo menos 4,1 milhões de pessoas, quase metade das quais crianças, foram diretamente afetadas pela crise. Desde dezembro, 1,2 milhão de pessoas foram privadas de serviços essenciais e as violações dos direitos humanos continuaram, mesmo depois de a coalizão rebelde Séléka ter tomado o poder, no último 24 de março.

Além disso, mais de 37 mil pessoas já fugiram do país nos últimos quatro meses devido à violência. A maioria das pessoas deslocadas encontraram asilo na República Democrática do Congo (RDC), enquanto outros foram para o Chade e Camarões.

Chefe de agência para refugiados visita região

Refugiados da República Centro-Africana chegando à provincia de Equateur, na República Democrática do Congo, no início deste mês, depois de cruzar o rio Oubangui. Foto: ACNUR/ G.Casteele

Refugiados da República Centro-Africana chegando à provincia de Equateur, na República Democrática do Congo, no início deste mês, depois de cruzar o rio Oubangui. Foto: ACNUR/ G.Casteele

O Alto Comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, visitou refugiados da RCA em uma área remota do norte da RDC, onde seu escritório — o ACNUR — e os seus parceiros estão prestando assistência e proteção.

“As necessidades dos refugiados são significativas, mas o acesso à área é difícil”, disse a porta-voz do ACNUR, Melissa Fleming, a jornalistas em Genebra. “Temos registrado os refugiados, distribuído ajuda, criado abrigos de emergência e trabalhado com organizações parceiras para proporcionar apoio de saúde e educação.”

Fleming acrescentou que o ACNUR está extremamente preocupado com a estabilidade regional, dada a situação no leste da RDC e as crises na RCA e região sudanesa de Darfur.

Neste sábado (13), Guterres vai se reunir com o presidente congolês Joseph Kabila para discutir a situação dos refugiados da RCA e outras iniciativas do ACNUR no país.