Crianças que habitam zonas de guerra têm mais chances de viver em estado de estresse tóxico, uma condição que inibe as conexões celulares cerebrais.

Yusef, 2 anos, vive no campo de refugiados de Domiz, no Norte do Iraque, com seus dois irmãos, mãe e avó. Foto: ONU.
Mais de 86,7 milhões de crianças com menos de sete anos passaram sua vida toda em zonas de conflito, o que coloca o desenvolvimento de seu cérebro sob risco, disse nesta quinta-feira o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
Durante os primeiros sete anos de vida, o cérebro de uma criança tem o potencial de ativar 1 mil células cerebrais a cada segundo, disse o UNICEF. Cada uma dessas células, conhecidas como neurônios, tem o poder de se conectar a outros 10 mil neurônios milhares de vezes por segundo. As conexões cerebrais servem como tijolos para o futuro da criança, definindo sua saúde, seu bem-estar emocional e sua capacidade de aprendizagem.
Crianças que habitam zonas de conflito são frequentemente expostas a traumas extremos, o que as coloca sob risco de viver em estado de estresse tóxico, uma condição que inibe as conexões celulares cerebrais – com consequências significativas ao longo da vida para seu desenvolvimento cognitivo, social e físico, disse a agência.
“Além das ameaças físicas imediatas que as crianças em situações de crise enfrentam, elas também são sujeitas a cicatrizes emocionais profundas”, disse a chefe de desenvolvimento da Primeira Infância do UNICEF, Pia Britto, em comunicado à imprensa.
Dados do UNICEF mostram que globalmente uma em cada 11 crianças com idade de até seis anos passou o período mais crítico do desenvolvimento cerebral em zonas de conflito.
“Conflitos roubam a segurança, a família, os amigos, as brincadeiras e a rotina das crianças. E esses são elementos da infância que dão a elas a melhor chance de se desenvolver e aprender efetivamente, permitindo que sejam capazes de contribuir para suas economias e sociedades, e construir comunidades fortes e seguras quando chegarem à vida adulta”, disse Britto.
“É por isso que precisamos investir mais para fornecer às crianças e responsáveis ajudas e serviços incluindo material escolar, apoio psicossocial, e espaços seguros que possam ajudá-las a retomar o senso de infância em meio a um conflito”, acrescentou.
De acordo com o UNICEF, uma criança nasce com 253 milhões de neurônios, mas a chance de o cérebro atingir sua capacidade total de cerca de 1 bilhão depende em grande parte de seu desenvolvimento na primeira infância. Isso inclui amamentação e nutrição, oportunidades de aprendizagem e chances de crescer e brincar em um ambiente seguro e saudável.
Como parte de sua resposta a emergências humanitárias, o UNICEF informou que trabalha para manter as crianças em ambientes amigáveis, fornecendo kits de emergência com material de aprendizagem e brincadeiras. A agência apoiou mais de 800 mil crianças vivendo em contextos de emergência somente no ano passado.