Em Manaus, cerca de 2 mil venezuelanos e brasileiros correram juntos para celebrar a integração de refugiados na capital amazonense. Iniciativa da Prefeitura e da ONU, com apoio da União Europeia, também angariou doações de mais de 5 mil produtos alimentícios, que serão entregues a abrigos da cidade para estrangeiros da Venezuela.

Cerca de 2 mil pessoas suaram a camisa no último domingo (9) para celebrar a integração entre venezuelanos e a população de Manaus, um dos principais destinos de solicitantes de refúgio e migrantes da Venezuela que buscam proteção e assistência no Brasil.
A confraternização ocorreu durante a inédita corrida Manaus #ComOsRefugiados, um trajeto de 5 km que aconteceu na Praia de Ponta Negra, um dos pontos turísticos da capital amazonense.
A atividade foi organizada pela Prefeitura de Manaus e pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), com o apoio da União Europeia, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Fundo Manaus Solidária. Por meio do seu Instrumento de Contribuição para a Estabilidade e a Paz (IcSP, da sigla em inglês), a União Europeia, desde julho deste ano, promove atividades que estimulam a convivência harmoniosa entre venezuelanos e comunidades de acolhida. A corrida foi uma destas ações.
A maratona reuniu atletas amadores e profissionais, incluindo cerca de 400 venezuelanos indígenas e não indígenas que vivem em Manaus, muitos deles nos abrigos geridos pela prefeitura e pela Caritas Arquidiocesana. Os centros de residência são apoiados pelo ACNUR e seus parceiros.
O primeiro a cruzar a linha de chegada foi o venezuelano Luís Fernando Rodriguez, de 21 anos, que trabalha como ajudante de pedreiro e mora em Manaus há seis meses.
“Cumprimento primeiramente todo o povo do Brasil, especialmente do Amazonas, que tem nos recebido muito bem. É muito emocionante todo o apoio que estamos recebendo em Manaus”, contou Rodriguez, que participava de competições em seu país. Ao chegar a Manaus, foi recebidona casa de um amazonense que o conhecia por causa de atividades esportivas.

Atualmente,Rodriguez integra um dos grupos de corrida da cidade e planeja voltar a estudar Administração de Empresas, curso que frequentava na Venezuela quando teve de deixar o país. “Esta corrida é um motivo de satisfação para todos os venezuelanos que estão no Brasil e em Manaus. Estou contente com o resultado e satisfeito com meu desempenho”, completou o jovem.
Os indígenas venezuelanos da etnia Warao tiveram uma participação especial na corrida. Ao lado da tenda do ACNUR, expuseram artesanatos típicos como redes e colares.
Um dos corredores indígenas foi presenteado com um par de tênis doado pelo estudante e despachante Robson Neto,de 21 anos. “Vi que ele estava correndo descalço e decidi dar o meu tênis para apoiá-lo. A situação dos venezuelanos não é fácil”, disse Robson.
Para o secretário municipal de Juventude, Esporte e Lazer, João Carlos dos Santos Mello, um dos participantes da maratona, a corrida Manaus #ComOsRefugiados “é um gesto de cunho social que reafirma o compromisso da Prefeitura de Manaus em atender e acolher a população venezuelana”.

Também presente, o secretário de Assistência Social e Cidadania, afirmou que a população de Manaus “recebe os venezuelanos de coração, e a corrida serviu para ressaltar o desafio de atender os venezuelanos de forma séria e responsável”.
O Instrumento de Contribuição para a Estabilidade e a Paz, da União Europeia, apoia atividades do ACNUR e do UNFPA no Brasil, nas áreas de registro e documentação, abrigamento de grupos mais vulneráveis, acesso a informação, atuação com crianças e vítimas de violência de gênero e enfrentamento à xenofobia.
Doação de alimentos
A caminhada Manaus #ComOsRefugiados coletou alimentos para os venezuelanos que moram nos abrigos do Executivo municipal e da Caritas Arquidiocesana. Cada participante doou uma cesta básica composta por 1 kg de arroz, 1 kg de feijão, um pacote de 500 g de macarrão, um pacote de 400 g de leite e um pacote de 400 g de café. Segundo a Prefeitura, foram arrecadados mais de 5 mil itens alimentícios.
O envolvimento da população manauara com a causa dos refugiados e o apoio da Prefeitura foram elogiados pelo chefe do escritório do ACNUR em Manaus, Sebastian Roa.
“Esta é uma questão internacional, que não acontece apenas em Manaus. Os venezuelanos chegam diariamente na cidade em busca de uma nova vida, de uma nova oportunidade, e a população de Manaus está de braços abertos para acolher essas pessoas”, disse o dirigente, lembrando que Manaus tem um histórico de receber refugiados e migrantes.
“Quero parabenizar o município, e o ACNUR espera continuar com esta parceria.”

O ACNUR estima em 3 milhões o número de venezuelanos vivendo fora do seu país de origem devido a uma complexa situação política e socioeconômica. Cerca de 80% deles estão nos países da América Latina e do Caribe.
São várias as razões que levam essas pessoas a deixar seu país, entre elas a insegurança e a violência, a redução na renda e dificuldades em obter comida, remédios e serviços essenciais.
De acordo com os dados mais recentes das autoridades, aproximadamente 200 mil venezuelanos entraram no Brasil desde 2017, sendo que em torno de 98 mil permanecem em solo brasileiro. Atualmente, existem 77 mil pedidos de refúgio feitos por venezuelanos no Brasil.
Em Manaus, já são mais de 8,8 mil solicitações feitas por venezuelanos desde 2017 – até agosto deste ano. Cerca de 600 pessoas estão morando em abrigos da cidade. Atualmente, a Prefeitura mantém três casas de acolhimento localizadas nos bairros Coroado, Alfredo Nascimento e Centro. A Caritas Arquidiocesana de Manaus também administra outros abrigos.
Em setembro de 2018, a Prefeitura de Manaus recebeu mais de 180 venezuelanos não indígenas por meio da estratégia de interiorização do governo federal. Os estrangeiros estão sendo atendidos com alimentação, produtos de higiene e limpeza e atendimento de equipe técnica (assistente social, psicólogo, sociólogo, saúde, educação).