Mianmar: especialista da ONU diz ainda esperar prometida transição democrática

Enquanto graves denúncias de crimes internacionais ainda precisam ser efetivamente abordadas pelas autoridades de Mianmar, uma especialista em direitos humanos da ONU disse nesta quinta-feira (23) esperar uma transição democrática no país, ao concluir sua última visita oficial à região.

Ela também acolheu com satisfação a decisão desta quinta-feira da Corte Internacional de Justiça (CIJ), segundo a qual o governo de Mianmar precisa tomar medidas emergenciais para proteger o povo rohingya no país. 

Refugiados rohingya em campo de Cox's Bazaar, Bangladesh, durante visita do secretário-geral da ONU em julho de 2018. Foto: ONU

Refugiados rohingya em campo de Cox’s Bazaar, Bangladesh, durante visita do secretário-geral da ONU em julho de 2018. Foto: ONU

Enquanto graves denúncias de crimes internacionais ainda precisam ser efetivamente abordadas pelas autoridades de Mianmar, uma especialista em direitos humanos da ONU disse nesta quinta-feira (23) que não perdeu a esperança de uma transição democrática no país, ao concluir sua última visita oficial à região.

“Perdi meu otimismo — como poderia ser otimista com as alegações de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e possivelmente genocídio cometidos em Mianmar, e com justiça e responsabilização ainda fora do nosso alcance?”, disse Yanghee Lee, relatora especial sobre a situação dos direitos humanos em Mianmar, em declaração após visita a Tailândia e Bangladesh.

“Mas ainda tenho esperança de que a prometida transição democrática prossiga, pois ainda não é tarde para o governo mudar o rumo que está definido atualmente. O governo de Mianmar deve assumir suas responsabilidades, obrigações e deveres.”

O mandato de Lee termina este ano. Ele teve início em 2014, quando a florescente transição democrática de Mianmar, reformas promissoras e incentivo ao progresso foram uma fonte de “grande otimismo”, disse ela. A relatora está impedida de entrar no país desde dezembro de 2017.

Durante sua missão, a especialista da ONU se encontrou com refugiados no campo de Cox’s Bazar, em Bangladesh. “Me reuni com homens que sobreviveram à violência sexual. Eles me contaram sobre estupros e estupros coletivos que sofreram nas mãos das forças militares e de segurança de Mianmar em Rakhine”, disse ela. “Também conheci cristãos rohingya que me disseram ter sido perseguidos pelo governo de Mianmar devido à sua religião.”

“Os refugiados com quem conversei estavam firmes em seu profundo desejo de voltar para casa. No entanto, fui informada sobre a violência contínua, restrições contínuas ao movimento, imposição forçada de cartões de verificação nacionais e pessoas mortas e feridas por minas terrestres no norte de Rakhine. As condições permanecem inadequadas para seu retorno.”

“O intenso conflito entre o Exército Arakan e o Tatmadaw — as forças armadas de Mianmar — está causando um impacto devastador. As restrições impostas pelo governo, incluindo o desligamento da Internet em quatro municípios e o bloqueio da ajuda em oito, com a recente adição da cidade de Myebon (à lista), exacerbam gravemente esse impacto: agora há mais de 100 mil pessoas vivendo em campos e abrigados em aldeias em Rakhine, e 1,8 mil pessoas deslocadas em Chin, no sul do país.”

“Também estou muito preocupado com os dois lados adotando táticas perturbadoras, incluindo sequestros e prisões em massa, e como isso está instilando medo na população civil.”

Lee também manifestou preocupação com a situação no norte do estado de Shan, que permanece volátil, com conflitos armados em andamento, líderes das aldeias alvejados por militares e organizações armadas étnicas, e mortes de civis causadas por tiros e minas terrestres.

Com as eleições nacionais chegando este ano, cabe ao governo garantir que estas sejam pacíficas, confiáveis, livres e justas; que todas as pessoas do país possam participar igualmente; e que o debate político seja aberto e bem-vindo, disse.

“Algumas pessoas me disseram que estão preocupadas com o fato de as pesquisas eleitorais não serem permitidas em partes de Rakhine e Shan por razões de segurança. Se isso ocorrer, a desconfiança em relação ao próximo governo, as queixas e a marginalização já existentes em comunidades vão apenas aumentar, e isso dificultará ainda mais os esforços para avançar na transição democrática e no processo de paz.”

A especialista da ONU observou que medidas significativas foram tomadas em direção à justiça e à prestação de contas internacionais nos últimos três anos, mas é preciso fazer mais pelo povo de Mianmar.

Ela acolheu com satisfação a decisão desta quinta-feira da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que ordenou que o governo de Mianmar tome medidas para proteger o povo rohingya no país.  A decisão consiste de “medidas provisórias de emergência”, que devem ser implementadas.

Ela observou que, na segunda-feira (20), a Comissão Independente de Inquérito do Governo de Mianmar (ICOE) transmitiu seu relatório final ao presidente da comissão.

“Gostaria muito de ter a oportunidade de ler o relatório da ICOE na íntegra e exijo que seja divulgado ao público o mais breve possível.”

“Peço à comunidade internacional que mantenha as evidências credíveis de crimes em andamento contra a humanidade, crimes de guerra e genocídio em suas relações com Mianmar. Diante disso, não se pode prosseguir com os negócios como de costume”.