‘Miséria diária’ em áreas sitiadas da Síria é uma vergonha para todos, destaca coordenador da ONU

Falta de alimentos em algumas regiões forçou pessoas a comerem grama para sobreviver. Assistência humanitária conseguiu alcançar apenas 150 mil moradores de 11 das 18 áreas sitiadas. Habitantes de zonas sob cerco e de difícil acesso somam 4,6 milhões.

Criança aguarda a evacuação de Madaya enquanto se alimenta com um pão. Foto: UNICEF/UN07224/Al Saleh, PMA

Criança aguarda a evacuação de Madaya enquanto se alimenta com um pão. Foto: UNICEF/UN07224/Al Saleh, PMA

Na Síria, 4,6 milhões pessoas moram em zonas sitiadas ou de difícil acesso, onde a escassez de comida, medicamentos e outros recursos ameaça a vida da população. Apesar dos repetidos apelos da ONU e de parceiros, apenas 30% dos que vivem sob cerco receberam assistência em 2016. Comboios humanitários entregaram suprimentos para somente 150 mil sírios habitantes de 11 das 18 áreas interditadas.

A situação levou o coordenador humanitário das Nações Unidas, Stephen O’Brien, a alertar na quarta-feira (30) o Conselho de Segurança: “Verdade seja dita, nós estamos muito distantes do acesso (humanitário) duradouro, incondicional e desimpedido que é exigido das partes de acordo com o direito internacional e foi e é exigido por este organismo em suas resoluções”.

Embora tenha facilitado procedimentos administrativos para a liberação de organizações de assistência, o governo da Síria continuam a negar a entrada da ajuda humanitária a alguns locais, como Duma, Harasta Oriental e Darayya.

A falta de alimentos levou habitantes dessas regiões a comer grama. “A miséria diária nessas áreas envergonha a todos nós”, lamentou O’Brien, que lembrou ainda da escassez de água limpa, remédios, eletricidade e produtos básicos que afeta essas populações.

Zonas de difícil acesso também são motivo de preocupação. No norte rural de Homs, 200 mil pessoas precisam de suprimentos. Em Habarnafse e Huma, outras 15 mil passam necessidade. Sem possibilidade de sair desses territórios, moradores têm acesso cada vez menor a comida, cuidado médico e água.

O’Brien chamou atenção também para os quase 2 milhões de sírios vivendo em áreas controladas pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL). A ONU não tem quase nenhum acesso a esses cidadãos, que enfrentam violações generalizadas dos direitos humanos, segundo relatos cada vez mais numerosos.

Remédios e tratamento médico são apreendidos de comboios humanitários e não chegam às populações

Mesmo quando o acesso de organizações humanitárias é autorizado, comboios não chegam “intactos” aos seus destinos. Mais de 80 mil itens de material médico já foram apreendidos apenas em 2016. Os suprimentos variam entre tratamento para malnutrição infantil até remédios para impedir sangramentos após o nascimento de bebês.

O’Brien pediu a todas as partes do conflito e, especialmente, às autoridades sírias que permitam a entrega de materiais e equipamentos médicos. Se não houver assistência de saúde nas áreas sitiadas e de difícil acesso, “pessoas continuarão a morrer desnecessariamente”, afirmou.

O coordenador humanitário ressaltou ainda que todos os sírios estão sofrendo com a destruição de escolas e hospitais, os custos crescentes, a falta de serviços básicos e a desvalorização da moeda – o que torna o trabalho humanitário fundamental.

“Trata-se de fornecer ajuda emergencial e proteção para pessoas em necessidade extrema e em circunstâncias precárias, onde quer que estejam na Síria”, disse.