“Tenho direito de pedir ao mundo que fique do meu lado. Integrantes do ISIL me atacaram e mataram meus familiares em nossa casa. Eles mataram meu irmão e minha mãe, e me sequestraram junto com outras meninas. É o meu direito pedir justiça”, afirmou Nadia Murad, jovem ativista e yazidi, durante painel do Escritório de Direitos Humanos da ONU (ACNUDH).

Em dezembro do ano passado, Nadia Murad participou de uma sessão do Conselho de Segurança da ONU. Foto: ONU / Eskinder Bebe
“É tempo de acabar com a tragédia e de o mundo ver as nossas feridas”. A frase é da jovem Nadia Murad, uma integrante dos yazidis que participou no início de julho (5) de um painel do Escritório de Direitos Humanos da ONU sobre os crimes cometidos pelo Estado Islâmico do Iraque e Al-Sham (ISIL) contra essa população.
O encontro discutiu o relatório apresentado poucas semanas antes pela Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria — que afirmou que um genocídio desse povo estava em curso no país e também no Iraque por conta da ação de extremistas.
Integrantes do ISIL me atacaram e mataram
meus familiares em nossa casa.
Eles mataram meu irmão e minha mãe
e me sequestraram junto com outras meninas.
Murad foi uma das yazidis capturadas pelo Da’esh durante o massacre de Sinjar, que aconteceu em agosto de 2014 em território iraquiano. A jovem foi mantida refém por quatro meses antes de conseguir escapar para um acampamento de pessoas internamente deslocadas.
“Tenho direito de pedir ao mundo que fique do meu lado. Integrantes do ISIL me atacaram e mataram meus familiares em nossa casa. Eles mataram meu irmão e minha mãe, e me sequestraram junto com outras meninas. É o meu direito pedir justiça”, contou Murad.
Não é possível reconquistar
o coração das mães
que perderam 6 ou 7 filhos.
Só através da justiça, é possível fazer isso.
Após se salvar, a jovem resolveu se dedicar ao ativismo pelos direitos dos yazidis e, atualmente, viaja pelo mundo para relatar o sofrimento de seu povo.
“A maior necessidade da minha comunidade atualmente é a justiça. Não é possível reconquistar o coração das mães que perderam 6 ou 7 filhos. Só através da justiça, é possível fazer isso. Nós não precisamos de mais discursos, precisamos de justiça”, sublinhou Murad.

Refugiados yazidis no campo de refugiados de Nawrouz, na Síria, a cerca de 40 quilômetros da fronteira com o Iraque. Foto: UNICEF/Razan Rashidi
Para Jan Kizilhan, membro do painel de discussões e psicólogo alemão que conduz um programa terapêutico para tratar mulheres vítimas do Estado Islâmico, embora a justiça tenha algum benefício inicial para os sobreviventes, a verdadeira cura leva muito mais tempo.
“Falamos às vítimas que o trauma, mesmo que faça parte de suas vidas, não será a vida delas toda”, disse.
De acordo com Kizilhan, para curar os yazidis e outras vítimas a longo prazo, o trabalho realizado por especialistas em trauma, assim como uma educação sobre psicoterapia, são fundamentais no Iraque e na Síria.
Para o especialista, o que faz desse tipo de tratamento especialmente difícil é o fato de ele atravessar gerações.
”Para quebrar o ciclo de trauma e violência, a comunidade internacional deve oferecer educação em direitos humanos, apoiar as minorias politicamente e psicologicamente e incentivar o diálogo”, endossou o comissário Vitit Muntarbhorn.