Negociações são interrompidas e violência aumenta mais uma vez na Síria, diz relatório

Apesar de o acordo de cessar-fogo de fevereiro ter criado uma breve interrupção dos confrontos, houve um trágico aumento da violência contra civis na Síria, acabando com as esperanças de paz no país devastado pela guerra, disse um grupo de especialistas das Nações Unidas. “Os ataques implacáveis e cercos contra civis não mostram sinais de diminuir, dando às pessoas pouca esperança de uma paz duradoura no país”, disse o presidente da comissão independente internacional da ONU para a Síria, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.

Criança na frente de escola destruída após bombardeio na vila de Ainjara em Alepo, na Síria: Foto: UNICEF/Khalil Alshawi

Criança na frente de escola destruída após bombardeio na vila de Ainjara em Alepo, na Síria: Foto: UNICEF/Khalil Alshawi

Apesar de o acordo de cessar-fogo de fevereiro ter criado uma breve interrupção dos confrontos, houve um trágico aumento da violência contra civis na Síria, acabando com as esperanças de paz no país devastado pela guerra, disse um grupo de especialistas das Nações Unidas na terça-feira (6).

Em seu mais novo relatório, a comissão independente internacional da ONU para investigação na Síria detalhou ataques indiscriminados contra civis, bloqueios de ajuda humanitária e crimes cometidos por todas as partes no conflito, que deixaram sírios em estado de desespero.

“Os ataques implacáveis e cercos contra civis não mostram sinais de diminuir, dando às pessoas pouca esperança de uma paz duradoura no país”, disse o presidente da comissão, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, em comunicado de imprensa sobre o relatório. A comissão recebeu mandato do Conselho de Direitos Humanos da ONU para investigar e registrar todas as violações às leis internacionais na Síria desde março de 2011.

O relatório nota que a violência atingiu níveis sem precedentes em Alepo, segunda maior cidade do país, enquanto as partes brigam pelo controle da região leste, e o número de mortes subiu rapidamente enquanto civis não conseguem fugir dos ataques aéreos diários.

Enquanto alguns sofrem com os ataques, outros morrem devido à falta de serviços emergenciais, como consequência dos bombardeios das forças pró-governo que destruíram mais de 20 hospitais e clínicas da província de Alepo desde o início do ano, disse o relatório.

O documento registrou ainda a morte de equipes médicas e de primeiros-socorros nos ataques, agravando a situação já desesperadora antes da atual ofensiva.
“Os intensos ataques contra unidades médicas — incluindo maternidades, unidades pediátricas e de emergência — são um flagrante desrespeito à Carta da ONU e ao espírito das leis humanitárias internacionais”, disse Pinheiro.

Civis são mortos em ataques dos dois lados do conflito

O relatório observou que as hostilidades foram retomadas em áreas que haviam desfrutado de relativa paz pela primeira vez em cinco anos, assim como bombardeios aéreos, principalmente por forças pró-governo. O documento também citou bombardeios indiscriminados em bairros civis habitados, e a tomada de reféns por grupos armados contrários ao governo sírio. Ataques de ambos os lados mataram e mutilaram dezenas de civis, muitos deles crianças.

“Aproximadamente 600 mil civis de Damasco, Rif Damascus, Dayr Az-Zawr, Homs e Idlib continuam sofrendo com condições brutais criadas por ataques prolongados”, disse o documento.

O documento afirma que por todo o país, a fome causada pelos cercos continua a ser usada como tática de guerra com consequências devastadoras, e que em Darayya, cercada por forças governamentais há quase quatro anos, crianças e idosos morrem de fome, com sobreviventes comendo grama e bebendo água suja, um fenômeno também relatado em outras áreas isoladas.

“Desenvolvimentos recentes em Darayya, incluindo os deslocamentos forçados de população civil como parte de negociações políticas, são uma contravenção aos princípios da lei internacional”, disse o comissário Vitit Muntarbhorn.

A comissão disse acreditar que o conflito na Síria e as violações só serão encerrados com o retorno das partes à mesa de negociação. “É imperativo que as partes negociem para encerrar esse conflito, enquanto tenham em mente que qualquer acordo de paz precisa necessariamente oferecer justiça às vítimas”, disse a comissária Carla Del Ponte.