Mães de crianças que tiveram maridos sequestrados ou mortos pelo Boko Haram têm de lidar com trauma e sustentar família sozinhas. Deslocados forçados confessam mandar filhos às ruas para pedir dinheiro e comida.

Falmata, de 32 anos, descansa com a filha Mamagona no acampamento Kuya, nordeste da Nigéria. A menina de 16 meses sofre de desnutrição e está recebendo tratamento em uma pequena clínica dirigida pela organização não governamental Halima. Foto: ACNUR / Hélène Caux
Milhares de nigerianos que foram libertos pelo grupo extremista Boko Haram estão passando fome e buscam desesperadamente por meios de subsistência, alertou a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no início de outubro (7). Investidas militares do governo expulsaram terroristas de algumas grandes cidades da Nigéria no início de 2016, mas condições para o retorno dos deslocados pela violência são precárias.
Segundo informações de uma missão de avaliação enviada às áreas de crise, crianças têm ido às ruas para pedir comida e dinheiro ou embarcado em viagens arriscadas para campos nas redondezas onde têm a esperança de encontrar lenha para vender. Muitas pessoas ainda não encontraram um local seguro para dormir e alguns estão acampando em escolas em ruínas.
Mães, cujos maridos foram sequestrados ou desapareceram, cuidam sozinhas de até dez crianças, ao mesmo tempo em que empreendem esforços para gerar renda e sustentar a família. O medo de que os extremistas voltem a atacar é recorrente entre os retornados e justificada por ataques recentes.
O Boko Haram atacou minha aldeia
há seis semanas. Eles roubaram
todos os nossos pertences e comida.
“O Boko Haram atacou minha aldeia há seis semanas. Eles roubaram todos os nossos pertences e comida”, diz Falmata*, uma mãe de 32 anos que agora vive na municipalidade de Monguno, entre a população de nigerianos forçados a abandonar seus lares.
O marido da moça desapareceu em meio à onda de hostilidades e ela fugiu com seu bebê e sua filha de cinco anos de idade para Kuya, um acampamento improvisado. Mamagona, sua filha de 16 meses de vida, estava tão desnutrida que precisou receber tratamento médico em uma clínica da região.
Mais de 60 mil pessoas deslocadas estão vivendo em nove acampamentos temporários na cidade e mais pessoas chegam a cada semana à medida em que operações militares mais ao norte do país continuam reconquistar territórios tomados pelos extremistas.

Colaboradora do ACNUR toma notas durante conversa com deslocada interna no acampamento de Kuya, em Monguno, Nigéria. Foto: ACNUR / Hélène Caux
“A maioria das pessoas da minha aldeia fugiu e está neste campo comigo, conta Falmata. “Aqui não há comida o suficiente e eu não tenho milho o bastante para dar a ela, mas não quero voltar para minha aldeia, pois é muito perigoso com o Boko Haram na área.”
Outra mãe, Jabba, também relata não conseguir alimentar a família. “Estou mandando meus filhos, incluindo o mais novo que tem oito anos, para as ruas para pedir dinheiro e comprar comida”, afirma.
Equipes do ACNUR notaram que há muitas mulheres amamentando em Kuya, incluindo adolescentes e meninas com crianças. O organismo internacional considera urgente a implementação de projetos de subsistência para ajudar essas mães a conseguir recursos e evitar que elas recorram à prostituição.
Autoridades nigerianas e algumas agências humanitárias organizaram distribuições limitadas de alimentos. Em Borno, a insegurança contínua ainda é um obstáculo à entrega e livre movimentação de organizações. Para o ACNUR, a assistência deve ser ampliada e tornada regular. Em parceria com o governo regional, o organismo das Nações Unidas busca novos locais onde deslocados possam receber alimentos.
Operações para fornecer materiais domésticos básicos — como utensílios de cozinha, colchões, mosquiteiros, galões, itens de higiene feminina, sabão e detergente — já estão sendo planejadas.
A agência da ONU alerta ainda que mulheres cujos maridos foram mortos ou sequestrados pelo Boko Haram continuam traumatizadas. Elas e seus filhos precisam de aconselhamento e ajuda para recomeçar suas vidas — o que inclui oportunidades de geração de renda.