Um relatório da ONU divulgado nesta semana (17) aponta que os números de civis mortos ou feridos no conflito do Afeganistão continuam aterrorizantes por conta do aumento de ataques suicidas realizados por forças opositoras ao governo. Cerca de 40% das fatalidades ocorridas nos primeiros 6 meses de 2017 foram causadas pelos grupos opositores.
Dados da ONU mostram que, desde 2009, mais de 26,5 mil civis foram mortos e pouco menos de 49 mil foram feridos no conflito.

Rua movimentada de Cabul, a capital do Afeganistão. Foto: UNAMA/Fardin
O número de civis mortos ou feridos no conflito no Afeganistão nos primeiros meses de 2017 permanece tão alto quanto os números registrados no mesmo período de 2016, de acordo com um relatório semestral das Nações Unidas publicado nesta semana (17).
Danos extremos a civis continuam ocorrendo em meio a um aumento nos números de ataques suicidas, apresentando um impacto ainda mais forte para mulheres e crianças.
Um total de 1.662 civis foram declarados mortos entre 1 de janeiro e 30 de junho – um aumento de 2% em relação ao ano passado, de acordo com índices da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA). O número de civis feridos no mesmo período sofreu uma redução de 1%, caindo para 3.581.
Os relatórios destacam que 40% das fatalidades civis ocorridas nesse período de 6 meses foram causadas por forças de oposição ao governo, principalmente pelo emprego de dispositivos explosivos improvisados (IEDs, na sigla em inglês) – como bombas suicidas e bombas de placa de pressão. No total, esse tipo de armamento deixou 596 civis mortos e 1.483 feridos.
As estatísticas incluem fatalidades civis causadas por ataques suicidas e ataques “complexos” – efetuados por mais de um autor e com o uso de dois ou mais armamentos, incluindo IEDs –, que deixaram 259 civis mortos e 892 feridos – um aumento de 15% em relação aos números registrados no mesmo período de 2016.
Muitas dessas fatalidades ocorreram em um mesmo ataque na cidade de Cabul, no dia 31 de maio deste ano. A explosão de um caminhão-bomba deixou 92 civis mortos e aproximadamente 500 feridos, o ataque mais fatal registrado pela UNAMA desde 2001.
“O custo humano desta guerra terrível no Afeganistão – perdas de vida, destruição e sofrimento imensurável – é alto demais”, declarou o representante especial do secretário-geral para o Afeganistão e chefe da UNAMA, Tadamichi Yamamoto.
“O uso recorrente, indiscriminado e desproporcional de dispositivos explosivos improvisados por forças opositoras ao governo é particularmente horrorizante e deve ser extinto.”
O relatório faz uma série de recomendações, que incluem o apelo aos grupos opositores para que interrompam os ataques a civis, além de reforçar as orientações das lideranças do Talibã pelo fim de tais ataques.
O documento pede que as forças do governo parem os ataques com armamentos como morteiros e foguetes em áreas densamente povoadas por civis, pedindo também que sejam dissolvidas milícias pró-governo e grupos semelhantes. O relatório recomenda ainda que forças armadas internacionais continuem auxiliando no treinamento do exército nacional afegão.
O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Hussein, afirmou que as estatísticas do relatório, por mais aterrorizantes que sejam, nunca poderão transmitir a profundidade do sofrimento da população do Afeganistão. “Cada um dos números de fatalidade representa uma família despedaçada, trauma e sofrimento inimagináveis e a brutal violação dos direitos humanos”, destacou.
“Muitos afegãos estão sofrendo traumas psicológicos por terem perdido amigos e familiares, e estão vivendo aterrorizados sabendo os riscos que enfrentam cotidianamente. Muitos outros foram expulsos de suas próprias casas e sofreram danos duradouros a sua saúde, educação e fonte de renda. A tragédia nacional contínua do Afeganistão não pode ser negligenciada”, acrescentou Zeid.
Os dados mostram um aumento no número de mulheres e crianças mortas ou feridas, revertendo a queda registrada em 2016. Um total de 174 mulheres foram confirmadas mortas e 462 feridas, um aumento geral de ocorrências de 23% em relação ao mesmo período do ano passado.
As fatalidades infantis aumentaram em 1%, com 436 mortos e 1.141 feridos. No entanto, o número de mortos em geral aumentou 9%. A missão da ONU apontou que o emprego de bombas de placa de pressão e de ataques aéreos em áreas populadas por civis contribuiu significativamente para o aumento das fatalidades de mulheres e crianças.
Forças opositoras ao governo causaram a morte de 1.141 pessoas e o ferimento de 2.348 – registrando um aumento de 12% em relação aos primeiros seis meses do ano passado. Do número total de fatalidades, 43% foram atribuídas ao Talibã, 4% ao Estado Islâmico da Província de Khorasan (ISKP) e o restante a agressores não identificados.
O relatório parabeniza as forças de segurança afegãs pelos esforços de redução do número de fatalidades civis resultantes de enfrentamentos no solo, que representam a segunda maior causa de mortes e ferimentos.
Os índices mostram uma redução de 10% no número de fatalidades por enfrentamento no solo nos primeiros seis meses de 2017, com 432 mortes confirmadas e 1.375 feridos. A redução é atribuída à diminuição do emprego de morteiros e outros armamentos pesados pelas forças pró-governo.
A UNAMA atribuiu 327 mortes de civis e 618 feridos aos grupos pró-governo, uma redução de 21% em comparação com o ano passado. No entanto, foi registrado um aumento de 43% nas fatalidades durante o emprego de operações aéreas (95 mortos e 137 feridos).
Além disso, 19% das fatalidades ocorreram na capital, Cabul, como resultado de ataques suicidas e ataques complexos. Fatalidades civis aumentaram em 15 das 34 províncias do Afeganistão, principalmente devido ao aumento do número de ataques das forças opositoras. Os maiores índices de fatalidades ocorreram nas províncias de Cabul, Helmand, Kandahar, Nangarhar, Uruzgan, Faryab, Herat, Laghman, Kunduz e Farah.
O relatório da ONU inclui somente incidentes que foram confirmados por um processo minucioso de verificação. O processo rígido de documentação, que requer múltiplas etapas de confirmação em cada caso, mostra que os dados gerais provavelmente são conservativos.
Dados da ONU mostram que, desde 2009, mais de 26,5 mil civis foram mortos e pouco menos de 49 mil foram feridos no conflito.
O relatório completo está disponível em https://unama.unmissions.org/protection-of-civilians-reports.