Região de Luhansk, no leste da Ucrânia, foi palco de confrontos que deslocaram meio milhão de pessoas desde 2014. Atualmente, cerca de 150 mil ucranianos já retornaram ao local, mas continuam em situação de vulnerabilidade, sem dinheiro para reconstruir suas casas e se proteger do inverno. Direito à ajuda humanitária não está claramente definido para população de retornados, alerta ACNUR.

Leste da Ucrânia foi região mais afetada por conflitos. Foto: ACNUR / A. McConnell
No lesta da Ucrânia, os conflitos que começaram em 2014 forçaram meio milhão de pessoas de Luhansk a fugir para outras partes do país e também para outras nações. Dois anos após o inicio das hostilidades, estimativas indicam que cerca de 150 mil indivíduos retornaram para a região, mas continuam em situação de vulnerabilidade por não terem seu direito à ajuda humanitária claramente definido pelas autoridades.
É o caso de Andrei Lubyanoy. Aos 38 anos, ele ganha menos de 50 dólares por mês fazendo bicos. Com o dinheiro, tem de sustentar suas três filhas — Anya, de nove anos, Yana, de 11, e Rita, de 13.
As meninas quase perderam o pai no início dos confrontos. Combatentes armados suspeitaram que ele fosse um espião e atiraram em suas pernas durante um interrogatório, segundo o relato do ucraniano. “Não é grande coisa, elas cicatrizaram”, comenta. Enquanto trabalha, suas filhas se dividem entre os afazeres domésticos.
Em agosto de 2014, oficiais ocuparam por um curto período de tempo a desgastada casa de dois quartos de Lubyanoy na vila de Georgievka. Antes de sair, jogaram uma granada no porão.
Outros bombardeios durante os conflitos na aldeia danificaram o telhado, as paredes e as janelas. O pai das crianças diz que não tem coragem de entrar nem de reformar a sala de estar onde os militares ficaram. Ele e suas filhas dividem um pequeno quarto com dois beliches e um pequeno e antigo aparelho de televisão.
“Muitos retornaram por conta da impossibilidade de arcar financeiramente com o aluguel e com as despesas diárias em consequência da suspensão de suas pensões e benefícios”, explica o representante da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na Ucrânia, Pablo Mateu.
O organismo internacional pagou pela restauração do telhado e pelo isolamento das paredes antes do início das chuvas de outono e das tempestades de inverno, mesmo a família não sendo considerada nem refugiada nem deslocada interna.
A lista de necessidades do pai e das filhas, no entanto, ainda é longa. As roupas de frio das garotas estão pequenas e elas precisam de material e livros para a escola. Sua mãe partiu com refugiados e não pode ser rastreada.
Rita corre o risco de perder a visão em um dos olhos por conta de uma lesão na infância que permaneceu sem tratamento por anos. No entanto, como sua carteira de identidade foi destruída durante os conflitos, ela não pode deixar Luhansk, mesmo se uma clínica estivesse disposta a tratá-la gratuitamente.
Questionadas se precisavam de brinquedos — elas têm um desgastado ursinho de pelúcia e outros bonecos antigos —, Yana respondeu: “Nós não precisamos deles. Somos crescidas”.
Adultos mais velhos em Luhansk dizem sobreviver com salários ou pensões muito baixos. Não sobram recursos para reparar suas casas.
“Nós não vivemos, nós sobrevivemos”, disse Olga Bondarenko, de 48 anos, em sua pequena casa da aldeia de Khryaschevatoe, que foi danificada durante os embates militares de 2014.
O ACNUR também ajudou no reparo do telhado de sua casa, mas um dos três quartos está muito destruído para ser habitado. Seu salário mensal de 2,4 mil rublos — cerca de 37 dólares — é insuficiente para comprar materiais de construção.
“Com o inverno se aproximando, vemos a necessidade de intensificar o apoio aos que retornam e aos que vivem em aldeias próximas à fronteira”, ressaltou Mateu. O representante da agência da ONU afirma que, de ambos os lados, ucranianos demonstram uma enorme resiliência e determinação em reconstruir suas casas e suas vidas.
Aqueles que escolheram ficar em Luhansk ou que voltaram depois de fugir para outros locais da Ucrânia ou para a Rússia dizem que, apesar das dificuldades, este é o lugar ao qual pertencem.