“O grande desafio é que alguns dos recursos essenciais para sustentar a vida em nosso planeta estão em crescente risco”, afirma o Representante da Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO) no Brasil, Hélder Muteia.
Por Hélder Muteia, Representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no Brasil.

O mundo chegou a um ponto crítico. O boom demográfico expõe essa realidade. Hoje somos sete bilhões de habitantes. Em 2050, essa superpopulação pode chegar a nove bilhões – o que certamente aumentará a responsabilidade em garantir uma segurança alimentar de qualidade. Mas o grande desafio é que alguns dos recursos essenciais para sustentar a vida em nosso planeta estão em crescente risco. A água, por exemplo, já está escassa e contaminada. O ar que respiramos cada vez mais poluído e com excesso de gases estufa, particularmente o dióxido de carbono. As florestas estão sendo decapitadas, os solos aráveis degradados e a fauna dizimada.
Sabemos que cerca de 925 milhões de pessoas passam fome no mundo. Uma em cada sete não tem o que comer ou não se alimenta adequadamente. São aproximadamente um bilhão de pessoas condenadas à morte ou a uma vida sofrida, em condições subumanas. A alimentação é um direito fundamental de todo ser humano; uma precondição. Sem uma nutrição adequada, a população não tem saúde, e suas potencialidades físicas e intelectuais ficam comprometidas.
Todas estas reflexões nos obrigam a uma parada para repensarmos os modelos de desenvolvimento que temos seguido até agora. Levantamentos científicos e projeções indicam que o nível predatório do atual estilo de vida não é sustentável, do ponto de vista social, econômico e ecológico. A sustentabilidade econômica garante um ciclo produtivo com ganhos em longo prazo; a social garante padrões de dignidade e sociabilidade condizentes com a condição humana; já a ambiental garante o direito à vida como um patrimônio partilhado por todos os seres vivos no presente e no futuro. Qualquer uma destas áreas do desenvolvimento sustentável deve atingir um nível aceitável para que o resultado final seja positivo.
A “economia verde” corresponde a esse desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental) e constitui uma visão mais global, colocando na mesma equação a necessidade de produzir bens e serviços, a necessidade de preservar a base de recursos naturais, e a necessidade de garantir dignidade da pessoa humana. Um tripé que se relaciona numa base de equilíbrio, responsabilização mútua, suporte mútuo, e suporte do conteúdo global. O mais importante é que dela se resulte a melhoria do bem estar, na promoção da igualdade social e convivência sã com a natureza e o ambiente.
A agricultura é um multiplicador de vida vegetal e animal. Utiliza e gerencia 60% dos recursos atualmente empregados pela humanidade: terra, água, fauna, flora, minerais etc. Está interligada aos recursos naturais. Por ter esse privilégio, tem ainda, o forte compromisso de preservar o ecossistema.
Além dos serviços ambientais, a agricultura presta serviços sociais e econômicos, entre os quais a geração de emprego. Estima-se que um bilhão de pessoas trabalham no setor agrário, garantindo subsistência para cerca de 2.6 bilhões de pessoas.
Durante a Rio+20, a FAO e seus parceiros internacionais promoverão uma série de debates sobre como materializar esse ideal de tornar a economia mais verde através da agricultura. Essa clara percepção de que a Economia verde precisa da agricultura, e que a agricultura precisa da economia verde, norteará os debates. A plataforma de debates é chamada de GEA (Greening the Economy with Agriculture) em português EEA (Esverdeando a Economia através da Agricultura).
O conceito é novo, dinâmico, apaixonante e, essencialmente, necessário. Longe de ser um modelo acabado e rígido, ele é inclusivo, maleável, receptivo à criatividade e diversidade. Ela se inspira na ciência, pesquisa e experiências exitosas. A ciência e tecnologia devem ser postas a serviço da agricultura, fauna, flora e seus atores. Para cada contexto as soluções devem ser especificas, mas sintonizadas com o objetivo maior que é a sustentabilidade global.
É importante recordar que a garantia de um bom nível de segurança alimentar é essencial para a economia verde. A fome e a miséria encorajam práticas e hábitos desesperados e predadores para o meio ambiente.
Para além do princípio da sustentabilidade (integridade ambiental, robustez econômica, bem estar social e boa governança), o conceito de “Esverdeando a Economia através da Agricultura” sugere um tratamento equilibrado dos três elementos da segurança alimentar: a disponibilidade, função da produção e do comportamento; o acesso, que defende a renda e os mercados; e a utilização, condicionada pelo conhecimento sobre o valor nutritivo dos alimentos.