ONU: 145 mil refugiadas sírias são chefes de família e lutam para sobreviver

Obrigadas a se responsabilizar por suas famílias após o sequestro, morte ou desaparecimento de seus maridos, 25% dessas mulheres enfrentam a pobreza, o isolamento e o medo, mostra novo relatório do ACNUR.

Lina cuida sozinha dos seus sete filhos numa tenda improvisada no Líbano. Ela fugiu da Síria há dois anos quando os combates chegaram ao seu vilarejo. Seu marido voltou no ano passado ao país para ver como se encontrava sua casa e não voltou a ser visto até hoje. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

Lina cuida sozinha dos seus sete filhos numa tenda improvisada no Líbano. Ela fugiu da Síria há dois anos quando os combates chegaram ao seu vilarejo. Seu marido voltou no ano passado ao país para ver como se encontrava sua casa e não voltou a ser visto até hoje. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

Nos últimos três anos, 2,8 milhões de sírios já foram registrados como refugiados, representando a maior crise de deslocamento forçado do planeta. As mulheres e as crianças representam a maioria dos refugiados, totalizando 80% desta população. Mais de 145 mil famílias vivendo no Egito, Líbano, Iraque e Jordânia são chefiadas por mulheres, que enfrentam sozinhas as dificuldades de encontrar meios de sobrevivência para elas próprias e seus filhos.

Com base em entrevistas realizadas com 135 refugiadas sírias, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) divulgou nesta terça-feira (8) o relatório “Mulher Sozinha – a Luta pela Sobrevivência das Refugiadas Sírias” (ou “Woman Alone – the Fight for Survival by Syrian Refugee Women”), que demonstra que essas mulheres batalham diariamente para manter sua dignidade e cuidar de suas famílias em residências degradas e superlotadas, e também em abrigos e tendas improvisadas e inseguras.

Muitas foram obrigadas a se responsabilizarem por suas famílias após o sequestro, morte ou desaparecimento de seus maridos desde o início do conflito na Síria em março de 2011. Sem possibilidade de obter recursos financeiros, a maioria delas luta para pagar aluguel, pôr comida na mesa e comprar itens básicos para suas casas.

Apenas 20% têm trabalho fixo, muitas já gastaram todas as suas economias e um terço das mulheres entrevistadas afirmam já não ter dinheiro suficiente para comer. O ACNUR e outras agências humanitárias contribuem com dinheiro para a sobrevivência de 25% dessas mulheres e dois terços delas afirmaram ser totalmente dependentes desta assistência.

Ameaças de violência ou exploração também formam parte do seu novo cotidiano e, tanto elas, como seus filhos, enfrentam uma carga crescente de angústia e trauma. Muitas mulheres reclamaram sofrer agressões verbais regulares feitas nos transportes públicos, proprietários de imóveis, prestadores de serviços e até mesmo em postos de ajuda.

“Uma mulher sozinha no Egito é uma presa para todos os homens,” conta Diala, uma refugiada síria que vive em Alexandria, no Egito. Na Jordânia, a refugiada síria Zahwa relata que ela foi assediada até mesmo por refugiados enquanto coletava cupons de distribuição de comida. “Eu estava vivendo com dignidade, mas agora ninguém me respeita porque eu não tenho um homem ao meu lado”, afirma Zahwa.

Devido a esta situação, o ACNUR está solicitando uma nova ação urgente por parte dos doadores, dos países que abrigam estas refugiadas e de outras agências humanitárias. “Para centenas de milhares de mulheres, escapar de sua terra natal arruinada pela guerra foi apenas o primeiro passo de uma jornada de enormes dificuldades”, afirmou o Alto Comissário da ONU para Refugiados, António Guterres. “Elas estão sem dinheiro, enfrentam perigos diários e vêm sendo tratadas como párias pelo simples fato de terem perdido seus homens para uma guerra perversa. Isso é vergonhoso. Elas estão sendo humilhadas por terem perdido tudo”, completou o Alto Comissário.

O atual plano de resposta aos refugiados sírios coordenado pelo ACNUR – e que envolve diversas outras agências das Nações Unidas e outras organizações humanitárias – tem um orçamento de aproximadamente US$ 4,2 bilhões, sendo que apenas 27% deste total foi arrecadado até agora.

“Mulheres sírias refugiadas são o elemento de ligação de uma sociedade destruída pela guerra. Sua força é extraordinária, mas elas estão lutando sozinhas. Suas vozes são um apelo por ajuda e proteção que não podem ser ignoradas”, declarou a enviada especial do ACNUR, Angelina Jolie.

Com vistos ou outras restrições separando uma em cada cinco mulheres sírias refugiadas de seus maridos ou famílias, o relatório também pede aos governos de acolhida que encontrem soluções para facilitar a reunificação familiar delas.

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