Cerca de 1,6 milhão de pessoas, mais de um terço da população do país, precisam de assistência alimentar para sobreviver e aproximadamente 2,5 milhões precisam de assistência humanitária urgente.

Crianças se abrigam em instalação católica em Bangui para fugir da violência na RCA. Foto: ACNUR/S.Phelps
Agricultores na República Centro- Africana (RCA) precisam urgentemente de sementes e ferramentas essenciais para a época de plantio, em março, para que possam ajudar a evitar uma crise alimentar e nutricional em larga escala no país. O alerta da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) foi emitido nesta quarta-feira (12), destacando que cerca de 1,6 milhão de pessoas, mais de um terço da população, precisam de assistência alimentar para sobreviver.
“O conflito civil está colocando milhões [de pessoas] em risco de uma crise de segurança alimentar e nutricional em grande escala”, disse o representante da FAO na RCA, Alexis Bonte. “A situação é cada vez mais preocupante na capital, Bangui, mas é ainda mais crítica no resto do país.”
A FAO já mobilizou fundos para fornecer sementes e ferramentas para 40 mil das 150 mil famílias de agricultores que estão dentro do Plano Conjunto Estratégico de Resposta Revisado, publicado por agências da ONU e organizações não governamentais no mês passado. No entanto, a agência ainda precisa de 37 milhões de dólares para apoiar as outras 110 mil famílias e ajudar a proteger e reconstruir a subsistência da agricultura familiar ao longo de 2014. No total, cerca de 2,5 milhões de pessoas na RCA precisam de assistência humanitária imediata.
Um Boeing 747 de carga, fretado pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) pousou em Bangui com 82 mil toneladas de arroz. No total, 1,8 mil toneladas de cereais – o suficiente para alimentar 150 mil pessoas por um mês – devem chegar por via aérea em aproximadamente 25 voos nas próximas quatro semanas.
O PMA recebeu apenas 27% dos cerca de 107 milhões de dólares necessários para ajudar 1,25 milhão de pessoas na RCA até agosto. Um novo financiamento urgente é necessário para que pessoas deslocadas recebam alimentos imediatamente e para que reservas de alimentos possam ser preposicionadas antes do início da temporada de chuvas, em maio, quando estradas ficarão alagadas e intransitáveis.
“Com o ciclo de violência contínuo e a economia interrompida, a RCA enfrenta uma crise de nutrição e alimentos ainda pior”, disse a diretora regional do PMA para a África Ocidental, Denise Brown, acrescentando que “não é apenas a quantidade de financiamento, mas o momento das contribuições que é fundamental se quisermos evitar uma crise de nutrição devastadora durante o período de escassez e chuvas”. E alertou: “Precisamos de mais contribuições agora, caso contrário um número muito maior de pessoas vai passar fome.”
Violência intercomunitária assusta população local
A violência intercomunitária e os assassinatos nas últimas semanas por grupos rivais – o Séleka predominantemente muçulmano e o Anti-Balaka, majoritariamente cristão – forçaram famílias a fugir de suas casas em Bossangoa, noroeste da República Centro-Africana. Zenabou e seus sete filhos fazem parte das 225 famílias muçulmanas que buscaram abrigo na “Escola Liberdade”, que fica na cidade.
O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) está altamente alarmado com a deterioração da situação humanitária na RCA e preocupado com o bem-estar dos deslocados em Bossangoa. “Estamos aqui para ouvir, para testemunhar e agir através da defesa de soluções”, disse o funcionário da Agência Jean Maturim.
Não é possível identificar o medo de Zenabou em seus discursos inspiradores na Escola Liberdade, mas ela confessa ao ACNUR, após uma reunião, que se sente encurralada. “Porque vocês [ACNUR] estão aqui, esses bandidos não ousarão nos matar.”
Zenabou está apavorada com o que está acontecendo na cidade onde ela passou a maior parte de sua vida. Os ataques de homens armados contra civis por causa de suas religiões é o que mais a assusta. “Bossangoa sempre foi uma cidade onde muçulmanos e cristãos viveram juntos. Ela deve permanecer assim”, enfatiza Zenabou, acrescentando que, se a violência continuar, “a cidade arrisca perder a sua identidade, a sua alma”.