Equipe de direitos humanos que está no país tem documentado assassinatos, violência sexual, detenções arbitrárias, ataques a hospitais, destruição de propriedades e ataques a indivíduos com base em sua religião.

Pessoas internamente deslocadas na República Centro-Africana pelos conflitos. Foto: ACNUR / H. Caux
A chefe da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, advertiu na sexta-feira (20) que a situação na República Centro-Africana (RCA) continua a ser altamente volátil, com violência contínua, intimidação e um vácuo de governança.
O envolvimento relatado de elementos armados de países vizinhos aumenta o risco de uma crise que, se não for controlada, pode tornar-se perigosamente de difícil controle, ela advertiu.
Uma equipe de monitoramento da ONU na República Centro-Africana foi documentar violações dos direitos humanos cometidas nos últimos meses, incluindo assassinatos, violência sexual, detenções arbitrárias, ataques a hospitais, destruição de propriedade e ataques a indivíduos com base em sua religião. A equipe também recebeu relatos de violações contínuas, tanto por parte de grupos anti-Balaka quanto pelas forças ex-Séléka em várias partes do país.
“Em Bangui, os indivíduos que fugiram de suas casas não querem voltar por medo de ataques iminentes por grupos anti-Balaka que, segundo relatos, parecem ser cada vez mais bem armados e organizados”, disse Pillay, alta comissária da ONU para os Direitos Humanos.
“No oeste do país, em Bouar, nossa equipe presenciou tentativas claras para fomentar o medo e a desconfiança entre as comunidades religiosas, e relatou o envolvimento de elementos armados de países vizinhos. Também recebemos relatos de que as forças ex-Séléka distribuíram armas para a população civil muçulmana”, disse ela.
“Estes acontecimentos são extremamente preocupantes e devem soar um alarme em todo o mundo por esforços contínuos e urgentes a serem tomados para evitar que a República Centro-Africana mergulhe em um desastre.”
Bouar foi o local de um massacre de civis pelas forças ex-Séléka em 26 de outubro de 2013, resultando em pelo menos 18 mortos e vários feridos. Desde então, tem havido uma série de relatórios de represálias por parte de grupos anti-Balaka.
A equipe de Direitos Humanos da ONU também recebeu relatos de ataques, represálias e contra- represálias em Bohong, a 75 km de Bouar, resultando em várias mortes. Nos últimos 10 dias, pelo menos 12 muçulmanos foram supostamente linchados em Bangui.
A equipe está investigando relatos de ataques em curso e abusos na Boganangone, a 210 quilômetros a oeste de Bangui, por um coronel ex-Séléka. A equipe está atualmente visitando Bossangoa, a 400 quilômetros a noroeste de Bangui.
Pillay advertiu que as diferenças religiosas estavam sendo manipuladas por líderes políticos, com consequências fatais.
“Muitas vezes na história, temos visto a manipulação política das diferenças religiosas e étnicas resultam em violações terríveis e danos a longo prazo para o tecido social de um país”, advertiu Pillay. “Exorto os líderes a nível nacional e local na RCA a parar de alimentar a violência com base na religião.”
A alta comissária destacou os esforços louváveis do arcebispo da RCA, pastor Nicolas Guerékoyamé, e o imã Omar Kobina Layama, na divulgação de mensagens de paz entre as comunidades.
“Temos visto jovens muçulmanos assumindo a responsabilidade de proteger as igrejas, e as igrejas estão servindo como refúgios para as pessoas deslocadas internamente, independentemente das suas origens religiosas. Tais acontecimentos são extremamente encorajadores e apelo a todos os líderes religiosos e comunitários de redobrar os seus esforços para garantir que comunidades inteiras não sejam difamadas em um ciclo perigoso de violência e represálias que temos visto.”
Os líderes cristãos e muçulmanos em outras cidades, incluindo Bouar, também realizaram reuniões conjuntas e estão trabalhando juntos para espalhar mensagens de tolerância para a população civil.
A alta comissária também pediu que todos os lados se unam e resolvam a situação no país através do diálogo. “A única maneira de evitar o sofrimento em grande escala no país é todos os lados renunciarem à violência e avançarem através do diálogo construtivo”, disse Pillay.
“A comunidade internacional também precisa priorizar o desarmamento de todos os lados e a responsabilização dos autores de violações graves dos direitos humanos. A criação de uma Comissão de Inquérito deve enviar uma mensagem forte aos autores de violações de que a comunidade internacional está empenhada em responsabilizá-los.”