O relatório Situação e Perspectivas Econômicas Mundiais 2019 da ONU aponta que o novo governo do Brasil enfrenta fortes pressões para consolidar as finanças públicas, incluindo por meio de uma reforma abrangente do sistema de pensões.
Segundo a pesquisa, a economia em nível global deve manter um índice de crescimento a 3% em 2019 e 2020, mas o desempenho positivo poderá ser afetado por riscos associados às tensões comerciais entre os países, dívidas domésticas, mudanças climáticas e falta de apoio à cooperação internacional.

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A economia global deve manter um índice de crescimento a 3% em 2019 e 2020, bem próximo do estimado para o ano passado (3,1%), mas o desempenho positivo poderá ser afetado por riscos associados às tensões comerciais entre os países, dívidas domésticas, mudanças climáticas e falta de apoio à cooperação internacional. Os números e o alerta são do relatório Situação e Perspectivas Econômicas Mundiais 2019, divulgado na segunda-feira (21) pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA).
A pesquisa estima que o Brasil terá crescimento de 2,1% em 2019 e 2,5% em 2020, acima do 1,4% calculado para o ano passado. Em 2018, o avanço da recuperação da recessão no biênio 2015-2016, já verificado em 2017, sofreu uma desaceleração devido à greve dos caminhoneiros, ao dólar mais forte e a outros fatores externos, como o aumento dos prêmios de risco.
A análise aponta que o novo governo do país enfrenta fortes pressões para consolidar as finanças públicas, incluindo por meio de uma reforma abrangente do sistema de pensões. Segundo o relatório, estima-se que, em 2018, o déficit público aumentou e chegou a um valor em torno de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Já a dívida bruta do governo subiu para 88% do PIB.
Apesar das perspectivas de expansão para os próximos dois anos, a economia brasileira enfrentará novos obstáculos. As crescentes taxas de juros no nível global, combinadas a pressões inflacionárias, deverão levar a políticas de aperto monetário e aumento dos juros pelo Banco Central, de acordo com a previsão do relatório. Somam-se a isso as necessidades urgentes de um ajuste fiscal, o que deve manter o crescimento num ritmo modesto.
A publicação da ONU prevê inflação de 4,1% em 2019 — em 2018, o relatório estima que a alta dos preços para o consumidor ficou em 3,7%.
No médio prazo, o relatório afirma que a baixa taxa de poupança e um déficit generalizado de capacitação na força de trabalho vão restringir o avanço do país.
A análise contextualiza o cenário do Brasil em comparação com outros grandes exportadores de commodities, como a Rússia e a Nigéria. Essas nações têm projeções de melhora moderada para o biênio 2019-2020, apesar de um patamar baixo. Na avaliação do documento, as perspectivas para os exportadores de commodities permanecem incertas devido a diferentes fatores, como os preços altamente voláteis das mercadorias — um exemplo foi a queda aguda do preço do petróleo no quarto trimestre de 2018.
Outro problema é o legado da crise das commodities em 2014-2015, que deixou níveis elevados de dívida e levou ao esgotamento de amortecedores fiscais, restringindo severamente o espaço para políticas.
América Latina e Caribe
Os desafios brasileiros também acompanham tendências observadas na América Latina e Caribe, cuja economia deverá crescer em média 1,7% em 2019 e 2,3% em 2020. A política monetária acomodativa de 2018, adotada em muitos países da região, fez com que a inflação ficasse dentro das metas dos bancos centrais, mas a previsão em 2019 é de aperto para as moedas de nações como Chile, Colômbia, República Dominicana e Peru. O relatório prevê um aumento das taxas de juros nesses países.
A ONU também aponta que, na região, o déficit fiscal primário ultrapassou com frequência um nível capaz de estabilizar as dívidas de alguns países latino-americanos e caribenhos. A proporção entre a dívida do governo e o PIB é alta em muitos Estados, especialmente na América do Sul — Argentina, Brasil e Uruguai — e no Caribe — Barbados e Jamaica.
A consolidação fiscal para os próximos dois anos receberá pressões adicionais das crescentes taxas de juros globais, da volatilidade dos fluxos de capitais e do dólar forte. Com o aumento das taxas de juros também nos Estados Unidos, a América Latina e o Caribe terão provavelmente de lidar com pressões associadas a fugas de capitais. Segundo o relatório, um dos desafios das autoridades monetárias da região é manter a estabilidade financeira doméstica em meio a um cenário mundial difícil, ao mesmo tempo em que as instituições apoiam a contínua recuperação das economias nacionais.
Para a Argentina, as Nações Unidas preveem que a política fiscal deverá permanecer fortemente contracionista em 2019-2020, com grandes cortes de gastos e aumentos de impostos para eliminar o déficit primário já no primeiro ano do biênio.
Economia global
De acordo com o economista-chefe da ONU, Elliott Harris, os 3% de crescimento da economia mundial mascaram um progresso desigual dentro dos países. Em muitas nações em desenvolvimento, como Argentina, Equador, Venezuela, Irã, África do Sul, Namíbia e Angola, houve declínio ou estagnação do PIB per capita em 2018.
“Novas quedas ou um fraco crescimento (do PIB) per capita são esperados em 2019 no sul, centro e oeste da África, no oeste da Ásia, na América Latina e Caribe, os lares de quase um quarto da população global que vive na pobreza extrema”, afirmou Harris em entrevista à ONU News.
O relatório mostra que, mesmo em países emergentes onde o PIB per capita avança, o fenômeno é impulsionado por regiões industriais e urbanas, com as zonas rurais sendo deixadas para trás. A análise recomenda medidas para diminuir as desigualdades salariais, a fim de cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS) nº 1, que prevê a erradicação da pobreza até 2030.
Os Estados Unidos devem ver o PIB aumentar 2,5% em 2019 e 2% em 2020, números inferiores aos 2,8% de 2018. Já na China, o crescimento deve cair dos 6,6% estimados para 2018 para 6,3% em 2019 e 6,2% em 2020, com políticas compensando parcialmente o impacto negativo de tensões comerciais. A União Europeia tem sua expansão econômica estimada em 2% para cada ano do biênio, índice puxado para baixo devido a eventuais impactos negativos associados ao Brexit.
Riscos
Em pronunciamento sobre o relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que “embora os indicadores econômicos permaneçam amplamente favoráveis, eles não contam toda a história”. O dirigente aponta que o documento levanta preocupações com a sustentabilidade do crescimento econômico global diante de novos desafios financeiros, sociais e ambientais.
Entre os riscos capazes de desestabilizar a economia mundial, estão o enfraquecimento do apoio a abordagens multilaterais, a escalada de disputas comerciais, a instabilidade fiscal associada a níveis elevados de dívida e os crescentes riscos climáticos, uma vez que o mundo tem testemunhando um número cada vez maior de eventos climáticos extremos.
A pesquisa aponta que tensões comerciais já levaram a uma queda no volume do comércio global — de 5,3% em 2017 para 3,8% em 2018. Devido à incerteza na relação entre China e EUA, a expectativa da ONU é de que os volumes de trocas serão menores em 2019. Os subsídios dos governos suavizaram o impacto da elevação das tarifas nos dois países, mas há o risco de que nações em desenvolvimento também sofram com o impasse.
“Se a disputa comercial se tornar mais generalizada, nós provavelmente veremos rupturas na cadeia global de valor”, disse Harris.
“Tenha em mente que a participação no comércio global foi um dos meios pelos quais os países em desenvolvimento participaram da crescente prosperidade global e aceleraram seu próprio desenvolvimento. Logo, qualquer coisa que interrompa isso vai, é claro, ter um impacto negativo nas suas habilidades de aumentar seus níveis de prosperidade e se desenvolver sustentavelmente.”
Em 2018, os Estados Unidos contribuíram mais com o comércio global do que o Japão ou a União Europeia, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
Acesse o relatório na íntegra clicando aqui.