Foguete lançado a partir da Gaza seria resposta à morte de Arafat Jaradat durante interrogatório em Israel. Relator Especial pede investigação internacional sobre o caso. Autópsia identificou sinais de tortura no homem que estava saudável antes da prisão.

Funcionários das Nações Unidas manifestaram preocupação nesta terça-feira (26) após um foguete disparado da Faixa de Gaza ter atingido o sul de Israel, violando o cessar-fogo alcançado em novembro passado. A ONU pediu que sejam retomadas urgentemente as negociações destinadas a romper o impasse no processo de paz no Oriente Médio.
O foguete, que caiu em Ashkelon, teria causado alguns danos, mas não houve feridos. Esta é a primeira vez desde 21 de novembro que ocorreu uma quebra do acordo de cessar-fogo mediado pelo Egito. Na época, a ação diplomática pôs fim a oito dias de violência em Gaza e Israel.
Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Robert Serry, afirmou estar “profundamente preocupado” com a retomada indiscriminada do lançamento de foguetes a partir de Gaza, o que considerou “totalmente inaceitável”.
Os acontecimentos de hoje, de acordo com um comunicado emitido pelo escritório de Serry, apenas ressaltam a importância dos contínuos esforços egípcios para solidificar a trégua intermediada em novembro passado.

Em sua declaração ao Conselho de Segurança, o Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Políticos, Jeffrey Feltman, também ressaltou a natureza “preocupante” do incidente de hoje e sublinhou a necessidade de injetar vida nova no processo político destinado a chegar a uma solução de dois Estados.
“Nós sabemos que existem forças negativas em ambos os lados, como aqueles que dispararam foguetes hoje de Gaza para Israel”, afirmou, acrescentando que ambos os lados têm a responsabilidade de marginalizar essas forças, criando as condições – incluindo confiança –, para um processo de negociação bem sucedida.
“Como demonstrado hoje no preocupante ataque do foguete disparado de Gaza para Israel, a temperatura aumentou novamente entre israelenses e palestinos – com a situação dos prisioneiros palestinos sendo a mais imediata, mas não a única causa – e não há ainda processo de negociação para oferecer esperança no horizonte.”
ONU pede investigação independente sobre morte de prisioneiro palestino
A ONU continua a acompanhar a questão dos prisioneiros palestinos sob custódia israelense, tendo manifestado preocupação com a notícia da morte de Arafat Jaradat no sábado (23) em uma prisão israelense. Na segunda-feira (25), Serry pediu uma investigação independente e transparente sobre as circunstâncias da morte de Jaradat, que ocorreu apenas alguns dias depois de sua prisão.
Feltman descreveu como “uma evolução preocupante” que hoje cedo militantes de Gaza da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa tenham citado esta morte para reivindicar a responsabilidade pelo ataque de foguetes. A morte do prisioneiro também provocou uma série de manifestações e confrontos, resultando em 43 palestinos feridos pelas forças de segurança israelenses.
É um momento de “riscos elevados em múltiplas frentes” no Oriente Médio, destacou o Subsecretário-Geral, observando que a Síria continua a ser uma fonte de “preocupação extrema” para a ONU.
O conflito que já completa quase dois anos deixou mais de 4 milhões de pessoas necessitando de ajuda humanitária imediata, incluindo 2 milhões de deslocados internos, e levou mais de 900 mil pessoas a fugir para os países vizinhos, incluindo mais de 150 mil apenas este mês, afirmou.
“As oportunidades existem para reverter essas tendências, mas não se a comunidade internacional hesitar. Esforços intensificados por este Conselho e seus membros podem fazer uma diferença substancial, enquanto ainda há tempo para fazê-lo.”
Relator especial quer investigação internacional sobre morte de Jaradat

Nesta quarta-feira (27) o Relator Especial da ONU para direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, Richard Falk, pediu uma investigação internacional sobre a morte de Jaradat.
“A morte de um prisioneiro durante interrogatório é sempre um motivo de preocupação, mas, neste caso, quando Israel mostrou um padrão e prática de abuso de prisioneiros, a necessidade de uma investigação externa credível é mais urgente do que nunca”, destacou Falk.
“A melhor abordagem seria a criação de uma equipe internacional forense, sob os auspícios do Conselho de Direitos Humanos da ONU”, acrescentou o relator em um comunicado.
Falk apontou para a avaliação feita pelo patologista-chefe da Autoridade Nacional Palestina, Dr. Saber Aloul, que teve acesso à autópsia realizada dentro de Israel e observou claros sinais de tortura no corpo de Falk, que tinha 30 anos e estava saudável antes da prisão.
Autoridades israelenses reivindicado inicialmente que Jaradat havia morrido de um ataque cardíaco, mas os resultados preliminares da autópsia não incluíram uma causa de morte, observou o comunicado de imprensa.
“À luz das descobertas de Aloul de que não houve evidência de doença cardíaca ou danos, e que havia sinais de tortura no corpo de Jaradat, um inquérito internacional independente deve ser realizado”, declarou Falk.
De acordo com a organização de direitos humanos israelense B’tselem, mais de 700 prisioneiros palestinos apresentaram denúncias contra integrantes da agência de segurança israelense Shin Bet por maus-tratos durante o interrogatório ao longo da última década. No entanto, nenhum dos casos levou a uma investigação criminal.