O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Ismail Cheikh Ahmed, disse na terça-feira (29) que a formação de um novo governo no Iêmen representa “um obstáculo preocupante ao processo de paz da região” e não serve aos interesses do povo iemenita.

Distrito de Dar Sa’ad, Aden, no Iêmen. Foto: PMA/Ammar Bamatraf
O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Ismail Cheikh Ahmed, disse na terça-feira (29) que a formação de um novo governo no Iêmen representa “um obstáculo preocupante ao processo de paz da região” e não serve aos interesses do povo iemenita.
A decisão foi anunciada pelo Congresso Geral do Povo e pelos rebeldes houthis do movimento xiita Ansar Allah e, segundo o enviado da ONU, a proposta contradiz os compromissos feitos recentemente pelos dois lados do conflito iemenita às Nações Unidas e ao secretário de Estado americano, John Kerry.
“O Iêmen está em uma situação crítica, e as decisões tomadas pelo Ansar Allah e pelo Congresso Geral do Povo vão apenas complicar a busca de uma solução pacífica. As partes envolvidas na crise devem colocar os interesses da nação acima das ambições partidárias e devem adotar imediatamente medidas para acabar com as divisões políticas e para lidar com os desafios econômicos, humanitários e de segurança”, disse o enviado especial.
“Novos acordos políticos devem ser baseados somente nas negociações apoiadas pela ONU, e não por ações unilaterais de qualquer lado”, acrescentou.
Ahmed observou ainda que o plano I apresentado recentemente aos lados envolvidos no conflito oferece a oportunidade de tirar o “país da beira do precipício”. “Peço que os representantes do grupo Ansar Allah e do Congresso Geral do Povo repensem a estratégia e demonstrem apoio total ao processo de paz com ações concretas”, frisou.
De acordo com o enviado especial, o conflito só pode ter um fim através de um diálogo político civilizado.
“O povo do Iêmen tem sofrido por muito tempo e não há nenhuma razão para deixar esta guerra continuar. Todas as partes devem se comprometer e respeitar os termos e condições do cessar de hostilidades, que inclui uma parada completa de atividades militares em terra e no ar. Desse modo, o fluxo de assistência humanitária aumentará”, disse ele.
Agência da ONU alerta para situação de refugiados no Iêmen
O Chifre da África foi o ponto de origem de mais de 100 mil migrantes que chegaram de barco ao Iêmen este ano, apesar da rápida evolução do conflito e do agravamento das condições humanitárias no país, advertiu a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na terça-feira (29).
Segundo o ACNUR, o fato destaca a importância de “apoiar urgentemente os países de origem e de trânsito para desencorajar as tentativas de fazer a viagem” muitas vezes fatal.
Até meados de novembro, 105.971 pessoas — migrantes, refugiados e requerentes de asilo — fizeram a travessia principalmente pelo Golfo de Áden, sendo a maioria da Etiópia (88.667) e da Somália (7.293). Mais de 92,4 mil pessoas fizeram a viagem no ano passado.
A agência da ONU informou que as travessias colocam os envolvidos em situações de conflito, abuso e exploração ao chegar no Iêmen. O conflito prolongado e a insegurança facilitam a proliferação de redes de tráfico e de extorsão dos recém-chegados. Mulheres e crianças estão particularmente em risco de violência sexual e tráfico.
“Muitos são enganados ou mal informados sobre a gravidade do conflito no Iêmen ou a esperança de alcançar os Estados do Golfo. Eles fogem da pobreza, da perseguição e da insegurança em seus países”, disse o porta-voz da agência da ONU em coletiva de imprensa em Genebra.
“Para os recém-chegados que procuram proteção internacional, o acesso a sistemas de asilo é restrito no país e os migrantes podem ter suas candidaturas não aceitas ou ter a presença documentada pelas autoridades do país”, continuou William Spindler.
Cerca de 20 meses depois do início do conflito, o ACNUR considera a situação iemenita “muito precária” com as novas chegadas e dificuldades que expõem os envolvidos a vários perigos e à morte.
Os combates no Iêmen já deslocaram mais de 3,1 milhões de pessoas e 80% da população precisa de assistência humanitária.