ONU: Número de vítimas de conflitos no Afeganistão bate novo recorde em 2015

Hostilidades deixaram mais de 3,5 mil civis mortos, incluindo um número sem precedentes de crianças – uma em cada quatro mortes. Além disso, cerca de 7,5 mil pessoas ficaram feridas, tornando este o maior número de vítimas civis já registradas pela Organização. Governo adota medidas para pôr fim ao uso de crianças nos conflitos.

Família em sua casa simples na província de Faryab, Afeganistão. Foto: ACNUR/S.Saysomsack

Família em sua casa simples na província de Faryab, Afeganistão. Foto: ACNUR/S.Saysomsack

As Nações Unidas informaram nesta semana que as hostilidades no Afeganistão em 2015 deixaram mais de 3,5 mil civis mortos, incluindo um número sem precedentes de crianças – uma em cada quatro mortes. Além disso, cerca de 7,5 mil pessoas ficaram feridas, tornando este o maior número de vítimas civis já registradas pela Organização.

“Este relatório registra mais um aumento no número de civis feridos ou mortos. O prejuízo causado aos civis é totalmente inaceitável”, disse Nicholas Haysom, representante especial do secretário-geral da ONU para o Afeganistão e chefe da Missão de Assistência da ONU no país (UNAMA), em um comunicado de imprensa.

O relatório anual, produzido pela UNAMA em coordenação com o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), mostra que o aumento dos combates em terra em áreas povoadas, juntamente com os ataques suicidas e outros atentados nas principais cidades, foram as principais causas de mortes e ferimentos de civis relacionadas com o conflito, em 2015.

“Apelamos para os que estão causando essa dor ao povo do Afeganistão a tomar medidas concretas para proteger os civis e pôr fim à morte e mutilação de civis em 2016”, destacou Haysom.

A UNAMA documentou um total 11.002 vítimas civis – 3.545 mortas e 7.457 feridas – em 2015, superando os recordes anteriores de vítimas civis que ocorreram em 2014. Os números mais recentes mostram um aumento de 4% durante o período. A Missão da ONU passou a sistematizar os dados em 2009.

Numa coletiva de imprensa na capital Cabul, Haysom disse a repórteres que, embora os números em si sejam “horríveis”, as estatísticas e percentagens do relatório não refletem o horror real do fenômeno.

“O custo real destes números é medido nos corpos mutilados de crianças, as comunidades que têm de viver com as perdas, o sofrimento dos colegas e parentes, as famílias que têm de se virar sem um chefe de família, os pais aflitos com a morte das crianças, as crianças que sofrem com os pais perdidos […] estas são as verdadeiras consequências dos atos descritos neste relatório”, enfatizou.

“O povo do Afeganistão continua a sofrer ataques brutais e sem princípios, proibidos pelo direito internacional”, disse o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, em um comunicado de imprensa, acrescentando que isso está acontecendo com “impunidade quase completa”.

Enviada sobre crianças e conflitos armados visita o país

Na sequência de uma missão ao país, a enviada da ONU que trata do tema das crianças em situações de conflito armado recebeu o compromisso do governo para implementar integralmente o seu plano de acabar e impedir o recrutamento e uso de crianças nas forças de segurança nacionais.

“A vontade política e o progresso que tenho visto no terreno são encorajadores. O compromisso do governo será fundamental para virar a página do recrutamento e uso de crianças nas forças de segurança afegãs”, afirmou Leila Zerrougui, representante especial do secretário-geral para Crianças e Conflitos Armados, em um comunicado de imprensa.

Zerrougui visitou o Afeganistão entre os dias 13 a 17 de fevereiro para avaliar a situação das crianças afetadas pelo conflito armado e se envolver com as autoridades e os parceiros sobre a proteção de meninos e meninas.

Ela se encontrou com as principais autoridades nacionais, bem como com a Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a comunidade diplomática e das Nações Unidas e parceiros de organizações não governamentais.

A representante da ONU elogiou o lançamento de diretrizes nacionais de avaliação de idade, bem como o decreto presidencial que criminaliza o recrutamento e uso de crianças nas forças nacionais, e destacou que a implementação efetiva e a execução dessas ferramentas são fundamentais para prevenir o recrutamento e utilização de crianças nos conflitos.