Autoridades de países da região reúnem-se no Paraguai para tratar de políticas de redução dos riscos de desastres tendo em vista a erradicação da fome, a gestão da agricultura e a segurança alimentar, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
Entre 2003 e 2013, a maior parte das perdas na produção agrícola e pecuária na América Latina e no Caribe ocorreu após inundações (55%), seguidas por seca (27%) e tempestades (10%). O Brasil foi o país mais afetado, em parte devido ao grande tamanho da sua produção agrícola.

Na América Latina e no Caribe, há 60 milhões de agricultores familiares. Foto: Flickr/Secom/Mateus Pereira
Os países da América Latina e Caribe buscam aumentar a resiliência da agricultura e dos meios de subsistência frente a crises e catástrofes, como uma forma de erradicar a fome e alcançar a condição prévia para o desenvolvimento sustentável, disse a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) na terça-feira (7).
Ministros e altos funcionários dos países da região reúnem-se no Paraguai nesta quarta (8) e quinta-feira (9) para avançar na implementação do Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030, adotado em março do ano passado na 3ª Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Redução do Risco de Desastre.
Evento paralelo à reunião do Paraguai abordará os primeiros passos para adotar uma estratégia regional de gestão de riscos de desastre para a agricultura e a segurança alimentar, parte do Plano de Segurança Alimentar, Nutrição e Combate à Fome 2025 da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC).
Um dos pilares do plano é a atenção a desastres de origem social e natural que possam afetar a disponibilidade de alimentos, através de programas de gestão de riscos e sistemas de alerta precoce, entre outros.
“A meta para a nossa região é criar sistemas de produção mais resistentes, mais produtivos e eficientes, que preservem a base produtiva dos recursos naturais e tenham capacidade de suportar riscos e choques”, disse Jorge Meza, encarregado da iniciativa regional da FAO focada na gestão do risco de desastres.
América Latina e Caribe em risco
Entre 2003 e 2014, o custo dos desastres causados por fenômenos naturais na América Latina e no Caribe atingiu 34,3 bilhões de dólares, um quarto das perdas mundiais, afetando cerca de 67 milhões de pessoas.
De acordo com a FAO, os desastres relacionados ao clima, cujo impacto são muitas vezes exacerbados pelas mudanças climáticas, são os que mais afetam a região, totalizando 70% das emergências.
De acordo com o Índice de Risco Climático Global publicado em 2016, três dos cinco países que enfrentam maior risco na América Latina e no Caribe são Honduras, Haiti e Nicarágua. A Guatemala está em décimo lugar.
Um terço da população da região vive altamente exposto a determinadas áreas de ameaças geológicas e hidro-meteorológicas. “Os desastres têm um efeito desproporcional sobre as pessoas que vivem na pobreza. Entre 1975 e 2000, a população que vive em extrema pobreza concentrava 68% da mortalidade por desastres”, disse Meza.
Impactos na agricultura
De acordo com a FAO, entre 2003 e 2013, o setor agrícola na América Latina e no Caribe sofreu 16% dos danos e prejuízos causados por desastres. O setor agrícola sofreu 6% dos danos totais aos ativos físicos e sofreu 23% das perdas totais em termos de produção e danos à subsistência.
No setor agrícola, 71% dos danos causados por catástrofes afetaram colheitas, 13% florestas, 10% gado e 6% pesca.
O impacto econômico no setor agrícola pode ser devastador: na Colômbia, a temporada de inverno de 2010-2011 causou perdas e danos agrícolas de 824 milhões de dólares; enquanto as inundações em Tabasco de 2007 deixaram prejuízos de 816 milhões de dólares para o México no mesmo setor. Apenas na Nicarágua, o furacão Félix causou perdas de 608 milhões de dólares em 2007 para a agricultura.
Entre 2003 e 2013, a maior parte das perdas na produção agrícola e pecuária na América Latina e no Caribe ocorreu após inundações (55%), seguidas por seca (27%) e tempestades (10%). O Brasil foi o país mais afetado, em parte devido ao grande tamanho da sua produção agrícola.
“Depois de desastres, as importações agrícolas aumentaram significativamente em muitos países da região. Em média, o valor das importações aumentou 25% em relação aos valores projetados “, disse Meza.
Os desastres também afetaram o crescimento. De acordo com a FAO, o setor perdeu, em média, 2,7% de avanço após desastres na região entre 2003 e 2013.
Responder às emergências não é suficiente
Enquanto os países têm feito progressos na integração da abordagem de redução de riscos em agricultura, planejamento, orçamento, mecanismos institucionais e na execução de ações no nível local, eles permanecem focados em responder às emergências.
“Não é suficiente responder às emergências. Os países devem estar preparados, não apenas para evitar os custos econômicos, mas para proteger a vida humana. Para isso, é importante reduzir e gerir os riscos, gerando desenvolvimento socioeconômico inclusivo”, disse Meza.
De acordo com a FAO, o setor agrícola na América Latina e no Caribe tem uma grande capacidade para reduzir o risco de desastres e contribuir para a resistência dos meios de subsistência, se os países seguirem quatro princípios orientadores que se reforçam mutuamente de forma sinérgica:
- Governar os riscos e as crises: devem reforçar as instituições e a governança para a redução de riscos de desastres em todo o setor agrícola;
- Vigiar para proteger: criar e fortalecer sistemas de informação e alerta precoce sobre segurança alimentar e ameaças transfronteiriças;
- Aplicar medidas de prevenção e mitigação: promover e diversificar os meios de vida com tecnologias, enfoques e práticas de redução de risco.
- Preparar-se para responder: preparação para responder e se recuperar de forma eficaz em todos os âmbitos do setor agrícola.

As alterações climáticas têm implicações graves para a agricultura e a segurança alimentar. Foto: FAO/L. Dematteis
A FAO está apoiando os países através de uma nova iniciativa regional focada especificamente na gestão dos riscos de desastres, no uso sustentável dos recursos naturais e na adaptação às mudanças climáticas.
A agência da ONU trabalha para fortalecer os sistemas de gestão de risco nacionais que afetam a segurança alimentar nos países do Conselho Agropecuário do Sul, promovendo a cooperação Sul-Sul entre a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.
No Paraguai, a iniciativa da FAO está facilitando a formulação do Plano Nacional de Gestão de Riscos de Desastres e Adaptação às Mudanças Climáticas no setor agrícola, e fortalecendo o sistema de monitoramento de riscos agro-climáticos, incluindo secas, inundações e geadas.
“Com a redução do risco adequado, os países da América Latina e do Caribe podem fortalecer a segurança alimentar, construir sistemas agrícolas resistentes e melhorar a capacidade de milhões de pessoas para enfrentar as ameaças”, disse Meza.