ONU: Políticas econômicas atuais são insuficientes, inconsistentes e incapazes de criar demanda

Novo relatório da UNCTAD indica que apenas uma política mais inclusiva, com ênfase na distribuição de renda e transformação estrutural, levará a uma saída para a crise econômica global.

Professor da UNICAMP, Antonio Carlos Macedo, em coletiva no UNIC Rio. Foto: UNIC Rio/Thaís Imbuzeiro

Professor da UNICAMP, Antonio Carlos Macedo em coletiva no UNIC Rio. Foto: UNIC Rio/Thaís Imbuzeiro

O caminho da recuperação econômica não passa pelas normas atuais adotadas pelos países e existe uma alternativa viável para promover um crescimento global mais inclusivo, afirmou nesta quarta-feira (10) a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) durante a apresentação mundial do Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2014, que este ano tem como tema a ‘Governança e o ‘Policy Space‘ para o desenvolvimento”.

O documento ressalta que em um mundo cada vez mais interdependente e assimétrico, para garantir um crescimento sustentável da economia, tanto os países desenvolvidos como aqueles em desenvolvimento precisam adotar políticas mais audaciosas e inclusivas, que incluam uma maior ênfase na demanda interna e na transformação estrutural.

Na sede do Centro de Informação da ONU no Rio de Janeiro (UNIC Rio), o economista e professor da UNICAMP, Antonio Carlos Macedo e Silva, resumiu as principais conclusões do relatório para a imprensa enfatizando que a austeridade fiscal, a contenção salarial e a expansão monetária levaram a depressão da demanda global. Segundo ele, este “novo normal” impediu uma nova grande depressão, mas deixou um panorama de endividamento das famílias, fraca criação de novos empregos e salários estagnados que impedem a sustentabilidade desse modelo e criam paralelos preocupantes com a crise de 2008.

“As recomendações do relatório afirmam que as políticas econômicas atualmente praticadas são insuficientes e inconsistentes e são incapazes de criar demanda”, disse Macedo.

Como alternativa, a UNCTAD propõe medidas mais equitativas tanto no plano econômico como social, fundamentadas na orientação de uma política fiscal e monetária na mesma direção mas também na melhor distribuição de renda “não só por uma questão de justiça”, argumentou Macedo, “mas também para criar uma economia mais robusta e uma política mais sustentada”.

Crescimento com maior equidade

“Um crescimento com maior equidade baseado no aumento de salários e redistribuição de renda é mais sustentável do que o atual que é fraco e frágil já que se baseia em políticas monetárias que tornam a inflar bolhas especulativas que mais cedo ou mais tarde voltarão a explodir.”

Segundo o relatório, os estímulos para a exportação através da redução de salários e desvalorização interna são autodestrutivos e contraproducentes, principalmente se todos os países seguirem o mesmo rumo.

“A visão da UNCTAD é de que o caminho do desenvolvimento vem da sustentação da demanda e da transformação estrutural. A demanda tem que aumentar para que recursos produtivos sejam utilizados, recursos que estão desempregados ou subempregados. É necessário promover uma transformação estrutural, que as nossas estruturas produtivas e de emprego se tornem mais parecidas àquelas que caracterizam os países desenvolvidos”, disse Macedo.

A recuperação do ‘policy space’, ou autonomia dos países para decidir sobre suas políticas econômicas, também é um fator-chave para garantir o crescimento dos países, em particular, aqueles em desenvolvimento. O relatório indica que, principalmente os países em desenvolvimento, devem considerar os riscos de acordos bilaterais. Em curto prazo esses acordos podem ser interessantes, mas em longo prazo podem causar sérios danos ao país ao restringir a margem de manobra dos países com menor poder de barganha.

Citando mudanças estruturais necessárias, o relatório também destaca o impacto nefasto que a evasão fiscal causa na economia global, principalmente nos países em desenvolvimento. Estima-se que em entre 8 e 15% da riqueza financeira líquida encontra-se em paraísos fiscais, a maior parte sem registro. Isto resulta em uma perda de recursos públicos entre 190 e 290 bilhões de dólares. Dessa parcela, os países em desenvolvimento perdem entre 66 e 84 bilhões, o que equivale a dois terços do valor anual da Ajuda Pública ao Desenvolvimento.

“Há uma enorme evasão que se deve, fundamentalmente, a atuação das empresas privadas e de famílias mais ricas que deixam de pagar impostos e fazem remessas. A estimativa da UNCTAD é que dois terços dos fluxos financeiros internacionais ilícitos tenham por origem essas famílias e, fundamentalmente, empresas, através de mecanismos ligados aos chamados preços de transferência. Um terço, porém, se deve a atividades claramente ilegais como crime, drogas e terrorismo”, destacou Macedo.