Projeto “Empoderando Refugiadas” reuniu cerca de 20 mulheres vindas da África e do Oriente Médio para receber aulas sobre empreendedorismo.
Programa é fruto de parceria entre Instituto Consulado da Mulher com a Rede Brasil Pacto Global, Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ONU Mulheres, Cáritas São Paulo, Fox Time e o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR).

Refugiadas foram encorajadas a usar as novas mídias e viram como funciona a impressão 3D. Foto: Maressa Bernardo/FoxTime
Hortence Mbuyimwanza, advogada vinda da República Democrática do Congo (RDC) e mãe de quatro crianças, quer abrir um negócio em São Paulo, onde vive como refugiada.
Ela ainda não sabe que tipo de negócio pretende abrir — se uma barraca de comida típica, uma lojinha ou um serviço de entrega de quentinhas. Mas está certa de que essa alternativa é melhor do que continuar a fazer bicos, como o de lavar pratos em lanchonetes.
No fim de maio (23), Hortence reuniu-se com outras 19 mulheres vindas da África e do Oriente Médio no projeto “Empoderando Refugiadas”, parceria entre Instituto Consulado da Mulher com a Rede Brasil Pacto Global, Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), ONU Mulheres, Cáritas São Paulo, Fox Time e o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR).

No Brasil, as mulheres representam aproximadamente 30% dos refugiados reconhecidos até o final de 2015. Foto: Maressa Bernardo/FoxTime
Durante a série de palestras do projeto, as refugiadas tiveram primeiras noções de empreendedorismo e sobre como dar passos mais ambiciosos na reconstrução de suas vidas no Brasil.
Hortence, assim como várias de suas colegas, demonstrou ter características básicas para empreender — entre elas, criatividade, coragem de se expor ao risco e disposição para enfrentar um dos principais obstáculos para os refugiados no Brasil: a língua.
“Eu tenho formação em Direito. Não sei nada sobre negócios, sobre fazer produtos, sobre como vendê-los. Então, preciso aprender. E não vou deixar de falar em português, mesmo com os meus erros”, afirmou Hortence, com forte sotaque francês.
Segundo Vanessa Tarantini, responsável pelas parcerias da Rede Brasil do Pacto Global, o projeto teve como objetivo oferecer meios para as mulheres contribuírem para a economia do país onde vivem, estimular a autoconfiança e ensiná-las sobre a cultura brasileira nas áreas de trabalho e de negócios.
O grupo foi apresentado a um passo a passo sobre como abrir a forma mais simplificada de empresa existente no Brasil — o Microempreendedor Individual (MEI). Recebeu ainda exemplos didáticos sobre as qualidades necessárias para obter sucesso em seus futuros negócios.
Também refugiada no Brasil, Sylvie Tchocgnia sonha preparar e vender churrasquinho nas ruas de São Paulo. Vinda da República Democrática do Congo, ela está às voltas com regras de formalização as quais não compreende e obstáculos burocráticos.
“Eu já fui atrás de autorização e não consegui”, queixou-se Sylvie, ao se lembrar de sua iniciativa de criar um meio de vida em um ambiente de negócios desconhecido.
Para o caso de Sylvie e de todas que pretendem ingressar no setor de alimentos, as palestras ressaltaram a necessidade de se cumprir requisitos oficiais, entre eles, a obtenção de alvará da Vigilância Sanitária Municipal e de licença do Corpo de Bombeiros. Também foi apontada a necessidade de se consultar os locais onde é autorizada a venda de alimentos e de ter cuidado especial com a qualidade e validade dos produtos.
As refugiadas também foram sensibilizadas a se valerem das redes sociais e de novas tecnologias para divulgar e fortalecer seus eventuais negócios. Em um capítulo especial, Julia Moura, fundadora da empresa Tunnel Lab Brasil, estimulou as mulheres a buscar os meios disponíveis e gratuitos em São Paulo para inovar e criar novos produtos. Julia apresentou o conceito de tecnologia como “tudo o que ajudar a tirar uma ideia do papel, a começar por um lápis” e expôs as refugiadas à experiência da impressão 3D.
Para trazer uma experiência local, o Consulado da Mulher contratou a Lee & Maga, uma MEI, para preparar e servir o almoço. As responsáveis pela MEI relataram suas experiências como empreendedoras, a ajuda recebida do Consulado da Mulher e se dispuseram a dar aulas sobre como organizar um novo negócio e preparar receitas.
Também foi convidada a expor Mariana Dias, uma profissional brasileira de Relações Públicas que desenvolveu produtos e técnicas de manicure sem uso de instrumentos cortantes. Mariana ofereceu a parceria de sua marca, a Manicura Express, às refugiadas que pretendem criar uma MEI. As refugiadas atuariam em hoteis, onde seus conhecimentos de outro idioma facilitariam o contato com clientes estrangeiros.
Entre as refugiadas presentes, Prudence Kalambay, mãe de cinco, ouviu Danielle Pieroni, gerente da Fox Time, enfatizar o perfil emocional do consumidor brasileiro e sua tendência de comprar se o vendedor lhe contar uma boa história. Vinda da República Democrática do Congo, Prudence resolveu relatar sua própria experiência no Brasil ao grupo.
Dados recentemente divulgados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) mostram que as mulheres compuseram 19,2% do total de 28,7 mil solicitantes de refúgio no Brasil entre 2010 e 2015, percentual que representou 15,9 mil mulheres.
Entre os 8.493 refugiados já reconhecidos até o final de 2015, 28,2%, ou 1.273, são mulheres. São consideradas refugiadas as pessoas forçadas a deixar seus lares e até mesmo seus países por causa de conflitos e de perseguições políticas, étnicas e religiosas.