Refugiado da etnia rohingya supera preconceito após fugir de Mianmar e recomeçar a vida na Malásia

Na pré-escola, Ishak era rejeitado pelos colegas por da cor de sua pele. Hoje, aos 15 anos, ele está perto de concluir o ensino secundário em um centro educacional para refugiados na Malásia, onde vive há oito anos. O país de acolhimento afastou o jovem do preconceito, mas trouxe novos desafios. Sistema educacional malaio não é aberto para refugiados, que recorrem a redes paralelas e custosas para conseguirem se formar.

Ishak durante aula no centro de ensino para refugiados. Foto: ACNUR / Ted Adnan

Ishak durante aula no centro de ensino para refugiados. Foto: ACNUR / Ted Adnan

Com apenas 15 anos, Ishak já carrega o peso das expectativas de seus parentes. Ele é um dos melhores jogadores de futebol do time de sua escola, um aluno exemplar e, possivelmente, a primeira pessoa de toda a família a completar os estudos.

Quem vê o desempenho do rapaz, vivendo atualmente na Malásia, não imagina que ele foi vítima de discriminação racial em seu país de origem, Mianmar, por pertencer à etnia rohingya. Há oito anos, ele e sua família fugiram da nação onde nasceram e se tornaram refugiados, o que impôs novos desafios para Ishak.

“Lá no meu país, as crianças da pré-escola costumavam zombar de mim por causa da cor da minha pele”, relembra o refugiado rohingya, cujo pais são de Rakhine. “Eles me chamavam de escuro e me perguntavam o que eu estava fazendo lá. Mas os professores sempre me apoiaram e explicaram que aquilo era errado.”

A nova vida de Ishak e seus parentes na Malásia não foi fácil. No país, refugiados não têm acesso ao sistema de educação e a formação dessas populações deslocadas acaba ficando a cargo de iniciativas conduzidas pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), por algumas organizações não governamentais parceiras e pelos próprios refugiados que estruturam uma rede de ensino paralela.

Eles me chamavam de escuro e
me perguntavam o
que eu estava fazendo lá.

Atualmente, existem mais de 120 centros de aprendizagem comunitários para refugiados e solicitantes de refúgio em toda a Malásia, sendo que muitos deles enfrentam problemas como superlotação das salas de aula e restrições orçamentárias. Outras dificuldades estão associadas à alta rotatividade de professores, ao abandono escolar motivado por questões financeiras ou culturais e à falta de oportunidades no ensino superior.

“É muito caro ir para escola, temos que pagar taxas, transporte e outras despesas”, conta Ishak, que estuda na capital, Kuala Lumpur. Seu irmão mais velho teve que abandonar a escola para dar apoio à família.

A mãe dos rapazes está convicta de que o filho mais novo deve continuar os estudos. “Ela acredita que a educação pode tornar a vida melhor, mas nunca me pediu para ser médico ou algo assim. Ela apenas disse ‘seja uma pessoa bem-sucedida, com um título que te destaque perante a sociedade e que te garanta uma identidade própria’”, lembra o refugiado.

Ishak aproveitou ao máximo uma oportunidade frequentemente restrita aos refugiados. Um relatório publicado pelo ACNUR no último mês revelou que mais da metade das 6 milhões de crianças em idade escolar sob o seu mandato não têm escola para frequentar.

Dos mais de 21 mil refugiados e solicitantes de refúgio em idade escolar na Malásia, menos da metade está matriculado no ensino primário e apenas um quinto frequenta o secundário.

Há cerca de 21,7 mil crianças refugiadas em idade escolar na Malásia. Apenas 30% delas têm acesso à educação em centros de ensino voltados para as comunidades informais. Foto: ACNUR / Ted Adnan

Há cerca de 21,7 mil crianças refugiadas em idade escolar na Malásia. Apenas 30% delas têm acesso à educação em centros de ensino voltados para as comunidades informais. Foto: ACNUR / Ted Adnan

Quando os recursos da família de Ishak estavam escassos, o centro de ensino primeiramente ofereceu um desconto sobre a mensalidade e, posteriormente, conseguiu um patrocinador para o jovem.

O local é administrado pela Dignity for Children Foundation, que conduz um dos programas educacionais mais abrangentes para os habitantes mais pobres da Malásia. A iniciativa forma estudantes da pré-escola até o ensino médio e também conta com treinamentos vocacionais.

Sei que meus amigos não estarão aqui
para sempre. Alguns serão reassentados,
outros voltarão aos seus países de
origem e alguns deles terão que
abandonar seus estudos devido aos custos.

Para Ishak, o centro de ensino é seu segundo lar. Além de ter aulas de suas matérias favoritas como matemática, física e contabilidade, ele gosta de dividir a classe com colegas do mundo inteiro.

“Sei que meus amigos não estarão aqui para sempre. Alguns serão reassentados, outros voltarão aos seus países de origem e alguns deles terão que abandonar seus estudos devido aos custos. Eu sei que nós somos especiais e que este é um momento que tenho que valorizar.”

Ishak está a um ano de prestar o exame para conseguir seu certificado internacional de educação secundária. Quando se formar, ele espera retornar ao centro de ensino como voluntário para dar aulas aos mais novos ou trabalhar no departamento de esportes.

Meu sonho é jogar futebol pelo
Manchester United, meu time de coração.
Se for possível, eu gostaria
de representar um país.

Sua paixão por atividades físicas foi recentemente recompensada quando, depois de seis anos de treinamentos e competições, ele ajudou o time de futebol do centro a ganhar o campeonato Faisal Cup, um encontro esportivo anual entre projetos para refugiados na Malásia.

“Meu sonho é jogar futebol pelo Manchester United, meu time de coração. Se for possível, eu gostaria de representar um país”, afirma. “Mas será difícil para alcançar esse sonho. Eu pretendo estudar engenharia para garantir que eu possa sustentar a mim e a minha família no futuro, caso eu não consiga realizar esse sonho.”