A menina síria Hanan e a dupla de judocas congoleses Popole Misenga e Yolande Mabika participaram do programa “Encontro com Fátima Bernardes” e falaram sobre a adaptação à vida no Brasil, após fugirem de países que passam por crises humanitárias.
O recomeço de vida dos refugiados no Brasil foi um dos temas do programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo, na última quarta-feira (11). No Rio de Janeiro, os refugiados que chegam ao país são recebidos pela Cáritas, entidade parceira da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Refugiados e outros participantes nos bastidores do programa “Encontro com Fátima Bernardes”. Foto: Gshow / Fábio Rocha
O recomeço de vida dos refugiados no Brasil foi um dos temas do programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo, na última quarta-feira (11). No Rio de Janeiro, os refugiados que chegam ao país são recebidos pela Cáritas, entidade parceira da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
A jornalista e apresentadora Fátima Bernardes recebeu ao palco a menina Hanan Khaled Daqqah, de 12 anos, refugiada síria escolhida pelo Comitê dos Jogos Rio 2016 para compor a equipe que conduziu a Tocha Olímpica em Brasília no dia 3 de maio, quando a chama desembarcou no Brasil.
A menina levou a Tocha ao programa e disse sonhar com a paz em seu país. Hanan tem aulas de ginástica e balé na Comunidade Esportiva do Glicério, um espaço destinado às crianças carentes que vivem e estudam no centro de São Paulo.
Enquanto cenas de seus treinos eram exibidas, a jovem síria contou a Fátima que quer ser bailarina e como a apresentadora no futuro.
Ao falar sobre sua experiência em Brasília, quando recebeu a chama olímpica, Hanan lembrou que estava “nervosa e ansiosa”. “Foi um presente muito lindo para a minha vida”, disse. “Meus sonhos são voltar para o meu país e acabar a guerra por lá e também em todos os países.”
A refugiada chegou ao Brasil há pouco mais de um ano, acompanhada por sua mãe Yusra, e seus irmãos Mustafá e Yara. A família havia passado um longo período no campo de refugiados de Kaddiri, na Jordânia, e conseguiu em São Paulo reunir-se ao pai, Khaled Dakka, operário de 40 anos. No final deste mês, nascerá sua irmã brasileira, que já ganhou o nome de Sara.
A menina foi elogiada por Fátima por falar português tão bem em tão pouco tempo de residência no Brasil. Da plateia, seu pai acompanhava orgulhoso a filha, estudante do 5º ano da escola municipal Duque de Caxias, no centro de São Paulo.
Hanan explicou ter absorvido a língua local com facilidade, ao ouvir os brasileiros. A jovem faz aulas de reforço de Português e começou o aprendizado de inglês.
Refugiados da República Democrática do Congo também participaram
Na plateia, os judocas Popole Misenga e Yolande Mabika — ambos da República Democrática do Congo e candidatos a integrar a equipe de atletas refugiados do Comitê Olímpico Internacional (COI) nos jogos do Rio de Janeiro — contaram como a retomada do treino deu um rumo positivo para suas vidas no Brasil.
Ambos desertaram da equipe de seu país durante o Campeonato Mundial de Judô, em 2013, e viveram como sem-teto no Rio de Janeiro antes de serem encaminhados para a comunidade de Cordovil, bairro carioca onde se concentram imigrantes e refugiados de origem africana.
“Eu sofri muito nos meus dois primeiros anos aqui”, contou Yolande, que disse não querer perder a oportunidade de melhorar de vida pelo esporte.
Depois de um período realizando pequenos trabalhos informais, Popolo e Yolande inscreveram-se no Instituto Reação, uma organização não governamental que promove a inclusão social de crianças e jovens carentes por meio dos esportes, em especial, do judô.
Eles retomaram os treinos e competições da luta e têm, agora, a chance de participar do primeiro time do COI em uma Olimpíada a ser formado apenas por refugiados. “Eles estão preparados, estão treinando muito”, disse o coordenador do Programa Reação Olímpico, Geraldo Bernardes, que os acompanhou no programa.
Outra convidada do programa, a psiquiatra Fátima Vasconcellos comentou como a resiliência é uma importante virtude para a superação de traumas, em particular para os refugiados.
Atualmente, como lembrou Bernardes no início do “Encontro”, 60 milhões de pessoas no mundo foram forçadas a abandonar seus lares por causa de conflitos, violações dos direitos humanos e perseguições.
No Brasil, existem atualmente 28.670 estrangeiros que são solicitantes de refúgio , segundo os mais recentes dados do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). Em abril de 2016, asilados já reconhecidos pelas autoridades e oriundos de 79 países somavam 8.863 indivíduos — dos quais 2.298 eram sírios.
Outra convidada do “Encontro”, a atriz Heloísa Jorge — que faz o papel de uma escrava na novela “Liberdade, Liberdade”, da Rede Globo — contou ter sido forçada, aos 10 anos, a abandonar sua mãe e irmãos em Angola, onde nasceu.
Heloísa encontrou-se com o pai em Montes Claros, em Minas Gerais. Ela não chegou a solicitar refúgio do Brasil porque tinha dupla nacionalidade brasileira e angolana. “A minha adaptação no Brasil foi difícil, porque eu tive de me separar da minha mãe”, relatou a atriz. A perda de contado com os familiares é um dos desafios recorrentes enfrentados pela maioria dos refugiados.
Por Denise Chrispim, em São Paulo.