Refugiados fazem história nas Paralimpíadas do Rio e abrem desfile das delegações em abertura

Equipe inédita de atletas paralímpicos refugiados conta com um nadador sírio e um lançador de disco iraniano. Eles vão competir sob a bandeira do Comitê Paralímpico Internacional e representar todos as pessoas com deficiência que foram forçadas a abandonar seus lares por causa de guerras e violações dos direitos humanos.

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Sob a torcida entusiasmada de uma multidão que lotou o Maracanã na noite da quarta-feira (7), dois atletas paralímpicos refugiados fizeram história ao abrirem o desfile das delegações durante a cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos Rio 2016.

Porta-bandeira da inédita equipe de competidores que foram forçados a abandonar seus países, o nadador sírio Ibrahim Al-Hussein carregou a flâmula do Comitê Paralímpico Internacional

“Estou muito feliz por ter sido escolhido para conduzir a bandeira. Este está sendo um dos melhores momentos da minha vida”, disse o atleta à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) antes da celebração no Maracanã.

Na Síria, Ibrahim costumava competir em campeonatos de natação locais e nacionais, mas sua carreira foi interrompida há cinco anos quando a guerra eclodiu no país.

Em 2013, após perder a parte inferior de sua perna direita devido a uma explosão, ele fugiu para a Turquia onde passou a maior parte do ano seguinte reaprendendo a andar. Em 2014, ele embarcou em um bote inflável para a Grécia, onde retomou seus treinos de natação.

“Antes da guerra na Síria, eu sonhava em participar das Olimpíadas. Depois do que aconteceu, e depois da minha lesão, eu resolvi seguir em frente e hoje estou nas Paralimpíadas. Eu continuei sonhando, e este momento é um dos melhores que já vivi na vida”, acrescentou.

Na Rio 2016, Ibrahim irá competir nos 50 metros e 100 metros nado livre na classe S10, uma das dez categorias definidas segundo o grau de habilidade e eficiência dos atletas. Sua participação acontece menos de um ano depois que ele começou a nadar novamente, em outubro de 2015, após uma pausa de cinco anos.

O outro integrante da equipe é Shahrad Nasajpour, um atleta iraniano com paralisia cerebral que teve o seu pedido de refúgio concedido pelos Estados Unidos. Ele competirá na categoria f37 do lançamento de discos.

A cerimônia de abertura teve início com uma contagem regressiva marcada pela manobra radical do atleta norta-americano Aaron Wheelz que, em uma cadeira de rodas, desceu em alta velocidade uma rampa com a altura de um prédio de seis andares e saltou através de um painel com o número zero, marcando o início dos Jogos com uma explosão de fogos de artifício.

Durante o desfile, voluntários posicionaram mais de mil peças de um quebra-cabeça que formou um coração, representando o conceito-chave da cerimônia: “O coração não conhece limites. Todo mundo tem um coração”.

Antes da cerimônia de abertura, o alto-comissário do ACNUR, Filippo Grandi, disse que estava “muito feliz por torcer por Ibrahim e Shahrad”. “Eles são um exemplo do que pode ser alcançado quando os refugiados com deficiência têm a oportunidade de seguir seus sonhos e desenvolver seus talentos”, afirmou.

Al-Hussein e Shahrad estão seguindo os passos da amplamente celebrada Equipe Olímpica de Atletas Refugiados. Ainda que não tenham conquistado medalhas, os dez atletas fizeram história na Rio 2016, levando para o maior evento esportivo do mundo a pauta dos 65,3 milhões de indivíduos forçados a deixar seus lares por conta de guerras e violações dos direitos humanos.

Em abril, Ibrahim participou do revezamento da Tocha Olímpica e conduziu a chama por um campo de refugiados em Atenas, um gesto simbólico para mostrar solidariedade aos deslocados de todo o mundo.

Encontro com ACNUR no Brasil

Às vésperas dos Jogos Paralímpicos, a representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez, se reuniu com a equipe para demonstrar seu apoio aos atletas e parabenizá-los pela participação em nome dos milhares de outros refugiados e solicitantes de asilo com deficiências.

A representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez, cumprimenta o atleta refugiado Ibrahim Al-Hussein na Vila Olímpica no Rio de Janeiro. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

A representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez, cumprimenta o atleta refugiado Ibrahim Al-Hussein na Vila Olímpica no Rio de Janeiro. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

“Eles já são vitoriosos, pois conseguiram ultrapassar vários obstáculos e chegar até aqui. O fato de serem refugiados torna sua necessidade de proteção mais evidente. E para pessoas com necessidades especiais, isto é particularmente importante”, afirmou.

Para Isabel, a equipe traz uma mensagem de esperança para os Jogos Paralímpicos. “Não importa o problema que as pessoas tenham na vida, continuem a fazer o que gostam.”