Refugiados vivendo na capital fluminense participaram de um projeto da Cáritas RJ que utilizou a música para discutir desigualdades e violência de gênero. O resultado da iniciativa foi a produção de um rap sobre o papel dos homens na luta pelo fim das agressões contra mulheres.
Tudo começou com um pedido de mulheres refugiadas à equipe da Cáritas do Rio de Janeiro, durante uma roda de conversa com o público feminino sobre violência de gênero. “Nós sabemos de tudo isso”, disseram elas. “O que precisamos é que vocês falem desse assunto com os nossos maridos.”
A partir daí, a equipe de Integração Local da Cáritas RJ, com o apoio do Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), decidiu criar um espaço de discussão semanal com homens refugiados, casados ou não. Para mobilizar os participantes, o projeto utilizaria a música, mais especificamente o rap. Em outubro, tiveram início as oficinas com um grupo de 20 refugiados vindos de Angola, Colômbia e República Democrática do Congo.
Em meio a conversas sobre violência doméstica e masculinidade, surgiram também outros assuntos, como racismo, preconceito, deslocamento forçado e saudade de casa. O objetivo final da iniciativa era levar os alunos a criar uma letra com os pensamentos e sentimentos debatidos em grupo.
“Mudei alguns pensamentos que eu tinha, porque percebi que estavam errados”, conta o congolês e participante Mpembele Zoka Elisée, de 19 anos. O jovem chegou ao Brasil em maio de 2013. “Muitas vezes, nós crescemos ouvindo que um homem pode fazer tudo que quiser dentro de casa e que não deve cozinhar, lavar louça ou limpar. Agora, entendo que deve haver uma igualdade na divisão das tarefas e vi que algumas pessoas do grupo também pensam assim.”
O resultado dessa transformação está refletido na música criada pelos participantes do projeto, intitulada “Metanoia”, que significa mudança de mentalidade e de atitude. A letra combina quatro línguas diferentes — português, francês, espanhol e lingala — e traz versos fortes pelo fim da violência contra as mulheres. Rimas também trazem estatísticas sobre ofensas verbais, ameaças e espancamentos.
“Pedimos que eles se expressassem como quisessem e na língua que preferissem”, explica a consultora em Direitos Humanos e Responsabilidade Social, Gabriela Azevedo de Aguiar, que coordenou o programa. “É interessante mostrar a diversidade também no idioma. E que várias línguas podem falar a mesma coisa. Alguns dos participantes fizeram textos muito emocionados. Nem todos entraram, mas eles abriram o coração em vários momentos.”
No Brasil há pouco mais de um ano, o colombiano Héctor Fajardo, de 40 anos, foi um dos participantes que colocou suas reflexões no papel, compartilhando sua visão sobre a violência contra as mulheres e também sobre a dura realidade do refúgio.
“Tenho uma esposa e duas filhas e, para mim, a mulher é algo sagrado, o centro da vida”, diz o colombiano, que costumava cantar na juventude. “Quando eu tinha cerca de 20 anos, fiz muitos trabalhos na música, mas, como isso não dava dinheiro no meu país, fui fazer uma formação e comecei a trabalhar como técnico-profissional em telecomunicação.”
Para a alegria de Héctor e dos demais participantes, o grupo, batizado de “Um Refúgio na Arte”, teve a oportunidade de ir a estúdio gravar a música e, depois, filmar um videoclipe de rap à altura dos melhores do gênero. Os resultados foram surpreendentes — para a coordenadora e para os próprios refugiados.
“O vídeo ficou incrível”, celebra Elisée, que já atende pelo nome artístico: LZ. “Eu não acreditava que iria chegar ao nível que chegou. Fiquei muito feliz. Estamos vendo as mulheres sendo estupradas e sofrendo violência doméstica, mesmo aqui no Brasil, por isso foi uma experiência incrível ter a oportunidade de nos expressarmos na música e mostrar à população que não concordamos com isso.”
“Nem todos os 20 que entraram no projeto foram até o final, alguns saíram logo no início, mas o engajamento de quem ficou foi muito grande”, conta Gabriela, que ressalta a importância de se discutir a violência de gênero com os homens.
“Se estamos pedindo que as pessoas se relacionem de novas formas e que os homens não fiquem restritos a uma masculinidade agressiva, que coloca as mulheres como inferiores ou como objeto, então o trabalho também tem que ser feito com eles. Eu diria até principalmente com eles.”
A música e o videoclipe foram lançados no dia 4 de dezembro, em um debate realizado na Universidade Veiga de Almeida, do qual os refugiados participantes saíram ovacionados. Seis dias depois, eles tiveram a oportunidade de se apresentar no palco do Parque Madureira, durante um evento de celebração pelo Dia Internacional dos Direitos Humanos.
O projeto da Cáritas RJ e do ACNUR marcou a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, mobilização capitaneada pelas Nações Unidas e seus parceiros.
O grupo, que continua a se encontrar fora da Cáritas RJ, planeja escrever novas letras de rap, unindo ritmo e poesia para expressar sentimentos e provocar mudanças. Metanoia.