Fruto de parceria entre Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque (UNAMI) e Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), relatório detalhou testemunho de mais de 300 mil yazidis sobreviventes de atrocidades realizadas pelo Estado Islâmico no Iraque desde o ataque a Sinjar, no norte do país, em agosto de 2014. Os relatos citam matanças sistemáticas e generalizadas, violência e escravidão sexual, tratamento cruel, desumano e degradante, conversões e deslocamentos forçados, entre outros abusos de direitos humanos internacionais.

Com um bebê de 13 dias no colo, idosa Yazidi que fugiu de Sinjar retorna ao Iraque a partir da Síria, pela cidade de Peshkhabour, província de Dohuk. Foto: UNICEF/Wathiq Khuzaie
Novo relatório das Nações Unidas chama a atenção para a maneira generalizada e sistemática coma qual o grupo autodenominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, também conhecido como Da’esh) cometeu “atrocidades terríveis” contra os yazidis e outras comunidades étnicas e religiosas, advertiu o enviado da ONU para o Iraque na semana passada (18), pedindo que os autores dos crimes sejam devidamente responsabilizados.
Produzido pela Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque (UNAMI) em parceria com o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), o relatório detalhou o testemunho de mais de 300 mil yazidis sobreviventes de atrocidades realizadas pelo Estado Islâmico no Iraque desde o ataque a Sinjar, no norte do país, em agosto de 2014. Os relatos incluíram matanças sistemáticas e generalizadas, violência e escravidão sexual, tratamento cruel, desumano e degradante, conversões e deslocamentos forçados, entre outros abusos de direitos humanos internacionais.
Estima-se que 360 mil yazidis continuam deslocados, sem acesso a qualquer tipo de cuidado psicológico necessário.
Em entrevista à ONU, mulheres relataram, entre outras histórias alarmantes, que foram vendidas várias vezes e tiveram suas crianças e bebês sequestrados. Uma mulher disse que foi vendida a um membro sírio do Estado Islâmico de 26 anos de idade, que a violentou regularmente durante pelo menos 15 dias e ameaçou matar suas filhas caso ela resistisse.
O relatório também contém relatos de homens que foram separados de suas mulheres, bem como documenta mortes em massa de homens capturados. Segundo o estudo, cerca de 600 homens foram mortos no distrito de Tel Afar. Membros da comunidade yazidi também foram forçados a se converter ao islamismo ou seriam mortos.
De acordo com o representante especial do secretário-geral para o Iraque, Jan Kubis, o relatório aponta que aproximadamente 3,5 mil mulheres, meninas e alguns homens — predominantemente da comunidade yazidi, mas também de outras comunidades étnicas e religiosas — permanecem em cativeiros do Estado Islâmico.
“Dois anos depois da queda de Ninewa, a comunidade yazidi continua sendo alvo do Estado Islâmico. Milhares de homens, mulheres e crianças foram mortos, estão desaparecidos ou permanecem em cativeiro, onde são submetidos a abusos sexual e físico indescritíveis”, disse Kubiš, acrescentando: “diante de tal evidência, é de suma importância que o perpetradores desses atos hediondos sejam devidamente responsabilizados”.
O alto comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, disse que os depoimentos reunidos no relatório devem servir como um alerta para toda a comunidade internacional. Ele afirmou que nenhum esforço deve ser poupado no sentido de garantir a responsabilização por esses crimes terríveis, assim como para enviar uma mensagem clara de que ninguém pode ficar impune.
“Estou profundamente preocupado com o grave impacto que o atual conflito está causando sobre a população civil, especialmente sobre os membros de comunidades étnicas e religiosas antigas e diversificadas do Iraque”, disse Zeid. “As experiências contadas pelos sobreviventes e documentadas neste relatório revelam atos desumanos e cruéis numa escala inimaginável, que constituem um ataque sério sobre os direitos humanos mais fundamentais e são uma afronta à humanidade como um todo “, ressaltou.
O relatório afirma que as violações e abusos cometidos por integrantes do Estado Islâmico podem constituir crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.
“Todo esforço deve ser empreendido pelo governo do Iraque e pela comunidade internacional, em estrita conformidade com os direitos humanos internacional, a fim de pôr fim às violações dos direitos humanos perpetradas pelo Estado Islâmico e para garantir a libertação segura desses civis “, observou o relatório.
“Assistências psicológicas, médicas e outras formas de apoio são urgentemente necessárias, especialmente para os sobreviventes de violência e escravidão sexual. Além disso, todo o possível deve ser feito para criar condições dignas e seguras para que os yazidis, juntamente com pessoas deslocadas internamente de outras comunidades, possam retornar a seus lugares de origem”, acrescentou.