República Centro-Africana: 60% dos delocados são crianças; jovens andam com granadas e facões

Agentes humanitários da ONU têm dificuldade de chegar aos locais onde pessoas buscam abrigo para fugir da violência sectária. Arcebispo e Imam de Bangui se unem em campanha pela paz.

Deslocados internos na República Centro-Africana que estão abrigados na construção de uma igreja em Bangui. Foto: ACNUR/B. Ntwari

As Nações Unidas estão cada vez mais preocupadas com a segurança de 710 mil deslocados na República Centro-Africana em meio a dificuldades de acesso aos locais onde eles estão buscando abrigo e relatos de que jovens estão andando pelas ruas com granadas e facões.

“Cerca de 60% da população deslocada é composta por crianças. Mais precisa ser feito em termos de assistência e proteção”, afirmou o representante do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), Lasare Kouassi Etien, na terça-feira (24).

Em Bangui, capital do país, 214 mil pessoas tiveram que fugir de casa com a crescente conotação religiosa que o conflito está tomando. Cristãos buscam refúgio em escolas, igrejas e no aeroporto, enquanto cerca de 35 mil muçulmanos estão nas casas de familiares.

O país vive uma situação caótica desde que os rebeldes, principalmente do grupo muçulmano Séléka, lançaram ataques contra o governo há um ano e forçaram a fuga do presidente François Bonzizé em março. Um governo de transição foi encarregado de restaurar a paz e abrir o caminho para eleições democráticas, mas o movimento cristão antiBalaka pegou em armas e confrontos entre representantes das duas religiões eclodiram em Bangui no início deste mês.

O arcebispo e o imam da cidade se uniram para diminuir as tensões por meio de campanhas de reconciliação nos campos de deslocados e em outros pontos da capital, mas a segurança e o acesso a essas áreas ainda são preocupantes, especialmente no aeroporto.

Adelaide, de 60 anos, está entre as 17 mil pessoas que procuraram refúgio nas últimas semanas na Arquidiocese de Bangui. Carregando um saco com pertences, ela caminhou por duas horas e mal conseguia ficar em pé quando chegou ao local no sábado (21).

“Vi pessoas armadas, pessoas que nunca vi antes em Kasai [periferia no leste da cidade]”, disse, enxugando as lágrimas misturadas com o suor que escorria pelo rosto. “Quando ouvi os tiros, decidi me juntar aos vizinhos que estavam fugindo. No caminho, vi pelo menos 15 pessoas mortas na rua.”

As condições de vida em outros campos de deslocados são inadequadas. “Somos mais de 20 pessoas em uma única barraca e outras ainda dormem do lado de fora”, conta Grace, segurando seu bebê. “Aqueles que dormem nas igrejas têm que sair às 4h para que a missa da manhã seja preparada. As crianças estão ficando doentes por causa do frio.”

Entre 200 e 250 deslocados internos são tratados diariamente por enfermeiros na Arquidiocese, a maioria sofre de malária e doenças diarreicas.

O ACNUR está ajudando os centro-africanos dando proteção, abrigo e itens não alimentares. Até agora, a agência possui uma equipe de emergência de 10 pessoas em Bangui. Uma operação de transporte aéreo está programada para levar itens de emergência até o final do ano para repor o que já foi consumido.

Além de deslocamento interno massivo, o conflito também tem levado centro-africanos ao refúgio em países vizinhos. Desde março, cerca de 43,5 mil pessoas já cruzaram a fronteira com a República Democrática do Congo, 12 mil foram para o Chade, 11 mil para a República do Congo e 5 mil para Camarões.