República Centro-Africana: Milhares fogem para a República do Congo para escapar da violência

Desde março, cerca de 11 mil civis já cruzaram a fronteira, fugindo da violência entre cristãos e muçulmanos, e são acolhidos por famílias locais e pela agência da ONU para refugiados, o ACNUR.

Três refugiadas da República Centro-Africano com seus bebês em Betou, na República do Congo, depois de fugir da violência em sua aldeia. Foto: ACNUR/L.Culot

Três refugiadas da República Centro-Africano com seus bebês em Betou, na República do Congo, depois de fugir da violência em sua aldeia. Foto: ACNUR/L.Culot

A violência sectária que assola a capital Bangui e outras partes da República Centro-Africana (RCA) se espalhou para o sul, em Lobaye, forçando milhares de pessoas a fugir para a República do Congo.

Desde março de 2013, quando a ex-aliança rebelde Seleka tomou Bangui, cerca de 11 mil civis centro-africanos cruzaram a fronteira. A maioria encontrou abrigo na pequena cidade de Betou, que fica às margens do rio Oubangui, no norte do departamento de Likouala, na República do Congo.

Centenas de pessoas atravessaram as fronteiras nas últimas duas semanas, com a situação de segurança no país continuando a se deteriorar. As forças do ex-Seleka entraram em conflito com as milícias cristãs “Anti-Balaka” em Bangui, em Bossangoa e em outras partes do país sem litoral atingido pela pobreza.

Muitos dizem que as comunidades cristãs e muçulmanas em Lobaye coexistiram pacificamente até recentemente. “Em nossa aldeia, nunca testemunhamos ódio sectário, mesmo após a derrubada (em março) do (presidente François) Bozizé”, disse Sylvia, que fugiu com as amigas da aldeia de Mbata. Ela disse que os atacantes saquearam a vila, que fica a cerca de 35 quilômetros de Betou.

“Nós nunca pensamos que o conflito em Bangui iria perturbar a nossa vida”, acrescentou Bénédicte, também de Mbata. Ela disse que a situação tinha mudado no final de novembro, quando a violência começou depois que um homem Seleka foi morto por um partidário de Bozizé em Mbata. “Antes disso , tudo estava bem, estávamos todos vivendo juntos em paz”, ressaltou.

Outros refugiados têm vindo das aldeias de Bolo e Mbaiki, em Lobaye. Muitos caminham durante dias para chegar com segurança nesta área isolada e de difícil acesso da República do Congo. Sylvia, de 22 anos de idade, fugiu de Mbata com sua família e outras duas famílias e caminhou pela floresta durante seis dias para chegar a Betou.

“Perdemos o nosso caminho na floresta, mas encontramos um grupo de moradores que nos levou para a aldeia de Ngongo. Eles nos disseram que o pessoal do ACNUR estavam lá alguns dias antes e sabíamos para onde ir para obter ajuda”, disse Sylvia ao Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) enquanto amamenta seu bebê, uma menina. No dia em que ela e suas amigas foram levadas na semana passada de Ngongo para Betou, cerca de 350 refugiados chegaram lá vindos da República Centro-Africana.

Em Betou, cerca de 60% dos refugiados vivem em casas de famílias, enquanto os demais estão em abrigos nos campos de refugiados 15 de Abril e Ikpengbele, onde são registrados e recebem moradias temporárias e ajuda do ACNUR, do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e de seus parceiros. Eles têm acesso a cuidados de saúde e educação básica para as crianças.

O ACNUR e seus parceiros também organizam cursos de formação profissional e de alfabetização para adultos. Sylvia e sua amiga Janis nunca terminaram o ensino fundamental, enquanto Bénédicte nunca foi à escola.

Elas agora terão a chance de se alfabetizar na língua francesa. Enquanto isso, as três jovens mães estão felizes simplesmente por estarem vivas, seguras e juntas.

(Por Louise Culot em Betou, República do Congo, para o ACNUR)