Sahel, Líbia e Saara Ocidental são focos de violência e instabilidade na África, alerta chefe da ONU

No Sahel, um a cada sete indivíduos não tem comida e uma a cada cinco crianças não chegará aos cinco anos de idade. Pobreza e instabilidade alimentam ações de grupos terroristas.

Na Líbia, violações em meio ao conflito interno poderão ser consideradas ‘crimes de guerra’. No Saara Ocidental, crise humanitária ‘esquecida’ vai completar 40 anos em 2016, afetando milhares de famílias por gerações. Ban Ki-moon visitou a região.

Ban Ki-moon visitou hospital pediátrico na capital de Burkina Faso, durante sua passagem pelo país. Foto: ONU / Evan Schneider

Ban Ki-moon visitou hospital pediátrico na capital de Burkina Faso, durante sua passagem pelo país. Foto: ONU / Evan Schneider

Em visita à África, desde a semana passada, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, alertou para o ‘triplo perigo’ enfrentado pelas populações da região do Sahel. Pobreza, insegurança e degradação ambiental ameaçam a paz e geram instabilidade em países como Mali, Nigéria, Níger e Sudão do Sul.

O chefe da ONU também expressou ‘profunda preocupação’ quanto à conjuntura da Líbia, onde atos de violência poderão ser considerados ‘crimes de guerra’.

Ban Ki-moon chamou atenção ainda para o imbróglio entre o Saara Ocidental e o Marrocos. Conflito, que vai completar 40 anos em 2016, foi descrito como uma das ‘tragédias humanitárias esquecidas do nosso tempo’, afetando milhares de refugiados do povo sahrawi por décadas.

Esforços de Burkina Faso e da Mauritânia têm contribuído para conter riscos no Sahel

A faixa do continente africano conhecida como Sahel atravessa oito países: Senegal, Mauritânia, Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria, Camarões e Chade. Essas últimas cinco nações enfrentam situações de segurança ‘voláteis’ por conta da ação de grupos extremistas, como o Boko Haram.

Estimativas da ONU indicam que, na região, um a cada sete indivíduos não tem comida, uma a cada cinco crianças não chegará aos cinco anos de idade e 4,5 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas. Comunidades do Sahel também têm lidado com condições ambientais duras e choques climáticos cada vez mais extremos, como estiagens prolongadas ou enchentes violentas.

“Eu estou especialmente preocupado quanto às atividades interconectadas de grupos criminosos e organizações terroristas. Os povos locais pagam o preço mais alto”, afirmou Ban Ki-moon, que lembrou que a violência do norte do Mali levou 48 mil pessoas a fugir para a Mauritânia.

Em passagem pelo país, na sexta-feira (4), o secretário-geral elogiou os esforços das autoridades mauritanas, que participaram ativamente da criação do G5 do Sahel, grupo formado pela Mauritânia, Mali, Níger, Chade e Burkina Faso para definir ações conjuntas de segurança e desenvolvimento. O organismo decidiu recentemente pela criação de uma célula regional na capital da Mauritânia, Nouakchott, a fim de combater o radicalismo e o extremismo no Sahel.

O chefe da ONU também destacou outros avanços na política mauritana, como os progressos no combate à mutilação genital feminina e o estabelecimento de leis nacionais para penalizar a escravidão e a tortura. “Tais práticas abomináveis não têm lugar no mundo moderno”, disse o secretário-geral.

Na véspera (3), Ban Ki-moon visitou Burkina Faso, onde expressou sua admiração pelo povo burquinense, que passou por ‘momentos dolorosos’ nos últimos anos, sem deixar de apostar na democracia.

Em 2014, protestos levaram à saída do poder do ex-presidente Bliase Compaoré, que ocupou o posto por 27 anos. Em 2015, um golpe militar organizado pela antiga guarda presidencial colocou em risco a democracia do país, mas foi contido por movimentos populares e outras entidades das forças armadas, segundo fontes da mídia. No início desse ano, em janeiro, ataques terroristas deixaram mais de 29 mortos na capital Ouagadougou.

Ban Ki-moon visitou hospital pediátrico na capital de Burkina Faso, durante sua passagem pelo país. Foto: ONU / Evan Schneider

Ban Ki-moon visitou hospital pediátrico na capital de Burkina Faso, durante sua passagem pelo país. Foto: ONU / Evan Schneider

O dirigente máximo das Nações Unidas elogiou as contribuições do país para a manutenção da Missão de Paz da ONU no Mali (MINUSMA). Ban Ki-moon também ressaltou os investimentos das autoridades em combater a subnutrição no território burquinense. “O número de crianças que sofrem de má nutrição aguda e se beneficiam do tratamento triplicou de quatro mil, em 2011, para 120 mil, no ano passado”, afirmou.

Imbróglio entre Marrocos e Saara Ocidental prolonga crise enfrentada pelo povo Sahrawi; conjuntura na Líbia foi considerada crítica

No domingo (6), Ban Ki-moon chegou à Argélia, onde solicitou ao governo que tente apaziguar, enquanto ator externo influente, as tensões na vizinha Líbia. O secretário-geral expressou sua gratidão às autoridades argelinas por sediarem as negociações de paz para o conflito líbio.

“Há informações alarmantes vindas da Líbia sobre atos graves que podem ser considerados crimes de guerra”, ressaltou o chefe da ONU. Caso a conjuntura não melhore na frente política, “a crise humanitária vai piorar e ameaças à segurança das pessoas, incluindo ataques pelo Estado Islâmico, vão se multiplicar e se expandir”. Ban Ki-moon elogiou a Argélia, que soube ao longo de sua história combater o terrorismo sem desrespeitar os direitos humanos.

Durante sua visita ao país, na cidade de Tindouf, o secretário-geral conheceu refugiados do conflito entre o território do Saara Ocidental e o Marrocos.

O chefe da ONU reiterou e lamentou que nenhum progresso real foi feito em negociações rumo “a uma solução mutuamente aceitável, justa e duradoura, baseada na autodeterminação do povo do Saara Ocidental”. Desde 2004, o Conselho de Segurança tem solicitado a realização de um referendo para que seja avaliada a vontade da população desse território quanto ao futuro. A Frente Polisario, movimento político do Saara Ocidental, quer que o pleito inclua a opção pela independência em relação ao Marrocos.

“O mundo não pode continuar a ignorar os refugiados do povo sahrawi”, disse Ban Ki-moon, a respeito de um dos grupos mais afetados pelo duradouro imbróglio, que teve início em 1976, com conflitos violentos entre o Marrocos e a Frente Polisario do Saara Ocidental. Um cessar-fogo foi acordado entre as partes em 1991. A trégua e a possível realização de um referendo estão sob monitoramento de uma Missão da ONU que atua na região.

Segundo o secretário-geral, as condições de vida das famílias deslocadas, vivendo em alguns dos campos de refugiados mais antigos do mundo, são ‘inaceitáveis’. Para Ban Ki-moon, é fundamental ‘alcançar uma conclusão’ para a situação de segurança do Saara Ocidental, a fim de evitar que criminosos, traficantes e extremistas cheguem à região.

Doadores internacionais também podem aumentar a verba disponibilizada para prestar assistência aos afetados pelo conflito.