Secretário-geral da ONU pede que líderes iraquianos se unam para frear violência

Agências das Nações Unidas também alertam que a crise de segurança impõe riscos para a atenção médica e aos mais necessitados, assim como pode provocar danos permanentes ao patrimônio cultural do país.

Deslocados do conflito no Iraque. Foto: UNAMI

Deslocados do conflito no Iraque. Foto: UNAMI

“Encorajo a todos os líderes iraquianos – políticos, militares, religiosos e comunitários – que garantam que seus seguidores evitem atos de represália e se reúnam com um espírito inclusivo para responder às graves ameaças para o país”, afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, nesta terça-feira (17).

O pedido do chefe da ONU para todos os líderes no Iraque ocorre em meio à rápida deterioração da situação de segurança no país. Com esse apelo, Ban espera prevenir novas retaliações sectaristas, como as execuções sumárias massivas atribuídas ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) e frear a espiral de violência que já provocou o deslocamento massivo de milhares de pessoas.

“Há um risco real de um aumento de violência sectária em grande escala, tanto dentro do Iraque como além das suas fronteiras”, disse Ban.

O chefe das Nações Unidas acrescentou que o mais importante nesse momento é garantir a existência de um Estado no Iraque, ressaltando que sunitas, xiitas e curdos devem ser capazes de viver em harmonia, respeitando e defendendo os direitos humanos e os valores das Nações Unidas.

A situação de segurança no Iraque continua a deteriorar-se após a captura de Mossul no último dia 10 de junho. A violência foi marcada por inúmeras violações de direitos humanos e forçou o deslocamento de cerca de 500 mil pessoas, cuja maioria procurou refúgio na região do Curdistão.

Agências humanitárias trabalham para atender aos deslocados e proteger as vítimas. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) solicitou a proteção dos corredores humanitários, onde autoridades locais e representantes da ONU trabalhem para fornecer ajuda às pessoas mais necessitadas em Mossul e em outras áreas, especialmente ao longo da fronteira.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que os danos à infraestrutura e unidades de saúde nas áreas afetadas podem levar a uma crise ainda mais grave nesse setor e dificultar o acesso das pessoas aos tratamentos necessários.

Por outro lado, a diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Irina Bokova, pediu aos iraquianos que protejam o seu patrimônio cultural. Temendo que lugares e peças possam ser saqueados e destruídos, assim como aconteceu há alguns anos no Iraque e recentemente na Síria, ela lembrou a todos que o patrimônio cultural do Iraque “representa um testemunho único da humanidade, das origens da nossa civilização e da convivência interétnica e inter-religiosa”.

Iraquianos que fogem dos conflitos no país necessitam desesperadamente de abrigo

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) relatou que a escassez de abrigos está emergindo como um dos principais desafios para muitos dos milhares de iraquianos que tiveram que fugir da violência da semana passada no norte da cidade de Mossul para buscar abrigo na região do Curdistão iraquiano.

Autoridades locais disseram que 300 mil pessoas procuraram por segurança nas províncias de Erbil e de Duhok. A equipe do ACNUR relatou que muitos chegaram com um pouco mais do que as roupas que vestiam. Muitas pessoas não têm dinheiro e nem para onde ir. Enquanto alguns ficam na casa de parentes, outros ficam temporariamente em hotéis, onde seus fundos já estão se esgotando. Muitas famílias em Duhok também estão abrigadas em escolas, mesquitas, igrejas e edifícios inacabados.

“Um número crescente de pessoas está ficando em um campo de trânsito próximo ao posto de controle de Khazair, a cerca de 40 quilômetros de Mosul”, disse o porta-voz do ACNUR, Adrian Edwards, em Genebra.

“Ao longo dos dois últimos anos, o ACNUR tem ajudado com barracas e está fornecendo lonas, kits de higiene e outros itens de assistência humanitária aos deslocados. As comunidades que acolhem essas pessoas estão fornecendo refeições e outros alimentos. As agências da ONU estão instalando latrinas, depósitos de água e fornecendo itens de ajuda”, disse Edwards.

Tayba, uma viúva de Mosul, chegou a Khazair na semana passada com três de seus cinco filhos, incluindo sua filha Asmaa, de 11 anos de idade, que possui uma deficiência. “Havia muito bombardeio em Mossul, a situação estava muito ruim. Balas estavam voando em nosso quintal. Meu vizinho foi baleado na cabeça”, disse ela ao ACNUR, acrescentando que não havia nem eletricidade, nem comida. Com isso, decidiram fugir.

“Chegamos ao posto de controle caminhando e pegando carona com pessoas que estavam indo para Erbil”, explica a senhora de 48 anos de idade. Ela não tinha dinheiro e nem ideia para onde ir, mas encontrou um lugar no centro de trânsito estabelecido no posto de controle de Khazair, localizado entre as províncias de Ninewa e de Erbil.

Tayba é muito grata pela ajuda que está recebendo, incluindo uma barraca, mas disse que Asmaa necessita de ajuda extra. “Necessitamos de uma cadeira de rodas para minha filha e de um lugar onde possamos tomar banho”, afirmou.

O ACNUR já entregou perto de mil tendas familiares para o novo campo de refugiados que está sendo construído pelas autoridades e ONGs de Garmawa, próximo a Duhok, na região do Curdistão.

“Ontem as equipes começaram a montar as tendas. Nós esperamos que o campo possa abrigar, inicialmente, cerca de 3 mil pessoas. Há planos para mais dois lugares em Minara, ao sul do posto de controle de Bedrike, e Zummar, próximo à Sehela, caso seja necessário”, disse Edwards.

Essa semana, a equipe de proteção do ACNUR recolherá mais informações sobre onde outros deslocados estão abrigados e como o ACNUR pode atender melhor as necessidades dessas pessoas. A equipe de proteção também está identificando os mais vulneráveis entre os deslocados, como pessoas idosas, aqueles que possuem deficiência, crianças e gestantes para que se possa fornecer ajuda humanitária e providenciar apoio emergencial imediato.

Edwards, do ACNUR, disse que enquanto a taxa de recém-chegados à região do Curdistão diminuiu nos últimos dias, o conflito continua em várias frentes e vários novos deslocamentos podem ocorrer. Outros deslocados estão espalhados fora da região do Curdistão. Alguns foram para Bagdá e redondezas, enquanto outros permanecem em Ninewa.

“Nossas equipes de monitoramento no posto de controle observaram que algumas famílias de Mossul estão retornando após ouvirem que os serviços de água e eletricidade foram re-estabelecidos. Outros dizem que estão retornando porque ficaram sem dinheiro e preferem retornar para casa a ficarem em mesquitas, construções vazias ou outras formas de abrigo coletivo”, observa Edwards. Com o fluxo em massa de pessoas, há uma enorme demanda por novas necessidades.