Síria: Chefe da ONU condena atentado em Damasco e pede ao governo e à oposição que busquem a paz

Ataque perpetrado pelo Estado Islâmico deixou cerca de 60 mortos e mais de 100 feridos em Damasco. Atentado acontece durante momento delicado, em que a oposição e o governo da Síria negociam, em Genebra, o fim do conflito no país. Para chefe de Direitos Humanos da ONU, crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante os confrontos não poderão ser anistiados.

Mercado na região de Sayidda Zeinab, ao sul de Damasco, onde o Estado Islâmico realizou um atentado no domingo (31). Foto: ACNUR / J. Wreford

Mercado na região de Sayidda Zeinab, ao sul de Damasco, onde o Estado Islâmico realizou um atentado no domingo (31). Foto: ACNUR / J. Wreford

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou, nesta segunda-feira (1), um atentado terrorista ‘hediondo’, ocorrido na véspera, nos arredores de Damasco, onde cerca de 60 pessoas foram mortas e mais de 100 teriam ficado feridas por conta de uma explosão. A autoria do ataque foi reivindicada pelo grupo extremista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (também chamado Da’esh). Episódio de violência acontece durante momento delicado para Síria, cujos líderes do governo e da oposição se reúnem em Genebra para encontrar uma solução política para o conflito no país.

O chefe das Nações Unidas afirmou que o povo sírio espera diálogos de paz credíveis. Para Ban Ki-moon, é essencial que o governo e a oposição sírios estabeleçam acordos que tragam melhorias para “a situação humanitária extrema da Síria”, definam um processo de transição política e os termos de um cessar-fogo. A respeito do atentado e da conjuntura do país, o secretário-geral disse que a população “merece mais do que a falsa escolha entre o extremismo e a repressão”. O ataque do Da’esh atingiu o santuário de Sayidda Zeinab, no sul de Damasco.

Ban Ki-moon também chamou a atenção para o papel dos membros do Grupo de Apoio Internacional da Síria (ISSG), que devem manter seus compromissos em pressionar pela liberação e segurança do acesso humanitário, em particular, para as áreas sob cerco. Países integrantes do ISSG também devem solicitar a libertação de pessoas arbitrariamente detidas e a suspensão imediata do uso indiscriminado de armas, incluindo de projéteis e do bombardeamento aéreo.

Para chefe de Direitos Humanos da ONU, crimes de guerra e contra a humanidade não terão anistia

Acerca dos diálogos de paz em Genebra, o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, enfatizou que nenhuma anistia deverá ser considerada ou permitida para os suspeitos de terem cometido crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Síria.

“Claramente, quando vemos, mais recentemente, a fome forçada do povo em Madaya – e existem outras 15 municípios e vilarejos – isso não é apenas um crime de guerra, mas um crime contra a humanidade, caso provado em tribunal, e essas são questões muito sérias”, afirmou. Al Hussein espera que as negociações tragam um fim ao conflito, marcado por abusos dos direitos humanos e violações do direito humanitário internacional.

Com participação da oposição, negociações pela paz começaram ‘oficialmente’

http://static.un.org/News/dh/photos/large/2016/February/02-01-2016SyriaTalks.jpg

Mediadores da ONU se encontram, oficialmente, com representantes da oposição síria. Foto: ONU / Jean-Marc Ferré

Também nesta segunda-feira (1), o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, reuniu-se, pela primeira vez de forma oficial, com membros do Comitê de Altas Negociações, grupo da oposição síria apoiado pela Arábia Saudita. No domingo (31), o representante das Nações Unidas já havia encontrado integrantes do Comitê, mas em ocasião informal.

Segundo Mistura, durante a reunião oficial, os oposicionistas expressaram seu desejo de observar, ao longo das negociações, uma redução da violência, a liberação de prisioneiros e o fim de cercos que já levaram diversas cidades à beira da fome, provocando a morte de dezenas de pessoas. “Sentimos que eles têm um argumento muito forte, pois essa é a voz do povo sírio pedindo por isso. Quando eu conheço pessoas da Síria, eles me dizem ‘por favor, não faça apenas uma conferência, faça algo que nós podemos ver e tocar enquanto vocês estão se reunindo em Genebra’”, afirmou o enviado especial.

O representante das Nações Unidas informou que ainda não recebeu, conforme solicitado, os nomes das pessoas detidas ao longo do conflito. “Acho que uma lista com os nomes, particularmente de mulheres e crianças detidas, deve ser o primeiro entre os sinais de que, de fato, há algo diferente acontecendo”, disse. Para o enviado da ONU, o primeiro objetivo imediato dos diálogos é manter todas as partes interessadas no processo e garantir que ninguém se sinta excluído das negociações.