Síria: ONU pede trégua humanitária para prestar assistência em Alepo e reparar redes de água e energia

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), cerca de 275 mil pessoas permanecem presas no leste de Alepo desde o início de julho, quando grupos armados tomaram a estrada de Castello – a última via de acesso remanescente à área.

Famílias deslocadas abrigadas no jardim de infância Teshreen, no oeste da cidade de Alepo, na Síria. Foto: UNICEF / Khuder Al-Issa

Famílias deslocadas abrigadas no jardim de infância Teshreen, no oeste da cidade de Alepo, na Síria. Foto: UNICEF / Khuder Al-Issa

Refugiados yazidis no campo de refugiados de Nawrouz, na Síria, a cerca de 40 quilômetros da fronteira com o Iraque. Foto: UNICEF/Razan Rashidi

Refugiados yazidis no campo de refugiados de Nawrouz, na Síria, a cerca de 40 quilômetros da fronteira com o Iraque. Foto: UNICEF/Razan Rashidi

Com mais de 2 milhões de pessoas impactadas pelos conflitos ao redor da devastada Alepo – onde agora várias áreas da cidade estão sem energia e água – a ONU pediu na segunda-feira (8) uma pausa humanitária para que os agentes possam reparar imediatamente as redes de água e eletricidade da região, bem como fornecer assistência às pessoas em necessidade.

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), cerca de 275 mil pessoas permanecem presas no leste de Alepo desde o início de julho, quando grupos armados tomaram a estrada de Castello – a última via de acesso remanescente à área.

Além disso, desde 6 de agosto, o acesso à estrada de Khanasser – a principal via de acesso para a parte oeste de Alepo – também foi cortado, elevando o número total de civis que vivem com o medo de assédio para mais de dois milhões.

Em comunicado à imprensa, o coordenador residente humanitário da ONU para a Síria, Yacoub El Hillo, e o coordenador regional humanitário para a crise no país, Kevin Kennedy, observaram que, ao longo das últimas semanas, as comunidades, situadas tanto na parte leste quanto na oeste de Alepo, têm suportado o peso do conflito, com inúmeros civis mortos ou feridos.

“Atentados a hospitais e clínicas continuam inflexíveis, comprometendo seriamente a saúde e o bem-estar de todos os cidadãos em Alepo”, ressaltaram, acrescentando que ataques às infraestruturas ocorridos durante a semana danificaram severamente o sistema elétrico e de água da cidade, deixando mais de 2 milhões de civis sem eletricidade ou acesso à rede pública de água.

Ainda de acordo com os coordenadores, a água disponível em poços e tanques em Alepo não é suficiente para sustentar as necessidades da população. “A ONU está extremamente preocupada que as consequências sejam terríveis para milhões de civis se as redes de eletricidade e de água não forem reparadas imediatamente.”

“A ONU está pronta para ajudar a população civil de Alepo, uma cidade agora unida em seu sofrimento. No mínimo, as Nações Unidas exigem um cessar-fogo pleno ou pausas de 48 horas semanais para alcançar os milhões de pessoas necessitadas em toda a cidade, bem como para reabastecer as reservas de alimentos e medicamentos, que estão acabando”, acrescentaram.

ONU pede o fim de ataques a instalações médicas e infraestruturas civis na Síria

A ONU pediu na semana passa (2) que todas as partes envolvidas no conflito na Síria acabem com a destruição de instalações médicas e outras infraestruturas civis, que são essenciais para a população local. Ataques a unidades de saúde deixaram dezenas de mortos e feridos, incluindo mulheres grávidas e crianças.

De acordo o OCHA, três hospitais – em Andan, Hor Village e Haritan – foram danificados por ataques aéreos realizados em 30 e 31 de julho. Uma maternidade, em Idlib, e o Hospital Jasim, em Daraa, também foram atingidos no mesmo período.

Além disso, um ataque atingiu um banco de sangue em Atareb, na província de Alepo, em 31 de julho. Segundo informou o OCHA, muitas das instalações médicas atingidas não estão funcionando atualmente.

Ainda no dia 30 de julho, um bombardeio aéreo na cidade Saraqeb, em Idlib, atingiu uma universidade, resultando em danos parciais na infraestrutura da instituição. No dia primeiro de agosto, um outro bombardeio, desta vez na Universidade de Alepo, no oeste da cidade, deixou cerca de 11 alunos feridos.

O diretor regional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para o Oriente Médio e Norte da África, Saad Houry, também chamou a atenção para a proteção de todas as crianças em Alepo.

Em comunicado à imprensa, o UNICEF disse que a agência está extremamente preocupada com a segurança e o bem-estar de todas os menores atingidos na escalada de violência na cidade.

“A escalada do conflito coloca as crianças em circunstâncias terríveis e terá consequências desastrosas para os menores nos próximos anos”, disse Houry.

Conflitos violentos em áreas densamente povoadas no oeste da cidade forçaram o deslocamento de 25 mil pessoas. Muitas famílias estão abrigadas em mesquitas, universidades e jardins públicos.

“Pedimos que todas as partes em conflito nos concedam o acesso humanitário sem entraves às crianças e às famílias onde quer que elas estejam em toda a cidade”, disse o comunicado.

Ban reitera condenação de crimes hediondos contra yazidis

Marcando o segundo aniversário da tragédia de Sinjar, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou os crimes hediondos que continuam sendo cometidos pelo Estado Islâmico no Iraque e do Levante (ISIL) contra as diversas comunidades étnicas e religiosas do Iraque.

O chefe da ONU também expressou profunda preocupação com a segurança das pessoas que permanecem em cativeiro do ISIL, especialmente as milhares de mulheres yazidis e crianças, e pediu que todos envolvidos façam da luta contra o grupo armado o objetivo principal de suas operações militares.

Segundo Ban, os crimes cometidos por ISIL no Iraque constituem “crimes de guerra, crimes contra a humanidade e até mesmo genocídio”. Ele pediu que o governo iraquiano e a comunidade internacional continuem apoiando os sobreviventes.

Além disso, Ban solicitou às autoridades iraquianas que identifiquem maneiras de trazer os autores desses crimes à justiça o quanto antes, com base em julgamento justo e processo legal, o que poderia incluir a opção de um recurso ao Tribunal Penal Internacional (TPI).

No dia 3 de agosto, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria recomendou que o Conselho de Segurança da ONU encaminhe a situação para o TPI ou um tribunal especial.

O relatório desenvolvido pela Comissão, intitulado “Eles vieram para destruir: os crimes do ISIL contra os yazidis”, lançado em 16 de junho de 2016, determina que ISIL cometeu crime de genocídio, bem como vários crimes contra a humanidade e crimes de guerra contra os yazidis.

Segundo a comissão, dois anos depois da tragédia, os crimes cometidos por ISIL contra a comunidade, incluindo o genocídio, continuam “em curso”, com mais de 3,2 mil mulheres e crianças nas mãos do grupo e sujeitas à violência quase inimaginável.

“As Nações Unidas e a comunidade internacional devem tomar medidas para acabar com o genocídio em curso, para cuidar de suas vítimas e trazer os responsáveis à justiça”, disse o comunicado.